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Mas não pense que eu não mudei. Tudo pode ser visto de outra maneira. Você sempre gostou dos diferentes posicionamentos da câmera. Por isso eu lhe peço: me deixe aqui pensando nas coisas e me ouça. Mudei de emprego, voltei a fumar, deixei de beber e me masturbar. Mexi no tempo enquanto me emprestava às lembranças. Das que se movem, minha cara, das mutantes águas que nos salpicam e se transformam em ácidos. Continuo saindo de manhã para comprar jornal. Só que agora, por uma razão pulsante no peito, minha sensibilidade se ofende quando vejo outras mulheres comprando jornais para os seus maridos. Sobre elas paira uma beatitude boçal. Suportam-se em náuseas? Nenhum rumor de indignação. Não acredito que há mais de dez anos elas continuem comprando jornais para eles da mesma forma que enterram punhais nas suas costas. Cobrem-se de uma resignação odiosa, respiram compassadamente, e num esforço só experimentado quando trepam, ordenam com um sorriso trêmulo que o jornaleiro lhes venda as impressões do cotidiano do mundo. Não existem homens dentro delas, apenas trigonometrias. Fico hipnotizado. Por isso lhe digo, eu não guardo fotografias. Esta bênção de manter-me escondido das coisas que você largou aqui não é rancor não, é a expressão de minha perversa mania em ser indiferente às cerimônias de cetim. No final tudo ficou desse jeito: você só vinha a mim com a intenção de abater meus escudos, meu desdém pelos retratos. Carente das historinhas ruminadas nas calçadas, jamais compreendeu meu desinteresse pelo seu irritante nacional-populismo. Essa mania de rasgar-se em nome de um vem-aqui, não-farei-perguntas, vamos-nos divertir; apenas celebrando curtas corridas e afagos pequeninos. Insisto que no final você abandonou-se à simpatia das gentes como se estivesse numa praia. Muitos rostos, sorrisos querendo achar um culpado e aí pelas quatro da tarde, trinta e cinco pessoas numa mesa tentando ferozmente vislumbrar o minuto seguinte. Que lhe importa, então, meu desprezo por essas questões se nem sequer as apreendeu? Por quê você ainda liga para mim ? Raras são as vezes que, nas conversas com seus amigos, ou de pessoas que conheceram minha inadequação com a insalubridade do cotidiano de vocês, não surja esta pergunta. Por quê você morou com esse homem? Já disse, nossa história desprendeu-se das fotografias e é hoje uma criatura que vive num espasmo de querer ser revolvida, enlaçada num jogo chamado futuro, e que pela insistência em sustentar um ementário de conexões ele não acontece. Descanso e suspensão. É disso que precisamos. E digo porque estou deitado num labirinto de irrefutável lógica. Nada de agonias, nada de funduras, nem paz orgulhosa. Apenas a permanência na desembocadura da consolação me deixa mais espesso para lhe dizer que nossa história foi medíocre. Por isso só nos restaram fotografias. Em volta delas não há nada a não ser um costume pela perfeição. Não há fatos divertidos, nem situações que corrompam a passividade. Tem alma, mas essa se desconheceu antes do clics. Ficava nervosa, e às vezes dava a impressão que, fotograficamente falando, dirigia-se cordial e instantaneamente em busca de um outro personagem. Que interessante. Dentro delas parecemos estranhos em secreta harmonia. Isso se nota. Mas mesmo assim não as quero guardar. Foi uma surpresa o seu telefonema recebido ontem porquanto não esperava ouvi-la tão breve. Não é seu costume acolher formas que já morreram. Mas você ligou. E eu preciso juntar suas falas numa outra sabedoria que consiga cruzar a fronteira que separa o fim dos novos começos. Quantas sombras ainda existem nas suas palavras. Todas perigosas e cheias de atropelos, sem pretexto algum para serem trazidas. São avaras e obedecem a suas aptidões. Pode ser que seja por conta disso. Depois que você desligou eu me refiz do seu mundo inapreendido e colei-me às ênfases. Às superações sem insígnias nem ressentimentos. Eu tive uma rebelião dentro de mim, mais feroz do que aquela que aspirávamos para nós; foi entrando no nosso lugar, e de tão férrea e permanente que se transformou foi me levando a outras iluminuras. E eu fui caindo, caindo sem conseguir mais encontrar a trilha que me traria de volta a você. Fui chamado de ausente. E você também foi mergulhando dentro de um abismo que já sei o nome. Do que fomos emergiu outra mulher e outro homem, restando apenas uma vida. E nessa cabe um único vestígio: o meu. Volto às fotografias. Escolho uma na esperança de encerrar o inventário dos anos passados juntos. Não fosse um quadro que aparece pendurado na parede da sala não conseguiria nos reconhecer. Parecemos anônimos locatários, perplexos residentes de cômodos onde persiste um alto silêncio, cuja lei que o rege é rastejar na ausência. Quando os gestos ainda pontilhavam os corpos, nossa morte era insuspeita, os pensamentos queimavam no horizonte e nas mãos de quem nos tocava. A nudez era exata e não precisava de anúncios para ajoelharmos e nos embolarmos em línguas e abraços. Nada nos desatava e os dias, os anos, eram medidas que não nos serviam. Mas o incômodo de existir nos obrigou a sair dali e nos levou para outros caminhos, onde não conseguimos mais amar, nem explodir. E aqueles anos, passados no apogeu de uma viagem metalescente, de nada mais nos serviram. A distância é um refúgio que nos observa com olhos descoloridos, atravessa cidades, viaja neutra nas zonas de fogo, perscruta segredos, respira e sobrevive quando percebermos que seu sangue circula apenas para consagrar cenários. Bem, nesse caso talvez seja melhor eu retroceder e o olhar o registro de um beijo dado num país estrangeiro. Ele é precário e parece ter sido engolido. Em Toledo limamos a esperança. Nas suas altas torres eu quis ficar um pouco mais, trançado em seu peito, num campo aberto aos assombros do seu antepassado, na réstia de brasões que se extinguiram e reclamam haveres, eu quis renascer ali, clandestino, e ouvir suas frases inteiras. Contudo, por obstinação às conjugações, você se encheu de perguntas. Moldamos uma matéria áspera, cheia de resistências e segmentos que não conseguimos transpor. A nós, Toledo nos regalou uma fotografia de colinas e poças porque era isso que buscávamos. Se no telefone você me perguntasse por onde andam as correntes que coordenaram seu deus em mim, diria que nenhuma religação é cega e aceita sucumbir às rebeliões. Seu deus é uma idéia que está longe de ser animada, desconfia da morte e das ancestralidades que pastam em você. Enquanto o meu brita pedras, acorda mais cedo e sofre com as danações engendradas pelo seu deus. Sua fé é coexistente. A minha comete erros. Mas é livre para desprender-se das imperfeições que crescem nas danações que habitam a gente. Porque uma vez quis experimentar o gume de um coração que estabeleceu cláusulas tristes em mim, seu deus me acusou de sombrio. Reconheço meus guerreiros e sei que não me deixariam cair na tentação parricida. Portanto, a ele deixo as palavras do meu retorno, o fosso, o a sós comigo, a isenção e as muitas vidas que ele não renovou e deixou trancadas dentro de você. Hoje eu penso. O desejo possui dedos e cava debaixo da terra toques ensimesmados. Há uma desordem nisto. E aquele que não logra desenterrá-los não partilha suas ambições. Por não querer tomar o destino nas mãos, nascem e morrem no mesmo lugar. São nervuras intocadas. Uma noite em Nova York a ponta dos seus dedos quase tocou e alguém viu. É uma fotografia abdicada. Nesse dia o tempo parecia não subir. Estávamos num bar, e uma moça cruzou por detrás de mim olhando seu braço enrolado no meu pescoço. Tinha uma banda tocando não sei bem o quê. Seus olhos e sua boca fitavam meu nariz. E usando tudo isso em proveito próprio, o fotógrafo disparou o clic. Eu estou mirando a câmera indiferente ao seu enrosco, sinto-me desconfortável e no dia não entendi por quê. A verdade é que não havia nada ali que me deixasse excluído. Você me examinando delicadamente, a moça olhando seu braço, a música e sobre mim uma reclamação escondida. Pareço uma sombra que você parece amar. Não teria sabido o que me causava a falta de esplendor não fosse revendo esta foto. Seus dedos não me tocam, ameaçam, mas refluem num requinte de primitiva intencionalidade. Mais que isso. Sua boca está cerrada, dando assim um aspecto selvagem a sua ternura. Era impossível não me tocar, mas não combina com você. Um ser amoroso, mas também cruel porque vive de ameaças. Vive a vida sem lembrar-se direito do que é isto. Como explicar que não foi a ausência da ponta do seus dedos que me levou a esquivança num bar em Nova York? Vou lhe dizer uma coisa. Posso violentar um instante, com a cara lívida e sem o menor remorso. Sou eu mesmo quem destrói o próprio caderno de anotações que trago da vida. Penso desordenadamente, sou fragmentado mas quando tenho que ir a algum lugar, atravesso a rua, tomo um táxi e vou. Não ameaço nem fico criando fórmulas que acabem por me fazer desistir. Não quis olhá-la no bar, preferi o fotógrafo, não me dei conta da moça que cruzava atrás nem da música que tocavam. Passou. Mas a coragem para expor meu desencanto, que se deu antes do bar, antes de Nova York, antes do seu gesto encolhido, isso eu tenho. E você não entende essas coisas feias e harmoniosas. Porque eu me espalho quando o mundo fica insuportável, e ninguém vai mais longe que eu nessas horas. Toco as coisas doloridas e é o mínimo que posso fazer a fim de chegar ao caroço da feiúra. A vida, minha cara, não se conjuga, se depura. Aquele homem com quem você viveu continua aqui. Só que agora num território mais vazio, mas próximo dos ecos e das incertezas que costumam me cravar os dentes todas as vezes que alguém me insinua que não deu para entender direito. Quando me canso, não adormeço. Estou difícil demais para ter vontade de morrer ou de me encolher no canto de outro coração. Mesmo que a escolha seja feita apalpando a intimidade com indiferença ou obrigada afobação. É verdade que não posso mais contar com as asas dos seus vôos curtos, que sempre acolhe o cansaço natural dos viajantes. Talvez elas sejam boas, talvez confirmem que o perigo expõe-se em gestos interrompidos. Mas eu prefiro assim. No dia seguinte eu sempre recomeço, insuportável, escutando ou inventando novas liquidações onde repito baixinho tenho que lutar. E depois, se por integridade ou desconfiança o modelo não me serve, mudo novamente. No fundo há sempre um Fecit Potentiam.
São três da tarde e dentro de uma hora vamos nos ver. Até então eu consegui me manter à tona mirando as fotografias sem os olhos entupidos. Não há mais nada importante aqui em casa para lhe devolver além das fotos solicitadas. Estou existindo e procuro me distrair balançando os guardados que incentivam meus paroxismos. Começo trabalhos e também os finalizo, esboço planos e também desvarios, e quando o dia chega ao fim deixo-me perguntar. Estou livre? |
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Ilídio Soares |