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Sempre que passo pela frente da casa, vejo sua cabeça entre os cachos das acácias. Não consigo encarar os olhos embaciados. Meu peito acelera, quero parar, falar... que custa um bom-dia? Mãos trêmulas, um sufocar na garganta, pesos amarrados nas pernas, uma contração no plexo. Não tenho coragem. Mas ontem ela estava em seu portão. Branca, leve vestido branco. Sorriu. Falou o bom-dia que lhe neguei tantas vezes por timidez. Seguiu-me com o olhar úmido. Refiz o mesmo caminho três, quatro vezes. À tardinha, ela estava. Mesmo sorriso, um boa-tarde risonho. Daquela vez perguntou se eu morava ali perto. Parei. O coração explodia. Respondi, a voz sumida. Estávamos conversando. Chama-se Esmeralda. Eu disse meu nome, os lábios ressequidos. Convidou-me a entrar, me fez sentar numa cadeira de estofado cor-de-rosa, sentou em frente. Disse que morava naquela casa desde o fim da guerra - mas que guerra? Não sei de guerra nenhuma. "Faz muito tempo. Você nem era nascido. Meu menino..." A luz do crepúsculo bateu forte nas carquilhas de seu rosto, na encovada boca, resvalou pelos brancos e ralos cabelos. Começou a cantarolar: Arrastou-me até a cômoda trabalhada com antigas marchetarias, abriu uma gaveta e vi os bordados, tules, corpetes rendilhados. Meteu a mão sob os panos e tirou uma fotografia, que me mostrou, séria. Entre manchas desbotadas, o rosto de um moço com barba, gravata de laço, chapéu negro. Nada pude dizer. A dor do ciúme foi como um travo que subiu do peito e me embargou a voz. Ficamos a nos olhar, mudos. Lentamente ela fez um esforço, espichou-se nos chinelos e colou devagar a boca na minha. Lambi aquelas rugas fragosas, os pelinhos brancos, a verruguinha na comissura dos lábios. Balbuciou alguma coisa e as dentaduras estremeceram. Abracei suas magras costas e enlouqueci de desejo. Mas Esmeralda se afastou: "Por hoje chega." Mandou-me sair, um tanto ríspida. Empurrou-me para a sala, para a varanda, para o jardim. "Foi só a primeira visita." Devo passar de novo amanhã pelas acácias. Mal consigo
esperar. |
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Fernando Borba |