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- Maninhooo! - Que foi? - Cachorro é com "xis" ou com "ceagá"? - Como é que é? - Aproximou-se o irmão da mesa onde sua irmãzinha fazia o dever de casa. Uma redação sobre "o meu melhor amigo". - Ih, minha irmã! Eu não sei, não! Parou por um tempo, olhou o papel de um lado, de outro. Tudo isso em silêncio. Parecia um médico que se mantém absorto na análise de um paciente, sem pronunciar uma só palavra, enquanto o cliente aguarda, ansioso, pela cura proferida pelo doutor. Alguns, em vez de médico, sentem-se num tribunal e, nesse caso, a cura cede lugar ao veredicto: - Ah, escreve cão que dá no mesmo! - e foi saindo. - Volte aqui, moleque! Viraram-se, de uma só vez, para o pai que já não mais tinha o rosto disfarçado em folhas de manchetes do dia. - É assim que você ajuda a sua irmã, é? Esse é o exemplo que você quer dar a ela? Preste atenção, menino! Ela pediu ajuda a você porque tinha dúvidas no dever. A dúvida era sobre uma palavra e olha só o que você responde a ela! Que ajuda foi essa? Quer dizer que se ela pedir ajuda a você algum dia, é assim que você vai ajudá-la? Ela é a sua irmã, rapaz! Sua obrigação era sentar-se com ela e, já que nenhum dos dois sabe como se escreve, que procurassem num dicionário. Você está de castigo! Vá para o seu quarto e fique lá até eu mandar você sair. - Mas, pai... - Não tem mais nem menos. Vá agora e... - Júnior... você está exagerando! - manifestou-se a mãe dos garotos. - O quê?! Você vai dar razão a eles agora, é, mulher? - Não é essa a questão, Júnior. Só não há motivos para esse escarcéu todo. Ele tentou ajudar do jeito dele. E até foi criativa a solução dele. A gente não pode negar isso. - Criativa, vírgula! Ele tinha era que esclarecer a dúvida dela e não tentar sair da forma que ele achou mais conveniente. E não admito que você me contrarie na frente de ninguém! - E curvou-se de uma vez para frente, dando um soco na mesa, derrubando o arranjo de flores e machucando a mão já prejudicada pela partida de vôlei da sexta-feira com os amigos. - Ai, minha mão! - Ai, meu arranjo!... - já soluçava a esposa, enquanto tentava acudir as flores, como se tivessem ferido um filho. - Tá vendo o que você fez, Júnior?! Culpa sua, Júnior! Quem mandou você ser grosso desse jeito, Júnior? Precisa disso?... Hein, Júnior? - Culpa minha, uma ova! Culpa sua! Da próxima vez você vê se me apóia em alguma coisa. Aquele moleque, em vez de ajudar a irmã, fez o que fez. Não ajudou no que ela queria e você ainda vem dizer que a culpa foi minha?! Paciência tem limite! Ai, minha mão! - A dor estava insuportável o suficiente para diminuir o tom de voz que, até então, ele insistia em sustentar. - Eu não vou ser complacente com esses seus métodos, Júnior! E deixe eu ver essa mão aí - Calma aí que eu vou buscar um gelo. Deixe sua mão quietinha que eu já volto. Parece que o espaço da calmaria ainda estava preservado naquela casa. São as águas que se agitam conforme as nuvens ficam mais negras, mas que sempre cedem seu lugar ao sol que é mais forte. Toca o telefone. - Alô! - atendeu o Júnior, num tom ríspido. - Mãe?! Desculpe, mãe! É que eu estou nervoso! - Ah! Foi seu neto que causou essa confusão toda. Você acredita que a irmã dele pediu ajuda no dever de casa, perguntou se cachorro era com "xis" ou com "ceagá" e ele, por não saber, mandou que ela trocasse a palavra cachorro por cão porque "...dá no mesmo"? Veja se pode uma coisa dessa! E ainda tem apoio da mãe! Deve ter sido do exemplo dela que ele aprendeu a ser assim. Absurdo... - O quê, mãe? A senhora está passando mal? - Mas, como assim, dor no peito? - A senhora tomou o remédio? - Aquele que o médico passou, né, mãe? Ora, qual! - Mas como é que eu vou saber? Ele passou foi pra você, mãe! - Mas mãe... eu... mãe... calma... escuta... calma... mãe... eu não estava com a senhora no dia da consulta, mãe! Mas que coisa! - Não estava. A senhora não se lembra que foi no dia do conselho, eu deixei a senhora lá e depois fui buscá-la? - Então, mãe! Foi isso, mesmo. - Faça o seguinte, mãe... quais foram os remédios que ele passou pra senhora? - E há quanto tempo a senhora não toma nenhum deles, hein? - Ah, então é por isso, né? Tomou só no dia da consulta. Isso tem quase um mês, mãe! A senhora não se cuida? - Calma! Calma! Respire fundo, senão piora. Assim!... Desculpas. - Faça o seguinte, mãe: tente lembrar-se, mais ou menos, qual era o remédio pra qual problema. Se não lembrar, tome qualquer um. Mal não vai fazer, né, mãe? - Então! - Ou melhor: tome os três. Se não melhorar a senhora liga de novo que a gente vai ao médico, tudo bem? - Tá bom, então, mãe. Um beijão. E vê se cuida dessa saúde porque já não tem mais idade pra brincar com ela! - Um beijo, mãe. Tchau. Nesse instante, Totó entrou correndo e latindo pela sala, abanando o rabo para a garotinha que aguardava, sentada, o desfecho daquela história toda. Saíram da sala e foram brincar no quintal. O garoto ainda esperou a mãe chegar com o gelo para seu pai. Depois que viu que estava tudo sob controle, saiu e foi brincar em seu quarto. - Quem era ao telefone, Júnior? - Minha mãe. - E o que ela queria? - Nada de mais! Passou mal, mas já está tomando os remédios, direitinho. - Então, dê aqui essa mão pra eu
cuidar. |
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Fabrízio Veloso Rodrigues |