Talvez consiga arrumar essa bagunça. Enquanto isso, continua a ouvir música. Nem é Cd. Prefere as rádios que vasculha pela Internet. Não gosta de nenhuma. É pelo prazer de encontrar algo novo. Perdida em alguma cidade mundo afora. Muda de estação freqüentemente. Com tanto sendo oferecido. Sintoniza Manaus, Singapura, Londres, Afeganistão e até um dial do Senegal. A variedade é imensa. Algumas consegue rápido. Outras nem chega a abrir. Fica conectando. Às vezes é irritante. Conexões lentas. Servidores entupidos. Para acessar uma rádio em São Paulo o ping vai até a putaquepariu. No meio do caminho alguns pacotes se perdem, chegam atrasados. Outros desaparecem misteriosamente. Mas e daí? O importante é estar ligado. Bilhões de pessoas. Trilhões de coisas para ver, ouvir e baixar. A maioria sem nenhuma importância. Quem pode ter tudo? Talvez algum dia alguém consiga arrumar essa bagunça.

 
 

 

  
 
 
 

                

  
 

 

Os velhos passam o tempo na frente de suas casas com portas e janelas que dão para a rua. Não há nada para se fazer e os dias são longos e parados. Pontualmente às sete horas da noite entra a voz do Brasil. O sono chega e o silêncio reina absoluto na praça defronte a igreja de São Sebastião. Sem flores nem perfumes a cidade morre perdida no sonho de cada morador.

 
 

 
 
 
 
 
 

 

Às vezes pensa em ir embora, outra sente saudades da mulher e acha que vai morrer sem nunca ter visto o mar. Ou que já está um bagaço e não vale mais a pena. Sabe apenas o que vê pela tevê e nem liga se a terra onde mora é do governo. Diz que um dia a mata vai desaparecer e deseja ser enterrado na cidade onde nasceu. Mas acha que fica muito longe e na hora ninguém vai se lembrar.

 
 
 
 


 
  
 
 
 

 

Sente saudades da mãe, não muita do pai. Acha que não vale a pena chorar e assim como veio irá partir. Tem certas coisas que são difíceis de segurar. As paredes estão caindo e olha só: a porta está aberta. Mas certamente, depois de tanto tempo assim, esqueceram de trancar. E por não se lembrar de afagos ou outras alegrias, se quiser, pode agora entrar, beber, berrar e brigar. A casa está vazia e não há ninguém para acolher nem para dizer adeus.

 
 
 
 
 


 
 
 
 

 

         

   

Hoje quem paga a conta sou eu. Há noites em que é preciso arrombar a porta, tomar à frente, deitar à mão. Despedaçar a cabeça na calada madrugada. É na contracorrente da garganta que a voz verte bruta. Desce mais uma, meu irmão! Ontem o destino dançou num instante na ponta de um facão. Qual silêncio se segura, quando na rua o mundo grita?

 
   
   
   
 

 

  Claudio Eugenio Luz
 
Tenho 33 anos e moro em Santo André (a província, como gosto de chamar), São Paulo. Como forma de sustento leciono História na rede municipal de São Paulo.


clagraca@ieg.com.br