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Os filhos de Pinochet
Voltávamos de um passeio a Isla Negra, onde visitamos a casa de Neruda, fechada por ordem de Pinochet desde a morte do poeta, uma semana depois do golpe de 11 de setembro de 1973. Foi reaberta como museu ao final da ditadura. A umidade e a maresia do Pacífico, que a poucos metros se ajoelha diante do pequeno promontório, apodreceram livros e documentos. Mas lá estão ainda, guardando a mesma disposição dada por ele e Matilde, a coleção de marcadores de proa, quase todas olhando para o mar na imobilidade dócil das estátuas. Lá ainda a paixão pelo vidro, viva nos copos de todas as cores, nas garrafas de todas as formas. Os objetos do bar encimado pelos caibros onde ele inscrevia o nome de cada amigo que morria e a coleção de conchas de todos os mares do mundo. Destoando na forma, a grande haste de marfim, o dente do Nerfal que alguém lhe trouxe do
Pólo Norte. A escrivaninha, uma tabua rústica largada de um navio, a que chamava um "regalo del mar". Acima, a cama do casal, não tão larga para tão grande amor, disposta diante da janela de modo a estar sempre iluminada.
Voltando a Santiago no final do dia, conversávamos no carro sobre coisas da ditadura. O amigo chileno contava atrocidades e eu questionava aquela transição ainda mais conciliadora que a nossa quando somos interrompidos por Rodrigo, meu filho de dez anos, em seu espontâneo
portunhol.
– Se ele foi tão mau e fez todas estas coisas, por que vocês não o mataram?
Ia longe a explicação sobre a necessidade de não cutucar a direita para que tudo não recomeçasse quando ouvimos as sirenes. Pensei que era Lagos, o presidente. Algumas motocicletas, um carro negro, depois a longa limusine com um homem no banco de trás, outro carro e por fim duas ambulâncias.
– É ele – diz o meu amigo, sem esconder certo tremor na voz.
A caravana já distanciava quando pude entender. Era o próprio Pinochet voltando de sua casa de campo no final daquele domingo de um verão que já arrancara quase toda a neve da cordilheira, exceto a dos cumes
inalcançáveis. Não vira eu as ambulâncias? Elas o acompanhavam desde sua volta da Inglaterra, onde embarcou numa cadeira de rodas como um morto-vivo para descer quase lépido, acenando aos populares. Eram uma espécie de desculpa para o perdão que o Chile lhe concedia, recebendo-o como homem de Estado, oferecendo-lhe segurança e garantias.
Por que não o mataram? Tento eu também dizer a meu filho que matá-lo seria um tiro na democracia, não traria de volta nem os mortos nem os desaparecidos, nem aquelas mãos para tocar sua guitarra. Na véspera, ao comprar exemplares do CD Tributo a Victor Jara para presentear amigos "dinossauros" no Brasil contara-lhe sua história.
Os dias passaram velozes no Chile, entre empanadas e pasteis de choclo, e pêssegos, muitos pêssegos que eu comia pelas ruas recordando aqueles da minha infância numa fazenda de Minas que virou plantação de soja. No Brasil, um verão de violência. A volta ao trabalho já dissipa as lembranças da viagem quando vem a notícia de que os
seqüestradores do publicitário Washington Olivetto, desaparecido há 53 dias, são chilenos egressos de uma frente de ultra-esquerda que se largara do Partido Comunista, a FNMR. O mentor do
seqüestro, Mauricio Norambuena, participou de atentados contra Pinochet e de outras ações armadas, fugiu de uma penitenciária chilena e veio reaparecer aqui como um bandido sem causa, apostando no paraíso penal brasileiro.
Seqüestraram por dinheiro, não para obter a libertação de prisioneiros, anistias ou qualquer concessão de natureza política.
Começam na imprensa as associações com o seqüestro de Abilio Diniz, em 1989. Editorais severos acusam o PT de ter patrocinado a extradição de seus
seqüestradores e cobram condenação aos supostos esquerdistas chilenos. Em 89, alguém na Policia Federal vestiu uma camiseta do PT num dos
seqüestradores de Diniz. Hoje se sabe quem, um senador da República, Romeu Tuma, ex-xerife do Dops na ditadura. A notícia de que o
seqüestro fora obra do MIR - Movimento de Isquierda Revolucionária, também chileno, circula rapidamente na véspera do segundo turno da eleição presidencial. Era o tiro final em Lula, que já enfrentara o golpe baixo de Collor , o depoimento da ex-namorada Miriam Cordeiro acusando-o de tê-la tentado a abortar a filha de 15anos. Não tinha o PT razões para defender aqueles chilenos.
Telefona-me o presidente do PT, José Dirceu, indignado com o que chama de exploração eleitoral insidiosa dos fatos. A vítima política do
seqüestro de 1989 foi seu partido mas a grande imprensa agora fala como se os petistas tivessem corrido em defesa dos
seqüestradores. Dez anos depois, ao longo da greve de fome dos estrangeiros presos, o PT realmente apoiou a extradição deles. Dois canadenses já haviam deixado o país, e não por ordens do PT, mas do Governo FH, que cedia a pressões do governo do Canadá. Ou será que o Governo costuma fazer o que a oposição pede? Seu ministro da Justiça, José Gregori, já se empenhara, a Igreja também. Registro o seu protesto na coluna que escrevo no Globo, tendo como pretensão maior ser pluralista e democrática. Chegam e-mails de leitores da melhor cepa direitista acusando-me de endossar a complacência petista diante do crime. Inútil responder-lhes. Volta e meia este assunto estará na campanha eleitoral. Quem é do jogo pode imaginá-la. A elite reinventando a si mesma com nova cara, novo sexo, novo discurso, e semeando terrorismos sobre o risco da alternância no poder. Vejo nos jornais uma foto de Norambuena e outra de quem o pariu, Pinochet, agora vivendo seu outono
tranqüilo no Chile. Em outros tempos, dava para dizer que toda violência é filha do Estado, que a natureza humana é uma velha desculpa. Espanto este pensamento imperfeito, antes que me acusem também de defender
seqüestradores. Mas que há neste episódio um ovo de Pinochet, isso há.

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