Então você quis provar o absinto
das noites verdes do néon
e se embriagar de lírios e pássaros
até tocar com a língua 
o infinito brilho das estrelas?

Você quis cair do alto
sem se ferir durante o vôo?
E desejou a flor do ópio
atravessando as longas avenidas da madrugada
como um vento quente nas cortinas?

Você quis sorver o sangue espesso do tempo
para poder sentir no fundo dos olhos,
no labirinto das veias, a fúria das esquinas?
Tentou sonhar com máquinas magníficas
que não triturassem seus miolos?

Você quis provar o espesso vinho tinto aéreo da Mulher-Sereia?
Quis aparecer nos espelhos dos olhos de água-viva da Medusa?
Teve calafrios debaixo dos lençóis?
Mergulhou na tempestade
com a palavra de fogo tatuada na testa?

Então você quis cantar a canção 
do anjo negro e dissolver na dura claridade?
Quis ouvir a melodia dos abismos?
Provar o doce canibalismo das borboletas?
Você quis voar rumo ao sol com asas de cera
e, no entanto, tudo que sobrou foi essa Monalisa sarcástica,
com seu sorriso de escárnio, no inevitável dia seguinte.
 

 

  

 

Jorge Mendes

"Não creio em inspiração. Escrever para mim é trans-piração. Esse negócio de ficar ouvindo as musas comigo não funciona. Tenho que entrar no corpo a corpo com a palavra", é assim que Jorge Mendes define sua escrita. Formado em História, "quase" pós-graduado em Teoria da Comunicação pela ECA-USP (abandonou o Mestrado para viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de Brautigan, amante do jazz, do vinho e da cachaça, crítico incisivo da sociedade de consumo e, acima de tudo, um apaixonado pela literatura. Quinzenalmente, como escritor convidado, escreve suas ácidas Crônicas do Fim da Noite na revista A Arte da Palavra. Jorge Mendes, apesar de inédito, continua escrevendo para manter-se vivo e imprudentemente lúcido.

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