Aqueles caras da década de 70
viraram flores finalmente.
São agora flores do mofo
e descansam em paz
nos cemitérios das bibliotecas públicas.

Enquanto isso a garota branca
olha para os seios murchos
e senta-se ao sol da segunda-feira
para folhear sua revista de moda
e assassinatos gentis.

"Vamos fazer compras, meu bem?"
"Oh!, é claro amor!"
E é com isso que os sonhos 
vão virando economia doméstica,
estrelas empalhadas no fundo dos olhos.

Confesso que foi difícil
aprender a sangrar sozinho.
Também não foi nada fácil
ver os amigos virarem idiotas de supermercado.
Mas não vou chorar agora que trinquei os dentes:
não quero brincar de medo no escuro nem tentar fugir.

Eu sei: é uma velha estória
amanhecer vivo todos os dias.
O sol frio nos pés, essa palavra úmida,
esse par de olhos embolorados
já não podem mais alcançar a estrela
e aqueles caras da década de 70
tentaram e conseguiram embarcar para a Nave do Fim do Mundo.

Lisérgicos, aqueles caras da década de 70
deixaram tudo ácido e os trocadilhos são por conta da casa.
Mas venha consertar meus dentes podres, Garota de Aquário!
Não há medo agora que estamos seguros no refrigerador.
Vamos passear depois do bang-bang
porque não há mais perigo para nós que estamos limpos.

Aqueles caras da década de 70
estão finalmente mortos com as flores nos dentes
e o domingo vai ser de chuva
com poucas possibilidades de sol.

 

 [próxima]

  
 

Jorge Mendes

"Não creio em inspiração. Escrever para mim é trans-piração. Esse negócio de ficar ouvindo as musas comigo não funciona. Tenho que entrar no corpo a corpo com a palavra", é assim que Jorge Mendes define sua escrita. Formado em História, "quase" pós-graduado em Teoria da Comunicação pela ECA-USP (abandonou o Mestrado para viajar por aí), avesso a qualquer tipo de glamour, leitor voraz de Brautigan, amante do jazz, do vinho e da cachaça, crítico incisivo da sociedade de consumo e, acima de tudo, um apaixonado pela literatura. Quinzenalmente, como escritor convidado, escreve suas ácidas Crônicas do Fim da Noite na revista A Arte da Palavra. Jorge Mendes, apesar de inédito, continua escrevendo para manter-se vivo e imprudentemente lúcido.

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