Hoje 'stou triste, stou triste,
'Starei alegre amanhã...
(Fernando Pessoa)

Hoje não falarei sobre o vento.
Amanhã, sim.

Hoje nada se move. 
Nem uma folha respira.
Nada se move, nem uma folha.
Nada.

Hoje é dia do silêncio de chumbo.
Mas amanhã será o dia do esplendor dos ventos 
     [que carregam loucuras e exageros.

Hoje não. 
Hoje é dia de resguardo, de jejum e abstinência.
Dia de vestir de roxo os santos, de cobrir os espelhos 
     [e de cerrar as cortinas.
Amanhã, sim: dia de abrir as janelas e de me colorir 
     [de ventos lilases e azuis. 

Hoje não. 
Hoje é de dores.
De flores murchas com cheiro de cemitério.
De ausências.

Amanhã sim: tudo estará aqui. 
Leve-vento, que alivia. Vento-aconchego.

Hoje não: dia de remexer as gavetas, esconder 
     [as fotografias e vestir de negro a cama. 
Mas amanhã o vento encarregar-se-á de fazê-la.
Trará algodão para os lençóis e os perfume de todos 
      [os jasmineiros, de todas as terras molhadas e 
      [de todos os cios.
E me vestirá de flores. E me deitarei com os redemoinhos.
E celebrarei.
E serei plena.

22/04/01

  

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Célia de Lourdes Amaral de Almeida

Nasceu em 1954.  Mãe de três homens. Socióloga por formação. Professora por opção, acredita que "mestre é aquele que, de repente, aprende...". Tenta, nestes dias que dizem ser de maturidade, a tecitura das palavras, para entender o que há 
por dentro. 

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