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Hoje
'stou triste, stou triste,
'Starei alegre amanhã...
(Fernando Pessoa)
Hoje não falarei sobre o vento.
Amanhã, sim.
Hoje nada se move.
Nem uma folha respira.
Nada se move, nem uma folha.
Nada.
Hoje é dia do silêncio de chumbo.
Mas amanhã será o dia do esplendor dos ventos
[que carregam loucuras e exageros.
Hoje não.
Hoje é dia de resguardo, de jejum e abstinência.
Dia de vestir de roxo os santos, de cobrir os espelhos
[e de cerrar as cortinas.
Amanhã, sim: dia de abrir as janelas e de me colorir
[de ventos lilases e azuis.
Hoje não.
Hoje é de dores.
De flores murchas com cheiro de cemitério.
De ausências.
Amanhã sim: tudo estará aqui.
Leve-vento, que alivia. Vento-aconchego.
Hoje não: dia de remexer as gavetas, esconder
[as fotografias e vestir de negro a cama.
Mas amanhã o vento encarregar-se-á de fazê-la.
Trará algodão para os lençóis e os perfume de todos
[os jasmineiros, de todas as terras molhadas e
[de todos os cios.
E me vestirá de flores. E me deitarei com os redemoinhos.
E celebrarei.
E serei plena.
22/04/01
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