Eu tenho pressa e tanta coisa me interessa…

 

Hoje reencontrei uma amiga, amiga especial a quem não desculpei por não ter me avisado sobre seu casamento. Mas ela soube que eu estava no Brasil e me ligou, foi se desculpando, disse que a gente tava afastada, que eu tava morando na América e bla, bla. Não, não desculpo não. Será que minhas relações são todas assim, tão circunstanciais? Mas fui cedendo, saudades das nossas conversas, daquele encontro que sempre houve entre nós, dos papos cabeça onde analisávamos tudo e todos. Não há nada que eu mais sinta falta do que um bom papo com uma amiga íntima, daqueles que entram na calada da noite, regados de revelações profundas e segredos imortais. Não tenho nenhuma amiga americana e fico me controlando para não gastar meu salário em telefonemas para a Kátia no Colorado. Sinto falta daquele clima de confissão e do sentimento mútuo de descoberta. Quando vou ao Brasil procuro por isso e cada encontro com uma amiga especial é um momento único, onde me pergunto se poderia viver sem essa cumplicidade. Quando fui à Cobal tomar um chopp com a Vanessa falamos a noite inteira e saímos trocando pernas e risonhas. É, eu não poderia mesmo ficar guardando mágoa da Aninha. "Tá, eu vou aí te ver, a gente conversa… Como tá seu cabelo, você engordou?? E a vida de casada, como é ??"
Este encontro me fez lembrar do tempo dos shows na Catacumba e do verão da lata onde toda a cidade estava permanentemente doidona. Acho que foi na época em que eu trabalhava no Rio Sul e que entendi o sentido bíblico do domingo. Domingo, o único dia de folga! Eu passava a semana que nem maluca, ia pro Fundão, pegava uma carona às três da tarde e Rio Sul até as dez da noite. Foi nessa época também que aprendi que havia vida fora da Universidade e por todos os lugares por onde eu passasse eu iria sempre encontrar pessoas legais e pessoas babacas. Nessa época a Universidade, o diploma e a formação acadêmica deixaram de ser um valor absoluto e passaram a ser uma escolha. Haaaã, mas os domingos eram sempre cheios de descobertas e pequenas aventuras. Nunca houve um momento em minha vida onde crescer fosse tão fascinante. Conversávamos muito, nos descobríamos a cada dia. Me lembro quando ela me falou que eu pertencia ao mundo das idéias. É que eu tava lendo Zen e Arte da Manutenção de Motocicletas e tava completamente absorvida pelo livro, descobrindo o que havia por trás de tudo que parecia tão óbvio e evidente. E eu estava tão feliz pelo simples fato de estar viva. Crescer era maravilhoso. Nessa época eu escrevia coisas assim: 
"Se eu sesse uma brabuleta doirada eu avoava o Rio de Janeiro no verão".
Eu estava apaixonada por mim mesma e por minha cidade, só escutava bossa nova e fazia minhas as palavras da Clarice. 
"Ainda não se cansava de existir e bastava-se tanto que às vezes, de grande felicidade, sentia a tristeza cobri-la como a sombra de um manto, deixando-a fresca e silenciosa como um entardecer. Ela nada esperava. Ela era em si o próprio fim".
Mas desta vez a conversa foi diferente, embora ainda excitante e reveladora. Sentia, no entanto, que eu estava distante daquele papo casamento, casa, viver e dividir o espaço com outro. "Me conta, como é?" Nunca vivi com ninguém. Meus seis namoros longos nunca se transformaram em relação a dois. Todos os meus ex-namorados já casaram e nenhum deles comigo! Será que eu não dou chance, será que não encontrei ainda A Pessoa? Não, é que eu ainda não consegui estar inteira em relação nenhuma. Me oprimo pela existência do outro, a atmosfera do outro me invade a alma, e até meu cheiro muda. O outro passa a ocupar meu imaginário e minha criatividade. Fantasia e imaginação ficam ali adormecidas, de vez em quando reclamam mas a porta tá fechada, não sai nada, fica lá, oprimido, incomodando que nem dor de barriga. Fico com saudades de mim mesma, daquela coisa bem feminina que é ter uma nova idéia a cada cinco minutos e de querer encontrar o sentido da vida até mesmo numa macarronada. De ficar envolvida e absorvida por mim mesma, de querer fazer uma colagem alucinadamente e não conseguir relaxar enquanto a coisa não acontece. De se assustar quando o pão pula da torradeira. De querer escrever, essa herança maldita e prazerosa que por mais que eu tenha tentado escapar não consegui. Tentei escolher pra mim um caminho totalmente diferente daquele tantas vezes traçado pela minha família, repleta de intelectuais por todos os lados que eu olhasse. Acho que também queria estar protegida do olhar crítico e daquela ironia tirana, tão particular e óbvia em nossa família. Resolvi então fazer biologia! Pois quando contei em casa da minha escolha ficou todo mundo olhando pra minha cara. "Ô mãe, que que deu nessa menina, hein?", perguntou o meu irmão. Até há pouco tempo eles não entendiam o que eu fazia. Mas quando DNA e Biotecnologia passaram a ser manchete de jornal tudo ficou mais fácil. Mas não tem jeito. Me vejo sempre envolvida com livros, teses, textos científicos e coisas mais. Gosto de escrever. Qualquer coisa, não importa. Como boa judia devo dizer que a culpa é da minha mãe! 
Perguntei pra Aninha se ela não sofria da Síndrome de Satélite. Ela disse, como assim? É assim.. A gente tá só, faz um monte de coisas, eu especialmente faço colagem, escrevo, me emociono até com anúncio de Mac Donalds, aprendo outras línguas e invento o mundo. Aí ele chega, chega mais perto. E meu universo fica tomado por sua presença e deixo de ser quem sou, viro satélite, e começo a girar, girar... Não tenho vontade de escrever, não surge nenhuma imagem incômoda que eu tenha que transformar numa colagem e vem uma preguiça milenar. Todas as minhas idéias são então capturadas por mim mesma, fico angustiada sem saber com o quê, incomodada e sem respostas. Aí vem a síndrome de nem saber mais o que quero comer, aonde tenho vontade de ir… E vou aonde o outro vai e como tudo que me aparece pela frente por simples falta de critério ou desejo. E todos os meus amigos passam a ser meus confidentes. Daí para camicase fica faltando pouco. Minha própria opressão trata de oprimir o outro, fica insuportável e então bum!!!, num ato de suicídio e sobrevivência eu fecho a porta e vou embora. E então junto com a dor vem o alívio e tudo que quero é escrever, olhar pra mim mesma e ver quem sou depois de mais essa história, o que ficou de mim mesma e o que levarei do outro pra mim. E tudo vai voltando, a imagem de mim mesma deixa de ficar embaçada quando me olho no espelho, me sinto rica, imaginativa, cheia de energia e disposição e aí tenho pressa, muita pressa porque tudo me interessa e parece que uma vida não vai dar. E aí faço mil coisas ao mesmo tempo, estou sempre ocupadíssima às voltas com o meu universo interior que eu já nem consigo mais caber em mim E vou me sentindo feliz, e interessante, as pessoas começam a chegar e aí alguém aparece e se apaixona assim, de cara. E aí me encontra cheia de histórias pra contar, cheia de investidas e idéias e é um deleite. Sempre fui cativada pelo outro e escolhida a dedo no meio da multidão e em poucos dias via o outro se revelando, se desmilinguindo, cartas de amor, bilhetinhos carinhosos… Eu demoro a me apaixonar, fico ainda absorvida por mim mesma durante um bom período até quando percebo que estou me alimentando de restos de mim mesma, que falta material novo, aí vem a Síndrome de Satélite e tudo vai por água abaixo. Então aprendi a cozinhar e isso está me transformando. É que agora eu posso fazer minha própria comida e posso também alimentar o outro. E dessa metáfora vem o desejo de querer ser quem eu sou, de querer saber compartilhar sem deixar de ser, de se entregar sem me aprisionar.
Ela ficou me olhando com aquela olhar. Eu tava era ficando maluca de vez. Ela disse: "Você e essa mania de pensar o tempo todo, você precisa é encontrar a pessoa certa". (O que ela realmente queria dizer é: "Você precisa é encontrar um macho!"). "Mas será que você não percebe que sou eu quem sou a pessoa errada? Quem pode agüentar alguém como eu por muito tempo?" Meu irmão uma vez disse assim pra mim: "Olha, homem é bicho preguiçoso e o que a gente quer é sossego. Todo esse discurso de mulher pensante e independente é muito bonito e essas são as grandes mulheres mesmo, mas assim, dentro de casa, ninguém quer isso não". 
Talvez eu simplesmente nunca tenha encontrado ninguém tão pensante como eu, que tivesse um insight a cada cinco minutos. E insight vicia, é um orgasmo intelectual que dá uma sensação maravilhosa durante cinco segundos e depois se vai. E quando se vai vira uma idéia. E quanto mais se experiencia essa sensação mais se quer repeti-la. Aí tem que estudar, procurar outras coisas que possam ser associadas a outras e zipt, um insight nasce e nasce também uma idéia. Sou viciada nessa coisa. E quando não tenho isso estou morta, estou em outro lugar, dormindo quando não tenho sono e comendo a comida do outro.
Mas agora estou pronta, penso com meus botões. Agora estou pronta mais uma vez, como tantas outras vezes pensava estar. Agora mais esse erro não vou cometer. Sempre que saio de uma relação aprendo tudo aquilo que não vou repetir e de tanto decorar tudo bonitinho vou lá e faço igualzinho. Mas dessa vez vou me comportar, vou pensar menos, eu juro! e se pensar vou ficar quietinha, no meu canto. Vou escrever um livro, vou fazer uma colagem, vou inventar outro doutorado, vou virar uma poesia. 

Marcia L. Triunfol

Bióloga, fundadora da organização sem fins lucrativos O DNA vai a Escola e editora associada 
da revista americana Science.
 

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