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Hoje acordei de olhos abertos, como sempre acordo. E espantei todos os caçadores de sonhos, que por ventura estivessem na espreita. Já acordei pensando no que faria ao longo do dia. E me permiti ficar na cama aqueles minutinhos a mais com a condição de que decidisse a roupa que usaria.
Lavei meus olhos, assim como costumo fazer todas as manhãs, e me olhei no espelho. Havia um amontoado de tempo entre o dia que havia sido ontem e o dia de hoje. Nem pensei em abrir a janela, nem liguei a televisão, nem o rádio. A única tomada ligada foi a da cafeteira. Calcei meus incansáveis sapatos que me seguem por onde quer que eu vá e quando já estava pronta para deixar a concha e me lançar em mais uma coletânea de horas, todas com a duração exata de sessenta minutos, o telefone toca. Era o Paulo, me trazendo a notícia de que de repente, assim no meio da semana, como se eu tivesse simplesmente quebrado um ovo no mesmo instante em que passado e futuro colidiam, tinha acontecido de ser domingo. "Levanta a persiana." Foi aí que vi neve como nunca havia visto antes, que nem filme do Kurosawa, e uma ventania que levantava toda a poeira e fazia tudo ao redor ficar branco. "Que coisa mais linda!" "Linda mas nem se atreva a sair de casa. Isso é whiteout, fica tudo branco, é perigoso. Bota o pijama e volta pra cama." Liguei pro trabalho. Ninguém atendeu ao telefone. Liguei pro Paulo de novo. "Tem certeza de que é isso mesmo?" "Liga a televisão." Liguei, tava passando Teletubbies. Observei os carros do condomínio, ninguém havia se atrevido. Liguei de novo pro trabalho. Nada. Abri minha agenda e encontrei uma rosa a me sorrir repousando no verso da folha anterior. Então me dei por vencida. Coloquei o pijama e deixei que aquele domingo órfão, que não era fruto das horas tardias de um já remoto sábado se embaralhasse entre os dias da semana como um coringa entre as cartas do baralho.
E pensei: nos últimos anos não têm acontecido invernos em minha vida. Eu tenho mantido meu corpo quente para que meu sangue, confortavelmente, possa viajar por minhas veias tantas, para que meus fluidos emanem pelos caminhos a serem percorridos, pra que minha energia se dissipe em milhões de átomos infinitos. E que meu pensamento possa então repousar sobre a muralha do meu cérebro, se equilibrando como uma bailarina capenga sobre a corda bamba.
Fiquei na janela piscando os olhos, o olhar perdido no infinito da costa leste americana, que estava a dois palmos de distância. Levantava a sobrancelha vez por outra. Foi então que me lembrei das ventanias na praia, as barracas voando com o vento e a gente tentando, inutilmente, ler o jornal. Os olhos cerrados, a areia massacrando sem piedade. E meu coração tropical ficou coberto de neve, e a neve, voando assim no vento, não faz barulho, não é como a chuva que quando cai forte é aquela explosão. E também não tem raio nem trovão. É tudo muito calmo e tranqüilo, que é pra não incomodar o vizinho. É uma tempestade sem paixão! E assim como todas as coisas vivas por aqui a tempestade de neve também parece estar morta. |