|
|
O mais idoso era Gonçalo, o São. Fincado naquela esquina, há anos, há séculos, podia-se bem dizer, tudo observava, calado e mudo. Pelo tempo, era São, era sólido, era santo.
O mais humano, assim parecia, era Pedro, o Segundo, talvez pelas longas barbas que o faziam próximo à imagem daquela gente, ora impoluta, ora desgrenhada. Pelo nascimento, era o Segundo, sendo o primeiro, seu genitor, também Dom.
A mais cordial e generosa era Tereza, a Santa, sem sombra da mais remota dúvida. Por todos orava, garantindo-lhes o pão.
E a história os uniu de forma interessante, lá pelos idos de 1872, no local que hoje leva o nome de Praça Dr. João Mendes, como se passa a inventar.
Pedro, o Segundo - depois de circunspectas oblações, piedoso que era, junto a Gonçalo, o São - acometido de longa dor na boca do estômago, com certeza pelo jejuar ofertado ao poderoso pai de todos, como acreditava, pensou no pão e no vinho.
- Ô Gonçalo, o São, está a me atingir dor tão profunda, que morro em não cuidá-la! Não é de prece que careço, é de comida que preciso!
Gonçalo, o São, olheiro e auscultador por essência, sabedor, também, da inclinação às artes da gastronomia por Pedro, o Segundo, conhecedor, ainda, por tantas repetidas histórias e confessos, do gênero humano, seus caminhos e descaminhos, encarou seu hóspede em muda conversação:
- Vai-te, então, Pedro, o Segundo. Aqui ao lado, menos de vinte passos na chafurdada lama, te aguarda Tereza, a Santa, seus quitutes, sua mesa!
Pedro, o Segundo, em rápida reverência, retirou-se em assanhamento, mão em mão, não restando claro se em prece, se a segurar a própria barriga, que doía.
- Tereza, a Santa, me acolha, me socorra, estão a me doer as tripas, por vazias que se encontram!
Tereza, a Santa, com seu olhar bondoso e angelical postura, sem vacilo abriu-lhe as portas.
- Pois entre, Pedro, o Segundo, a casa não é real, mas democrática, com certeza.
E Pedro, o Segundo, largou-se na primeira cadeira alcançada por seu corpo insatisfeito, por sua barriga doída, por sua busca de pão e vinho.
- Tereza, a Santa, minha santinha, que de bom posso comer? Que de bom posso beber?
- Bem sabe, o senhor Pedro, o Segundo, que o que ofereço exposto está. Para beber, o Gonçalinho, menino deste império, de terra, mar e glorioso céu, prestimoso filho das cercanias, o copo e a garrafa trará.
Pedro, o Segundo, com gulodice logo foi pedindo:
- É a coxa que quero, é a coxa creme empanadinha!
Tereza, a Santa, rubra de vergonha ficou. Pudera, não seria qualquer Pedro, o Segundo, que gritaria em altos brados a almejar suas coxas!
Gonçalinho, coitadinho, pensou: "Já conheço essa história. De uma coxa passa-se a duas, das duas, ao resto todo! E eis que nasce mais um rebento, de mãe certeira e de pai de ventania!"
Tereza, a Santa, bradou:
- Esta vida é muito ingrata! Alguém socorra esta beata! Muito bizarro o pedido, além de que, empanadinha!
Mui querida, a santinha - porto seguro de toda uma gente que dela se valia para um café, um pão, um vinho, um trago, um queijo - foi logo atendida em seu reclamo; juntaram-se à volta de Pedro, o Segundo, como se o único safado fosse no mundo, caras de mulheres e homens, dedos em riste ou mãos nas cinturas, na maior balbúrdia, todos a exigir do gajo uma severidade de conduta, como jamais haviam pensado para si:
- Dê como não dita tamanha desdita! Retire a infamante insinuação!
Pedro, o Segundo, todo encolhido, apertadinho de fugir-lhe a fome por ausência de espaço interno, pasmo repetiu baixinho:
- Apenas uma coxa creme, com o ossinho e tudo da perna da galinha! Tão singelo o meu pedido!
E o povaréu:
- Perjúrio, falta grave imperdoável, nossa Tereza, a Santa, uma galinha? Vamos ao Gonçalo, o São, ele há de ouvir isso!
Gonçalinho, todo lépido, às suas origens voltou, correndo avisou o São, que logo ouviu a Pedro, em confissão auricular.
- Pedro, o Segundo, queres a coxa creme de nossa santinha?
- Sim, Gonçalo, o São.
E para Tereza, a Santa, determinou:
- Mui distinta santinha, este Gonçalo, o São, lhe solicita, faça coxinhas, que sejam com creme, que sejam de galinha, que contenham ossinho. Reserve em pudicícia as suas, mas dê as que lhe peço e faça, assim, eu voltar ao meu mutismo.
Tereza, a Santa, muito empreendedora e zelosa, coxa creme de galinha passou então a servir, dando a Pedro, o Segundo, pondo fim à confusão e como prêmio de consolação, meia dúzia de coxinhas, as coxas creme de galinha de Tereza, a Santa, a santinha.
E assim, quem passa hoje pela praça pode sentir de longe, sem carecer de olfato primoroso, a fragrância delicada das coxas cremes empanadinhas, emanada da cozinha da Padaria Santa Tereza, que fica bem ao lado, desde há muito noticiado, da Igreja de São Gonçalo.
Gonçalinho, que nunca cresceu, continua a vagar por lá, juntando sempre moedinhas, sempre muito afável no aparente convívio, esperando, com avidez, uma coxa creme da santinha, aquela de galinha
empanadinha.
6.6.2001 |