I
 
 

Ela sentiu-se melhor após o banho. A água morna que lhe caía sobre os ombros fazia eclodir um vigor noturno e despojado. 
Ela sentiu-se melhor após o banho e saiu com seu jeito sorrateiro e assustado. Compraria perfumes, bijuterias, batons de novas cores e esmaltes cintilantes. Queria ao menos se sentir mulher .
Se ele não voltasse, não quisesse ou não existisse talvez isso sequer lhe fizesse falta ou sentido, queria apenas ver-se bela como se isso fosse puro e necessário. Ela sentiu-se melhor após o banho, comprou apetrechos singularmente femininos e sentiu-se mais bonita. Alguns dizem que depois disto, ela inspirou pela última vez e em seu retrato póstumo tinha os lábios previamente maquilados e as unhas minuciosamente decoradas com esmalte cintilante. 
Ela realmente sentira-se melhor após o banho e sorriu longamente para si mesma. O olhar tacanho em frente ao espelho e as olheiras simetricamente distribuídas sob os olhos faziam-na parecer ainda mais indecisa e lembravam os olhos de um grande coelho assustado.
Se era bela? Era apenas se assim quisesse. Tinha às vezes os olhos baixos, ombros curvados sob pesos enormes e a voz soava silenciosa quase como uma prece. Às vezes, furtiva e sagaz, olhava dentro e fora dos olhos de quem a quisesse olhar e trazia decotes provocantes. Eram tantas as trocas de roupa e de nome que nada mais a enfurecia ou excitava e então às vezes era como um vaso, mudo e fechado; um vaso tosco e barroco que de tão intransponível é esquecido ao posto das coisas que não se quer ver.
Ela era tudo, tanto e nada. Milhares dela poderiam ser feitas. Era simples, pequena e incolor. Mas penso que exista sempre uma única essência. Uma única essência cínica e sarcástica. Uma essência doce e completa; inóspita e apressada. Uma essência única onde muitas vidas, renascidas a cada instante, caibam. Ela era simples, pequena e incolor. 
Tudo que devo dizer é que estava brevemente linda quando a vi e trazia em seus olhos fúnebres a expressão curiosa de um coelho assustado. A expressão vaga e morna de quem perdeu, desistiu e encontrou.
Para ela, pouco importava se o dia era morno como domingo ou se era gasto como todos os dias-feiras, estava sempre lucidamente pronta para morrer e como pouco ou nada lhe valia a vida, estava sempre a viver intensamente cada um dos primeiros instantes de paixão que lhe foram dados. E se não lhes fossem dados, roubava-os de um cena cotidiana. 
E sempre vivendo sempre como uma penitente, somando os dia como inúteis e olhando a cada um com desprezo e arrogância, fora capaz de viver a bondade de forma lúcida e inquestionável. 
Seus olhos, os mesmos sob os quais repousavam olheiras cansadas, enchiam-se do mistério doce de quem vive o instante da bondade. 
Mas quando pouco ou nada pode ser dito sobre a bondade, ela se torna encantada como se estivesse acima do verbo. 
É por isso que hoje, primavera atenta e despojada, ofereço-lhe essas flores azuis.
 

 

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