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Ninguém viu. Todo mundo ouviu. Susto. Tremendo estampido.

"Corre". 
"Chama a Polícia".
Seu Albino, deitado, meio que debaixo do carro, contrai as pernas. Um espasmo.
"Acertaram o português!" 
"Precisamos socorrer!"
"Não, não bota a mão, não pode mexer."
Mais dia ou menos dia, isto ia acontecer. Lá, no Valo Verde, terra de ninguém. O pessoal mandando ver no crack, até a polícia tem medo.
Também Isilda, conhecendo o pai que tem, foi se embeiçar com Marcão... deu nisso... tragédia.
Portuguesa gostosa, cobiçada, dependesse dela, cirurgião plástico morria de fome e fábrica de silicone ia ter que fazer estilingue. Carlinhos, o bicicleteiro, parecia minhoca, de tanto que se arrastava, perto da moça. Paixão de fazer inveja, futuro garantido, muitos filhos no pedaço. Afinal, uma mulher daquelas devia ser uma parideira de primeira. E, ainda, com todo o fogo no rabo que tinha, bem que podia fazer umas "horas extras", enfeitando a cabeça do moço. 
Mas não, preferiu o Marcão. E deu nisso... tragédia.
Não se esperava outra coisa depois que o cachopo foi visto ontem, batendo boca com o marginal:
"Ora pois, que em bunda de filha minha vagabundo nenhum mete as patas."
Responde Marcão:
"Toma tua linha, galego, porque neste rabo já meti mais do que as patas. Minhas patas vou meter mais é na sua cara."
Chega a turma do deixa-disso, cada um para seu canto, mas todo mundo sabia que ia dar merda.
De repente, outro estampido. Em meio ao silêncio geral da galera, Seu Albino, no chão, estremece e sai de debaixo do fusca, dizendo:
"Bosta de carburador entupido."
 
 
Luiz Alberto Calil

Já correu de carro, fez teatro, brigou à beça.
Produziu shows, escreveu algumas coisas (até horóscopo),
mentiu muito, namorou demais, soprou um sax,
hoje, é boêmio e advogado.
 

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