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Milton, tira os óculos. Tira e fala comigo. Diz pra mim se suas noites são vazias, se eu sou uma errata na sua vida ou se o amor está menos intenso. Nada não. É que eu estou percebendo, de novo, seu esquecimento fechando-se sobre mim. Sabe, acho que é apenas o peso da sua consciência.
Milton tira os óculos, e veja se assim sua preparatória contração percebe a fome que se irradia dos meus gestos femininos. Parece que não intervenho em mais nada daquilo que é seu. Mais do que propriamente falta, o seu descaso dilacera meu estômago que depura a masculinidade mais repulsiva. Milton, sua alegria é demoníaca e só me faz caminhar e trabalhar pelas ruas desta cidade. Não há outro prazer. Não sei se avanço no seu corpo - Milton, tira a porra desses óculos - ou se o deixo saltar solitariamente dentro de sonhos que você gostaria que eu sonhasse. Esse negócio de lembrança em carne viva, percebe? Pois é. Mas diga-me aqui, o que é que o prende à cadeira e que não o deixa pular dentro de mim sem sonhos? Essa postura de fauno arrependido me é odiosa. Acho que a presença de uma mulher na sua vida é pouco visível e isto porque você as tem facilmente.
Por isso Milton, tira os óculos pelo amor de deus. Escolha o deus que quiser, eu topo, mas tira os óculos. Talvez assim você me enxergue. Por que a gente não faz como antigamente, lembra o verão passado? Eu lembro. Não havia indiferença na sua voz. Vi seu rosto suado bem de pertinho, ouvia seu discurso obsceno - que aguda sensibilidade para as formas você tinha, bucetinha - meu tesão circundando seu peito e sua usurpação. E mesmo depois de semanas na praia seus olhos continuavam vigiando cada ruga da minha pele. Parecia que eles jamais se esqueceriam de mim. Pois é. Será por que naquela época você não usava óculos?
Milton, meu Milton, me abraça. Faça coisas indefinidas no meu corpo, multiplique minha alma e sua dimensão essencial. Talvez ainda nos reste alguma noite insone. Acho que vale a pena insistir. Não existe nada mais triste do que ver a disciplina de corpos desencantados. Não nego que de início recusei sua presença com misericordiosa simpatia, mas olha, Milton, foi o medo de fracassar novamente que me afastou da sua boca. Projetos interminados, novas ambições e um caminhar lento. À minha maneira eu fui justa, sublime e exemplar contigo. E apesar disso tudo você me invadiu. E para esquecê-lo foram necessárias as viagens. Inúmeras. E o que fazer com o medo de encontrar nesses lugares da terra outro Milton? Nada. E tudo era imensamente vazio. Talvez se eu de fato tivesse encontrado algum, ali permaneceria para sempre com discutível resignação. Mas não foi assim. Era esse meu Milton com quem eu sempre dialogava nos sonhos. Até hoje não sei se quero o Milton das minhas ilusões ou esta coisa daqui, de olhar perdido e indecifrável, mas que me come gostoso e me deixa infeliz. Estou certa: eu criei sua boca, suas pernas, este enorme peito e minha solidão. Mas isso já não importa mais, pois não sei qual dos dois vive comigo. Quem sabe se um deles, um dia, ressurge como redentor deste meu interminável ofício de amar? Estou condenada a viver como uma gueixa abandonada pelo sol e estrelas, ou será que a qualquer momento a lua me encontrará dormindo nos braços de um outro qualquer?
O espelho do quarto reflete minha desolação. A imagem do meu homem, minhas dúvidas, indícios de risos reduzidos à sede da perfeição num insubstituível cenário de derrota.
Milton, que ciúme do seu infame silêncio. Você jamais me permitiu habitá-lo. Subir e subir seu corpo sem nunca dar em você tem sido o exercício do meu amor. Com certeza não sou sua mulher; apenas uma língua branca e úmida que resvala pêlos e falsos pensamentos. Que põe à mesa iguarias encantadoras e uma voz melancólica que passeia lentamente pelos seus escrúpulos. Milton, definitivamente, você é minha circunstância.
A Ana Maria Todescan
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