– Mamãe! Mamãe! – berrava a criança.

– A menina se perdeu da mãe – gritou uma mulher. – Pare esse ônibus, motorista!

– Pára, motorista – várias vozes começavam a ecoar. – A mãe da menina ficou no ponto. Espere por ela, motorista.

Numa movimentada avenida do centro do Rio frear de repente o ônibus não era possível, e o motorista, que sabia disso, continuou seu caminho até a próxima parada.

A menina gritava e chorava:

– Mamãe, mamãe!

Uma senhora de idade abraçou a menina, tentando tranqüilizá-la.

– Calma minha filha, daqui a pouco sua mamãe estará aqui contigo.

– Mamãe, cadê a minha mãe?

Os passageiros continuavam a gritar com o motorista e a confusão estava armada.

– Seu desalmado. A mãe da menina não conseguiu subir no ônibus por culpa sua. Pára já essa coisa – bradava uma estudante.

Quando finalmente o ônibus estacionou no próximo ponto, e a menina ainda chorava pela mãe, um senhor perguntou se alguém tinha de fato visto a mãe da menina na parada anterior. Pois ele havia entrado naquele mesmo ponto e tinha visto a menina subir no ônibus, mas sem a mãe.

– Eu vi – falou o cobrador, quase se desculpando por não ter de algum modo impedido que o motorista desse partida. – Era uma senhora gorda. Acho que ela deixou o dinheiro cair no chão antes de entrar no ônibus, por isso perdeu a saída.

– Ai meu Deus – falou a senhora que continuava a abraçar a menina que chorava. – Que tragédia!

O ônibus já permanecia parado por mais de cinco minutos e nem sinal da mãe da menina.

Um jovem se ofereceu para ir correndo até o outro ponto para procurar a mulher, e saiu em disparada em direção ao local do início da confusão.

Todos procuravam acalmar a menina que ainda chorava.

– Calma querida, sua mãe já vem. O moço foi buscá-la.

Alguns faziam ameaças ao motorista, acusando-o por toda a confusão, mas este, que era defendido por uns poucos, tentava se explicar.

– Não vi a mãe da menina. Olhei pelo espelho antes de dar partida, tenho certeza! Isso nunca aconteceu antes.

A menina já tinha se acalmado um pouco e comia um chocolate oferecido por uma moça.

– Coitadinha, olha como ela estava com fome – falou a mulher que abraçava a menina desde o começo. – Qual seu nome, querida?

A menina voltou a chorar, pedindo pela mãe, mas entre soluços contou que seu nome era Luísa.

– Calma, Luísa, sua mãe já vem. Meu nome é Marta. Ela já vem, tá?

Mais alguns minutos se passaram e o jovem voltou correndo, com os braços abertos.

– Não achei a mãe da menina. Não estava lá. Perguntei para todo mundo e ninguém viu nada. Lembravam da menina no ponto, mas não da sua mãe. Talvez ela tenha pego o ônibus seguinte para seguir atrás da filha.

– Que tragédia! – gritou de novo Marta.

Alguns passageiros já se impacientavam com a demora e pediam para o motorista ligar logo o ônibus.

O motorista não sabia o que fazer. Se desse partida, o que seria da menina? Ele tinha certeza de que não vira a mulher, mas o remorso da confusão já tomava conta de sua cabeça. Tinha também duas filhas pequenas e nelas pensou.

– Não vou dar partida nesse ônibus. Quem quiser que salte. Só sairei daqui quando o problema estiver resolvido.

A maioria do ônibus aplaudiu com entusiasmo, mas a menina continuava a chorar, sua mãe não aparecia, e o problema continuava ali presente.

Uma voz que vinha do meio do ônibus gritou que deviam levar a menina para a delegacia, pois seria o local mais indicado para a mãe encontrá-la.

– De jeito nenhum – gritou alguém da frente do ônibus. Delegacia não é um bom lugar para uma criança.

Um senhor que até agora nada havia falado perguntou tranqüilamente para a menina se esta sabia onde morava, pois assim o problema poderia ser facilmente resolvido.

Mas a menina só chorava e não respondeu a pergunta de imediato. Marta, que ainda a abraçava, perguntou de novo, com ainda mais jeito, se ela sabia onde morava.

– Perto da casa da tia Clara – respondeu a menina.

– Mas onde mora a tia Clara, você sabe meu anjo?

– Depois do morro, perto do parquinho – falou a menina, que ainda soluçava e comia um outro chocolate dado pela moça.

O ônibus estava parado há mais de quinze minutos e o impasse continuava. Alguns passageiros já tinham saltado, enquanto outros se impacientavam pela demora na conclusão do caso, que passageiro algum jamais imaginara que seria tão longo.

Luísa havia sentado em um banco do ônibus e com cara de choro segurava a mão de Marta.

– Querida, você quer ir pra casa da tia Marta? Eu deixo meu telefone e endereço com a empresa de ônibus e sua mãe daqui a pouco aparece lá para te pegar. Deve ter acontecido algum imprevisto com ela.

– Lá tem mais chocolate, tia?

– Tem, meu anjo. Muito chocolate e outras coisas boas para você comer.

– Então tá. Mamãe vem me pegar mais tarde, né?

– Claro.

O impasse estava parcialmente resolvido. Luísa iria para a casa de Marta. O motorista seria o responsável por dar o telefone da casa de Marta para a empresa de ônibus, e ele próprio avisou que ligaria mais tarde para ela, para saber o fim da história, que ele, involuntariamente, tinha dado início.

– Gente – disse Marta – eu moro um pouco longe daqui e terei de pegar dois ônibus para chegar em casa. Acho melhor eu saltar e ir de táxi, pois a menina está cansada e tem fome. Infelizmente sou uma pessoa pobre e não tenho dinheiro para tanto.

Pouco a pouco, todos os passageiros começaram a dar dinheiro para Marta, que abraçava com carinho Luísa. Uns davam somente um real, mas a maioria era bastante generosa. A estudante deu cinco, a moça e o jovem que tinha ido correndo ao outro ponto também, e todos que podiam davam até mais, como o velho da frente do ônibus, o motorista e o cobrador.

No final, Marta tinha arrecadado 68 reais. Seria mais do que suficiente para o táxi e o almoço da menina.

As duas saltaram do ônibus de mãos dadas e deram tchau para todos que as olhavam pelas janelas, enquanto o motorista finalmente dava a partida.

– Vamos, Neusa – disse Marta –, hoje deu tudo certo no trabalho, já podemos ir para casa.

– Tia, me compra um chocolate?

– Não abuse, pirralha. Você já comeu chocolate no ônibus e ainda tenho que pagar 10 reais para sua mãe pelo seu dia de trabalho.  
 
 
  

 [próxima]



Flávio Izhaki

Tem 22 anos e estuda jornalismo na UFRJ. Mesmo não querendo renegar o jornalismo, prefere a literatura de Camus, Kafka e Kosinski. Escreve porque sente necessidade de se entender e para compreender os outros.  

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