Em Julieta o que dói é a fome.

Conheceram-se no alvorecer da adolescência, nos anos dourados. Meninos só punham calça comprida aos quatorze anos, meninas não usavam calça comprida na cidade grande, só no campo ou na praia. Meninas só saíam sozinhas para ir ao colégio ou à missa aos domingos, meninos iam à missa para namorá-las. Mas havia os bailes, as conversas ao pé das lareiras, os passeios campestres, as conversas sobre os namoricos, a volta da escola aos bandos risonhos, as risadas por qualquer coisa, os olhares disfarçados, as tímidas carícias escondidas... Tudo isso entre famílias conhecidas, estranhos nem pensar!

Foi assim que a paixão nasceu, mais nele do que nela. Ela, do alto dos seus quatorze anos, não se sentia valorizada pelo amor de um menino que ainda usava calças curtas. Ele, sentindo a sua masculinidade despertar por causa dela, o máximo que fazia era ironizar sobre os admiradores que a beleza e a brejeirice dela despertavam.

Cresceram, mas o tempo se não lhes impôs uma separação no espaço físico trouxe um distanciamento pelo medo que ela sentia do que ele nela despertava. Aquele "não sei o quê" só podia ser pecado.

Outro amor mais adulto, mais compreendido, fazia com que ela se apavorasse cada vez que o via, mas continuavam amigos. As mesmas brincadeiras, as mesmas risadas, o mesmo desejo roendo fundo. Foi então que ela descobriu a dor no seu olhar, uma dor desesperada, disfarçada nos olhares desviados quando ela de repente olhava para ele. Não era mais uma brincadeira de criança, era um desejo não correspondido.

Casamento marcado, eles num dia encontram-se sozinhos e, num desespero sem medida ele lhe rouba um beijo! Para ela a incompreensão, o susto! Como era possível que amando outro homem com quem iria se casar daí a poucos dias, ele ainda despertasse nela aquele sentimento? Súplicas nas lágrimas dele não a demovem de sua resolução mas uma dor fina a acompanha até o altar e o olhar louco que ele lhe dá na despedida é uma lembrança que fica para sempre.

Passam-se os anos. A vida os separa com suas obrigações, suas famílias. A cidade cresce, os amigos ficam distantes separados pela multidão anônima da era da industrialização. Tudo muda, os anos dourados não existem mais.

Num dia o reencontro. Nela os cabelos brancos emolduram o rosto e nele a mesma dor do passado ainda é vista no olhar. Tornam-se outra vez adolescentes, tiram o peso da distância mas não podem tirar o peso da vida. A dor da longa vivência separada trás a separação com a morte dele. Mas ainda têm tempo para um beijo apaixonado, sentem que suas vidas ficaram resumidas nos beijos que trocaram e Julieta o que mais percebe é o que lhe fica: a dor da fome... da fome que ele dela sentia.

 

  
 

Cibeles S. L. Puglisi

Depois de olhar os homens, sublimo nas estrelas. É por isso que escrevo, gosto de perceber os comportamentos e deles extraio emoções. Foi o que aprendi do amor, nesses sessenta e oito anos em que ocupo meu lugar no espaço cósmico. Graduação e Licenciatura em Filosofia conquistei aos sessenta anos, tenho três netas, um neto e três filhos. Para eles e para meus alunos deixo de herança o desejo da liberdade que vem da cultura como meta de vida. É só.

e-mail