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- Mamãe, mamãe, olha como Dora é invejosa, ela quer meu laço de fita azul.
A voz chorosa da filha deixou-a aflita
- Não é inveja, filhinha, é admiração, só invejamos o que não podemos ter. No dia do aniversário dela você lhe dá um igualzinho de presente e pronto.
- Mamãe, mamãe, estou admirando tanto a boneca de Bety!
Ela sorriu para a inteligente filhinha e no Natal a menina mereceu uma boneca igual à de Bety.
- Mamãe, mamãe, estou com tanta inveja daquela leoa que tem um leãozinho!
Ela encheu de beijos o rosto da filha para secar as lágrimas que caíam abundantes depois do passeio ao zoológico.
Agora, ali na praça cheia de gente, ouvindo a água que jorrava da fonte, fazendo sua caminhada habitual, Clara recordou-se da infância da filha que já ia longe no tempo. Ultimamente dera para ter lembranças. Estou ficando velha, pensou.
Caminhando distraída tropeçou num rançoso bolo de trapos que à sua frente andava mais devagar. Um rosto irado, envolto por eriçada cabeleira voltou-se para ela. Os olhos faiscaram quando encontrou os assustados olhos de Clara. De uns lábios cobertos por nicotina que não conseguiam esconder o desdentado da boca, veio o impropério:
- É você, despeitada?
Clara, na fração de um segundo teve sua mocidade de volta, num dia de uma festa qualquer. Viu-se, junto com outras amigas, na fila para o banheiro que de tão longa já tomava a escadaria. Dentro do único banheiro interno do velho sobrado, alguém demorava. Premida pela necessidade, Clara bateu à porta e o indefinido olhar de Fátima apareceu.
- Vão chamar minha mãe.
Chegando ao alto da escada, a esbaforida mãe de Fátima arquejou trancando-se no banheiro com a filha. Quando saíram, a mãe num sorriso pedindo desculpas, a filha olhou bem para Clara e gritou:
- Invejosa!
Um bofetão não teria doido tanto. Se existia uma coisa de que todos sabiam de Clara é que ela não tinha motivos para ter inveja. Menina rica, primeira da classe, bonita, cheia de admiradores, bem querida em todos os seus relacionamentos, do que teria ela despeito ou inveja? Mas o impacto fora forte, perdurou por vários anos.
Tempos depois soube que o casamento de Fátima durara poucas horas pelo mesmo motivo daquele dia. Sua mãe precisou ser chamada com urgência porque o marido negou-se a fazer o que a sogra fazia: limpar a bunda da então sua mulher. Deu no pé, nunca mais foi visto.
E ali estavam outra vez frente a frente: de um lado Clara, elegante, mostrando ser uma mulher de sucesso, cuidada, do outro, Fátima, coberta de farrapos, suja, era a imagem da loucura. De igual tinham só o branquear dos cabelos.
- Agora admita que você era despeitada, que tinha inveja de mim! - esbravejou o andrajo.
Quando ia voltar-se sem responder, Clara percebeu no olhar de Fátima um vestígio de pedido de socorro, de vida ele só tinha o ódio como sustento. Agarrou-a violentamente, jogou-se com ela dentro do chafariz. Enquanto a outra, furiosa, queria a todo custo se livrar esparramando água por todos os lados, ouviu-se a voz límpida de Clara cantando numa melodia improvisada:
- Tinha inveja, tinha inveja, muita inveja de você! Tinha inveja...
5-5-01
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