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Quase cinqüenta
anos. Funcionária pública. Impecável: cabelo, tailleur, meia de náilon
sem nenhum desfiado. Ela mesma sempre no lugar, no seu lugar: casa,
trabalho, casa. Na repartição,
escrivaninha milimetricamente organizada. Cartão de ponto sem nenhum
atraso. Ônibus sempre no mesmo horário. Em casa, tudo
adequadamente em ordem. Cozinha sem nenhuma gordura. Nenhuma louça na
pia. Móveis sem nenhum pó. Nenhum tapete virado. Nenhum disco fora da
capa. Ninguém, a não ser ela, anoitecia naquele apartamento. Depois da décima
olhada para ter certeza de que nada havia fora de seus devidos lugares,
entrava no quarto. Despia-se e abria a gaveta. Primeiro, a lingerie grená.
Depois, a cinta-liga e as meias pretas. Lentamente, o vestido vermelho
que lhe descobria os seios. Em frente ao espelho, coloria de carmim os lábios,
prendia nas orelhas as argolas de cigana e soltava os cabelos. Por último,
as sandálias douradas de salto. No andar de baixo,
alguém escutava o toc-toc. Invariavelmente às dez da noite, ouvia-se
um bolero. Depois o silêncio. Adormecia Lola, a dos sonhos, das cores e
dos desejos. Amanhecia Dona Maria Helena da Silva Penteado, a da
realidade cinzenta. Maio
2001
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