Quase cinqüenta anos. Funcionária pública. Impecável: cabelo, tailleur, meia de náilon sem nenhum desfiado. Ela mesma sempre no lugar, no seu lugar: casa, trabalho, casa.

Na repartição, escrivaninha milimetricamente organizada. Cartão de ponto sem nenhum atraso. Ônibus sempre no mesmo horário.

Em casa, tudo adequadamente em ordem. Cozinha sem nenhuma gordura. Nenhuma louça na pia. Móveis sem nenhum pó. Nenhum tapete virado. Nenhum disco fora da capa. Ninguém, a não ser ela, anoitecia naquele apartamento.

Depois da décima olhada para ter certeza de que nada havia fora de seus devidos lugares, entrava no quarto. Despia-se e abria a gaveta. Primeiro, a lingerie grená. Depois, a cinta-liga e as meias pretas. Lentamente, o vestido vermelho que lhe descobria os seios. Em frente ao espelho, coloria de carmim os lábios, prendia nas orelhas as argolas de cigana e soltava os cabelos. Por último, as sandálias douradas de salto.

No andar de baixo, alguém escutava o toc-toc. Invariavelmente às dez da noite, ouvia-se um bolero. Depois o silêncio. Adormecia Lola, a dos sonhos, das cores e dos desejos. Amanhecia Dona Maria Helena da Silva Penteado, a da realidade cinzenta.

Maio 2001

 

Célia de Lourdes Amaral de Almeida


Nasceu em 1954.  Mãe de três homens. Socióloga por formação. Professora por opção, acredita que "mestre é aquele que, de repente, aprende...". Tenta, nestes dias que dizem ser de maturidade, a tecitura das palavras, para entender o que há por dentro. 

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