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Queria a
boneca. Tinha visto naquela loja (a que tinha um andar todinho de
brinquedos): quase do seu tamanho; rosto, braços e pernas de porcelana;
o resto era meio molenga (o que será que tem dentro?), mas escondido
pelo vestido... Ah! O vestido! Azulejando de rendas e babados! E o
cabelo? Faiscando um sol de cachos! (Não um cabelo de rato como o
seu... suas irmãs não cansam de dizer.) Aniversário
e Páscoa. Nem festa, nem bolo, nem ovos de chocolate. Muito menos
boneca. Noite fria de abril, apenas. Na cozinha o pai escuta o rádio e
a mãe passa roupa. Irmã com o namorado na sala. Campainha.
Olha pela janela. (Casa antiga, no fundo do terreno. Portão de ferro.
Rua lá longe...) Rangido do portão e lá vêm os tios. Ela alta, de óculos.
Ele baixinho, sempre de chapéu. E trazem... uma forma de gente
embrulhada pra presente! Coração
pulando, o querer nem cabendo dentro... Pula, grita, sai correndo. Volta
mal carregando o embrulho. (Da mãe aquele olhar de "mais tarde vai
se ver comigo"). Apalpa.
Barriga molenga. Confere. Braços... Braços? Estranho... Rosto...
Cabelos? (O querer refluindo... "Não rasgue o papel!"). Abrindo
com cuidado. Uma saia vermelha! Mais um pouco... Braço verde com luva
branca! Soltando o durex de baixo... Duas patas! (Rasgo o papel e
pronto!) Uma coelha verde de feltro. "Feliz Páscoa, minha
querida!". "Beije os tios. Diga obrigada". Querendo
engolir o querer... e ele aguando pelos olhos. Abril 2001 |
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Célia de Lourdes Amaral de Almeida
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