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Centenário de
Artaud
e o Cinema Francês da Década de 20 |
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“O
cinema dotará o homem de um sentido novo. Ele escutará com os olhos.
Ve-col ha-am raú et ha-colot, diz o Talmud. Eles viram as vozes. O
homem será sensível à versificação luminosa, como foi a prosódia.
Verá entreter-se o vento com os pássaros. Um trilho tornar-se-á
musical. Uma roda será tão bela quanto um templo grego. Nascerá uma
nova fórmula de ópera. Ouvir-se-ão os cantores que a gente não vê
— oh! maravilha — e a Cavalgada das Valquírias tornar-se-á possível.
Shakespeare, Rembrandt, Beethoven farão cinema, porque seus reinos serão
ao mesmo tempo idênticos e mais vastos. Subversão louca e tumultuosa
dos valores artísticos, floração súbita e magnífica de sonhos, mais
alucinantes do que todos os que já existiram. Não apenas imprensa, mas
fábrica de sonhos, água real, tintas de girassol, para mudar à
vontade todas as psicologias. O tempo da imagem chegou!”
O cinema entra na
vida de Antonin Artaud na mesma época em que começava a se tornar algo
mais parecido com uma obra de arte, no momento em que passa a ser
cultuado. A metade da década de 20 é marcada, em nosso ponto de
interesse, tanto pela chegada de Artaud em Paris (1924) — vindo de
Marselha — quanto pela assimilação um pouco tardia da Vanguarda da
pintura e da poesia pelos cineastas da época. A Vanguarda do cinema
francês era profundamente inspirada nos movimentos dadaísta e cubista.
Dessa forma, não foi difícil para entusiastas como Ricciotto Canudo,
Louis Delluc, Marcel L’Herbier e Germaine Dulac atraírem a atenção
de atores, escritores, pintores e intelectuais que fervilhavam pelas
ruelas e cafés do Quartier Latin para os novos espaços reservados ao
cinema: os cine-clubes. O primeiro deles se chamou “ Os amigos da Sétima
Arte”, denominação criada por Canudo que se tornou sinônimo mundial
da invenção dos irmãos Lumière. O cinema passa a ser
tratado como arte. Alguns dos jovens
mais encontrados nos cine-clubes eram René Clair, Man Ray, Luis Buñnuel,
Salvador Dali, Jean Cocteau, Abel Gance, Fernand Léger, Carl Dreyer,
Jean Renoir e o brasileiro Alberto Cavalcanti. Nesse mesmo período
Artaud funda o teatro de Alfred-Jarry, participa ativamente do movimento
surrealista, de onde é afastado em 1926, e começa a se aproximar do
cinema mais ativamente ao ser convidado por Abel Gance para interpretar
o herói da Revolução Francesa, Jean-Paul Marat, no épico Napoléon,
rodado entre 1925 e 1927. O papel não era o do protagonista, mas
dividia com os personagens de Danton e Robespierre — os “Três
Deuses” — a primeira linha de coadjuvantes desse que é um dos
maiores clássicos da cinematografia mundial. A interpretação que
Artaud faz de Marat é algo que ficou marcado na história da representação
em cinema como uma expressão que quase beira a de ódio, mas ao mesmo
tempo de asco, revolta e desconfiança. Muito atores tentaram imitá-lo,
mas não conseguiram. O próprio Albert Dieudonné, que interpreta
magistralmente Napoleão Bonaparte, incorporou certos maneirismos de
Artaud, e dá margem à especulação de que Abel Gance — apesar de
ser um mestre na direção de seus personagens — tenha permitido ao
jovem ator passar um pouco de sua nova técnica à veterana estrela. Ironicamente Dieudonné
jamais consegui interpretar outro papel na vida com sucesso, sua paranóia
chegou a tal ponto de escrever dois livros quase que
“psicografados”: O Czar Napoleão
e Eu, o Imperador. O filme é marcante
em quase todas suas cenas pela inovação da linguagem imposta pelo
diretor. Os movimentos de câmera em passagens como a da batalha de
bolas de neve e a da tempestade no Mediterrâneo entrecortada pelas
imagens enlouquecidas do início da Era do Terror na Assembléia
Nacional foram infinitamente reproduzidas ao longo dos anos. O atual
frenesi dos videoclipes não chega nem perto do efeito alcançado por
Abel Gance. Em Napoléon, a cena mais marcante de Artaud é certamente a da morte
de Marat apunhalado na banheira. Uma reprodução fiel do famoso quadro
de David — o pintor da Revolução — que hoje está exposto no Museu
de Bruxelas. É a essência do pensamento de Abel Gance sobre a reprodução
idêntica e ao mesmo tempo mais vasta de uma obra de arte. Artaud sai do
pincel de David para a tela de Gance. Mesmo que tenha
escrito vários roteiros para o cinema, sua única obra levada às
telas, no entanto, foi La Coquille
et le clergyman (O caramujo e o clérico), de 1928, com direção de
Germaine Dulac. Esse filme ficou muito mais conhecido pelo violento e
memorável escândalo que Artaud provocou com uma manifestação
surrealista na frente dos Estúdios Ursulines no dia de seu lançamento,
em janeiro de 1928, que pela riqueza da obra. Ele não concordou
com a forma como a diretora usou seu roteiro e tampouco em não ter sido
escolhido para representar o protagonista. Segundo Georges Sadoul, um
dos maiores críticos de cinema que jamais existiu, apesar de toda a
confusão causada por Artaud, o filme é “honesto e honorável,
sobretudo por suas sequências filmadas na ruas de Paris. Um filme
revolucionário e de vanguarda”. O filme mostra um
pastor anglicano (interpretado por Alex Alin), apaixonado por uma beleza
romântica, que triunfa sobre seu rival mas não sobre seus complexos.
Uma estória simples, bem contada em cerca de 45 minutos, mas que só
chamou a atenção por causa do escândalo de Artaud. Em seguida a esse
episódio, Antonin Artaud é convidado por outro dos maiores diretores
da história do cinema — o dinamarquês Carl Dreyer — para um papel
em La passion de Jeanne D’Arc
(O Martírio de Joana D’Arc). O roteiro foi inspirado diretamente nas
minutas do processo de Joana D’Arc e a trama se desenvolve no tempo
cronológico de apenas um dia, e não como os demais filmes sobre a heroína
francesa, que fazem um histórico de sua vida desde criança até sua
morte na fogueira. Com exceção de
algumas poucas cenas o filme é quase todo composto por closes, o que
para a época era um grande risco, já que os padrões estéticos do
espectador já havia sido formado para a visualização de tomadas bem
amplas. Segundo André Bazin, esse recurso fora usado com dois propósitos
que ele considera contraditórios, mas complementares: misticismo e
realismo. O rosto é a maior
ferramenta do ator para expressar sentimentos, no entanto, Carl Dreyer
exigiu de seus atores mais do que interpretação. Como o enquadramento
predominante era o close do rosto, vista de tão perto, a máscara da
interpretação cai. Sem o resto do corpo, a expressão facial de um
sentimento pode se tornar caricato. O que vale no close são os pequenos
detalhes: uma verruga, sardas, rugas, lágrimas, lábios e sobretudo o
olhar. Fica marcada na mente de cara um dos já tiveram a oportunidade
de ver O Martírio de Joana D’Arc o quão vago é o olhar de
Falconetti no momento em que seus cabelos estão sendo cortados de
verdade pelo carrasco, minutos antes de ir para a fogueira. Artaud tem uma
participação marcante neste filme. Em meio a toda a loucura que
envolve o julgamento e marca a expressão dos inquisitores, o que é
mais insólito é que o futuro teórico do “teatro da crueldade”
transmite, em suas aparições, qualquer coisa de angelical. Em um texto
de Henri Agel sobre a representação da Idade Média no cinema o crítico
cita Artaud como um ator devoto ao registro exagerado e enfático dos
personagens particularmente em Napoléon, e mais tarde em L’Opéra
de quat’sous e Lucrèce
Borgia, mas que em La Passion de Jeanne D’Arc interpreta a doçura
e a discrição. Ele faz um monge que representa o aspecto
misericordioso da Igreja, e, sobretudo, porque ele é, como Joana
D’Arc, um ser das luzes em oposição ao demoníaco poder das trevas.
Dreyer, com seus primeiríssimos planos, tira de Artaud a expressão de
sua alma. Após La
passion de Jeanne D’Arc Antonin Artaud participa de mais um filme
em 1928 — L’Argent, de um
dos precursores do movimento de Vanguarda, Marcel L’Herbier — e se
volta mais para suas atividades no teatro. Sua próxima aparição nas
telas vem somente três anos depois, na versão francesa de L’Opéra
de quat’sous, adaptação cinematográfica realizada pelo austríaco
Georg Padst sobre a obra de outro monstro do teatro, Bertold Brecht; que
por sua vez se baseou na Ópera
dos Mendigos, escrita 200 anos antes por John Gay. Suas duas últimas
interpretações no cinema foram exatamente sob a direção daquele que
lhe fez o primeiro convite para se expressar pelas sombras projetadas em
um pano branco, Abel Gance. Ele fez Mater
Dolorosa, em 1932, e Lucrèce
Borgia, em 1935. A participação de
Artaud no cinema é limitada por muitos a somente seus dois primeiros
filmes. É certo que aquele que poderia, segundo Truffaut, ser o maior
ator francês optou para o caminho do teatro, onde realmente o ator é a
peça chave. O cinema é muito confuso, extremamente coletivo e o ator não
é mais do que uma das ferramentas que o diretor tem em mãos para
executar sua obra de arte. Artaud, como
escritor, também se aventurou no cinema, mas acabou gerando a famosa
polêmica em torno de La Coquille
et le clergyman. Como ator marcou seu lugar, mas infelizmente jamais
tivemos a oportunidade de vê-lo por completo como protagonista de um
filme. Mais recentemente um
documentarista francês, Gérard Mordillat, começou a reunir momentos
da obra de Artaud no teatro e no cinema para a realização de três
filmes. Um deles, Ma vie et temps
avec Antonin Artaud, é uma espécie de documentário ficção
baseado em um texto do poeta Jacques Prével. A narração se passa na
Paris de 1946, logo após Artaud sair do sanatório, onde passou nove
anos de sua vida, e se reencontrar com o antigo amigo. Este filme,
inclusive, está atualmente em cartaz em um cinema de Nova York. Outros dois documentários
de Mordillat, esses mais com depoimentos a respeito de Artaud, são En
compagnie de Antonin Artaud e La
véritable histoire d’Artaud, le Môme. Para aqueles que
gostam de navegar pela Internet já existem alguns sites que falam de
Antonin Artaud, alguns deles até com brincadeiras a respeito de sua
obra, como um que adapta as cartas deixadas pelo ator e diretor para uma
troca de correspondência com Steven Spielberg, onde comenta sobre seus
filmes do ponto de vista social e de interpretação. Lembrando Truffaut, para os que preferem o cinema, infelizmente o teatro e os percalços da vida privaram a humanidade de conhecer melhor e admirar aquele que tinha tudo para ser o melhor ator do cinema francês. Antonin
Artaud Marselha,
1896 — Ivry-sur-Seine, 1948 Filmografia Ator: Napoléon,
Abel Gance (1927) La
Passion de Jeanne D’Arc,
Carl Dreyer (1928) L’Argent,
Marcel L’Herbier (1928) L’Opéra
de quat’sous, Georg W. Pabst (1931) Mater
Dolorosa,
Abel Gance (1932) Lucrèce
Borgia,
Abel Gance (1935) Roteirista: La
Coquille et le clergyman,
Germaine Dulac (1928) Tema
de documentários: Ma
vie et temps avec Antonin Artaud,
Gérard Mordillat (?) En
compagnie de Antonin Artaud,
Gérard Mordillat (1993) La
véritable histoire d’Artaud,
le Môme, Gérard Mordillat
(1993) Bibliografia AGEL, Henri. La
Jenne D’Arc de Dreyer. In: Les
cahiers de la cinématheque: le Moyen Age au cinéma. n. 42/43, p.
45-49, Perpignan : Institut Jean Vigo, 1985. BAZIN, André. O
Cinema da Crueldade. São Paulo : Martins Fontes, 1989. GRAND
DICTIONNAIRE ILLUSTRE DU CINEMA. v. 1, Paris : Atlas, 1985. ORTIZ, Carlos. O
romance do gato preto: história breve do cinema. Rio de Janeiro :
Casa do Estudante do Brasil, 1952. SADOUL,
Georges. Dictionnaine des films.
Paris : Microcosme/Seuil, 1981. _________. Dictionnaire
des cinéastes. Paris : Microcosme/Seuil, 1981. _________. História
do cinema mundial. v. 2, Lisboa : Horizonte, 1983. TRUFFAUT, François. Os
filmes de minha vida. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1989. Vídeos: MARTÍRIO DE JOANA
D’ARC, O. Carl Dreyer. In: A história do cinema. Paris : [s.p] : TV
Globo, 1995. 1 videocassete: mudo, p&b, 12 mm. VHS Pal-M. NAPOLEON.
Abel Gance. Paris: Société Générale de Film : Continental,
[199-]. 2 videocassetes (222 min): mudo, p&b; 12mm. VHS
NTSC. Internet: www.libertynet.org/~ritzfilm/synopsesfiles/artaud/artaud/html
Auditório
do IC-II — Ufes |
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Wilson Coêlho Tenho
12 livros publicados, entre poesia, conto, crônica, dramaturgia e
ensaio. No prelo um romance com lançamento previsto para o final do
ano. Tenho montados 15 espetáculos com o Grupo Tarahumaras, fundado em
1987. Viajei diversos países como convidado, palestrante e oficineiro.
Sou licenciado e bacharelado em Filosofia pela Universidade Federal do
Espírito Santo e, por enquanto é só. |