Dois políticos profissionais, dois homens que traduzem muito bem o Brasil dos dias atuais: Jader Barbalho, presidente do Senado Federal, e Inocêncio Oliveira, líder e homem forte de um dos partidos que dão sustentação ao governo. É ocioso falar do nível político, moral, ideológico e da maneira como cada um desses senhores se comporta no trato do dinheiro público. Jader Barbalho governou o Pará, seu estado natal, e Inocêncio Oliveira, pernambucano do sertão, na condição de presidente da Câmara dos Deputados, chegou a enfiar os glúteos na cadeira da Presidência da República numa das inúmeras viagens do nosso presidente/turista.

Para exercerem seus mandatos, ambos foram previamente eleitos, respectivamente, senador e deputado, pelos eleitores dos seus estados. A seguir, para ocuparem os cargos atuais, foram eleitos pelos seus pares. E é dessa última eleição, da qualidade desses últimos votos, que me ocupo nesse momento.

Os mesmos senhores que elegeram tão esdrúxula dupla para os cargos de Presidente do Senado e de Líder do PFL preparam-se, nesses dias que correm, para regulamentar uma, digamos assim, “profissão”. O índice qualitativo dos votos que levaram Jader e Inocêncio aos seus cargos atuais vai ser usado para tornar oficial a atividade de psicanalista.

Essa atividade, o exemplo mais acabado e completo da cara-de-pau e da picaretagem de que o engenho humano é capaz, pode ser exercida por qualquer pessoa que se submeta às regras da panelinha que a controla e a mantém num círculo de ferro fora do alcance dos pobres mortais idiotas que ficam empulhados com os métodos e a linguagem dessa gente, que provoca fricotes nos crédulos quando citam Freud e Lacan. De tal sorte que um advogado, um economista, um engenheiro mecânico ou um fonoaudiólogo pode perfeitamente instalar o seu consultório/arapuca e faturar horrores, como o Bispo Macedo, às custas dos crédulos que se dispõem a abrir suas almas para estranhos e aventureiros que nada resolvem, nada curam, nada indicam e nada produzem. Enriquecem apenas ouvindo os podres alheios. Segunda consta, não receitam, não conversam, cochilam durante a consulta, não dão sequer conselhos e, com freqüência, mantêm relações íntimas com uma ou outra cliente mais atirada ou mais mal amada.

Um gaúcho amigo meu, pai de dois adolescentes gêmeos, me contou, na maior candura possível, que o que havia gasto em 10 longos anos de psicanálise daria para comprar dois bons apartamentos de classe média... O psicanalista continua solto, sequer foi indiciado, certamente rindo da idiotice do seu “paciente” e bem gozando o rico dinheirinho que manhosamente ganhou nessa década. E o meu amigo cada dia mais estressado e nervoso quanto ao futuro dos seus gêmeos, preocupado em poupar a duras penas, para garantir a casa própria dos filhos no futuro. Enquanto isso, os rebentos do tal analista devem estar explorando inquilinos com aluguéis escorchantes, e o meu ingênuo amigo continuando a dizer que foi “tratado” pelo espertalhão.

Levando-se em conta a degradação e as artes de embromação em que estão atolados os nossos políticos, de paralelo com a exploração e as artes enganatórias dos analistas, é quase certo que a psicanálise venha a ser regulamentada com os sufrágios “qualificados” dos nossos parlamentares, num pleito em muito semelhante à compra de votos do Executivo quando quer aprovar matérias do seu interesse. Uma mão lava a outra. Um safado esconde a safadeza do outro, para eterna dominação de nossas elites e perpétua manutenção do status-quo. Parlamentares – senadores e deputados –, que têm o desplante de, com seus votos, guindarem Jader e Inocêncio às posições que atualmente ocupam, com certeza votarão a regulamentação da “profissão” de analista com a cara mais lavada desse mundo.

Enfim, como na fábula de George Orwell, onde os porcos acabam se confundindo com os antigos patrões exploradores, a regulamentação da atividade de analista nos fará olhar para o chiqueiro do parlamento nacional e não notar qualquer diferença entre as patinhas sujas de lama dos nossos parlamentares e as sujas patinhas dos profissionais da enganação que se intitulam analistas. Políticos e analistas são farinha do mesmo saco quando se trata de aplicar determinados meios para atingir seus fins.

Não há mesmo esperanças de se mudar nada neste país.

 


Luiz Berto

É escritor. Dois de seus livros encontram-se na Livraria do Caixote.

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