Dicen que la distancia es el olvido
Roberto Cantoral

 

Lutar contra o olvido, reescrever o paraíso vivido e, mesmo que o tom melancólico predomine, manter a limpidez da lembrança talvez signifique encurtar a distância entre nós e o que deixamos para trás e, “[vagando] pelas bordas do papel”[1] e da mente, empreender eternamente a viagem, sem sair do lugar.

Nossa consciência de fim de milênio, no crepúsculo do tempo de ultramodernismo (na tecnologia) e de hiperprimitivismo (nas tendências do povo), revela uma gama de paródia, de kitsch e de devastação, ao mesmo tempo em que se inclui na vida do Outro, nas palavras do Outro, na visão desligada do Outro. Portanto, para iniciar este trabalho, tomo emprestada a idéia de entre-lugar, espacial e temporal – aquém e além do agora –, na tentativa de comparar o náufrago, o exilado, o nômade (e, por um certo viés, o homem atual) a um Crusoé às avessas, aquele que, finalmente de retorno à sua pátria após um longo exílio, percebe que é ali que se sente um verdadeiro exilado. O exílio, aqui, será entendido, simultaneamente, como escritura e vida real, como um desterro vivido às margens do livro e dentro dele.

Para ilustrar esse exílio invertido (e de papel), será evocada a história de Robinson Crusoé nas seguintes obras: Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, “Images à Crusoé” (Exil), de Saint-John Perse, “Crusoe in England”, de Elizabeth Bishop, e, por um outro ângulo – o do desejo menino de exilar-se na escrita de outrem –, o poema “Infância ou minha história” (Rosa do Povo), de Carlos Drummond de Andrade.

 

Narrar para viver

 

La vraie vie, la vie enfin découverte et éclaircie, 
la seule vie par conséquent réellement vécue, c’est la littérature.
Marcel Proust

 

Para Marcel Proust, a grandeza da Literatura (da arte em geral) é “a de reencontrar, de retomar, de nos fazer reconhecer essa realidade longe da qual nós vivemos, da qual nos afastamos cada vez mais”[2]. Essa realidade, que, segundo o autor de Le temps retrouvé, nós corremos o risco de morrer sem ter realmente conhecido, não é senão a nossa própria vida, cuja história se encontra escondida na nossa memória. É preciso que ela seja narrada, escrita, transformada em texto, para que se torne “verdadeira”, no sentido proustiano, e pertença a todos na possibilidade da leitura. Se não houvesse a literatura, a vida permaneceria o segredo eterno de cada um.

A História, por sua vez, é uma narração que tem como acréscimo a pretensão de ser uma ciência e não somente um romance. Na narratologia geral há um elemento metafísico, uma hegemonia concedida ao gênero narrativo, uma espécie de soberania dos relatos (inclusive dos menores deles), que lhes permite escapar à crise de deslegitimação. Portanto, a narrativa, que se desenrola no tempo, confunde-se com ele e ultrapassa a tênue fronteira entre o verdadeiro e o falso. O ato de narrar tem, em si, simultaneamente, o sentido da existência e a possibilidade de falar dessa existência, de contá-la. Se a própria vida deve ser transposta para a literatura, única forma de vida real possível, não há como estabelecer uma fronteira entre as narrativas ficcional e histórica. Segundo Benedito Nunes, ambas brotam de um “tronco comum” e extremamente poético – o mito[3].

Daí a importância do gênero narrativo e, também, de uma de suas formas mais vivas, a dos relatos do povo, que dizem ao mesmo tempo uma coisa e seu contrário. Como o que se vai tratar aqui é o exílio, convém que fique prevenido aquele que pretende aventurar-se em andanças e viagens: “boa romaria faz quem em casa fica em paz”, responderia a sabedoria popular. Usbek compartilha dessa opinião. Escrevendo com a inocência própria de quem descobre o mundo, o persa de Montesquieu afirma que os homens, assim como as plantas, deveriam permanecer em seu solo de origem, pois

... il y a des maladies qui viennent de ce qu’on change un bon air contre un mauvais. [...] L’air se charge, comme les plantes, des particules de la terre de chaque pays [et] les hommes sont comme les plantes, qui ne croissent jamais heureusement si elles ne sont bien cultivées. Heureux celui qui, connaissant le prix d’une vie douce et tranquille, repose son coeur au milieu de sa famille et ne connaît d’autre terre que celle qui lui a donné le jour!   . ... há doenças que vêm do fato de se trocar um bom ar por um mau. [...] O ar carrega-se, como as plantas, das partículas da terra de cada país [e] os homens são como plantas que não crescem jamais felizes se elas não são bem cultivadas. Feliz aquele que, conhecendo o prêmio de uma vida doce e tranqüila, repousa seu coração no seio de sua família e não conhece outra terra a não ser a que o deu à luz![4]

 

E, no entanto, viajar talvez seja tão próprio do ser humano quanto criar: o que a História relata é essa errância da humanidade através dos séculos. O homem persegue, cada vez mais, a sua obsessão de cruzar fronteiras, e a transculturação não é mais a transmissão de tradições e sim uma espécie de transumância humana pelo mundo. A viagem é o “trânsito simbólico e cultural da contemporaneidade”[5]. Estudar literatura mundial seria, portanto, estudar as “projeções de alteridade” pelas quais as culturas se reconhecem. A vida cultural é vivida de maneira “inconsciente”, e a literatura do mundo seria “uma categoria emergente, prefigurativa, que se ocupa de uma forma de alteridade cultural onde termos não consensuais de afiliação podem ser estabelecidos com base no trauma histórico”[6]. O momento do exilado relaciona a história pessoal e psíquica à existência histórica e política.

Desde a Antigüidade (com as viagens de Ulisses inspirando Homero; a história de Sócrates, que prefere morrer a perder a terra natal, ou a experiência pungente de Ovídio, a quem a volta à pátria foi negada para sempre) até a Idade Contemporânea (com o Deserto dos Tártaros – cujo personagem é um peregrino imóvel –, odisséia de uma consciência e da identidade da escrita consigo mesma, através do labirinto da interminável narração), passando pela literatura medieval, romântica, simbolista e surrealista, o tema da ausência manifesta-se, principalmente nessas correntes da literatura que mais perto do lirismo se encontram, nos momentos em que mais se proclamou a inspiração e o gênio. É pela palavra escrita que se pode penetrar na nostalgia e nas privações que os homens sofreram em terra alheia, nos lugares de ninguém, longe do lar – o país natal (que significa, a um só tempo, sentimento patriótico, tradições, cultura, língua, família, relacionamentos, enfim o “espírito do lugar” de que falava Lawrence). Se certos autores não tivessem conhecido o exílio, se sua “romaria” tivesse sido a paz de sua casa, quantos relatos de viagens, quantas histórias de vida (e de morte), quantas andanças de memória, em suma, quantas obras-primas teriam deixado de existir? A “quantidade de obras nascidas sob o signo do exílio”[7] comprova a marca profunda que a experiência do desterro imprime na personalidade dos que são obrigados a vivê-la, desde os mais remotos tempos. Entretanto, “o exílio nem sempre aniquila. Nas rupturas a que obriga, entre o cotidiano, o sentimento, a razão e a imaginação criadora, a ausência age como acicate: o espírito prevalece”[8]. O constrangimento faz com que os autores criem e as obras respondem por eles, como no caso de Dante:

Quando Dante atravessava Verona, o povo apontava-o com o dedo e segredava: “ele está no inferno”. E como poderia ele, de fato, sem aí viver, descrever-lhe todos os tormentos? Ele não os tirara da sua imaginação, ele os vivera, experimentara, vira e sentira. Ele estava de verdade no inferno, na cidade dos condenados: ele estava no exílio[9].

[próxima]


[1] Silvana Pessôa de Oliveira. De viagens e de viajantes, p. 25.

[2] Marcel Proust. Le temps retrouvé, p. 256-257.

[3] Cf. Benedito Nunes. Narrativa: ficção e história, p. 57.

[4] Montesquieu. Lettres persanes, p. 190.

[5] Haydée Ribeiro Coelho, anotações de aula, dezembro de 2000.

[6] Cf. Homi K. Bhabha. O local da cultura, p. 33.

[7] Carlos Ascenso André. Mal de Ausência. p. 673.

[8] Maria José de Queiroz. Os males da ausência, p. 30.

[9] Maria José de Queiroz. Os males da ausência epígrafe de Heinrich Heine, Über Ludwig Börne.