Apresentação

Menina

Lily

História de Lô e Lô Peido Carlos
Vida fácil Marilda
Sobre putas, domingos, viados e sanduíche Thomas
Retrato da vida com retoques red cat
Creusa urublue
Red Rooster Humphrey
Putinha, minha vizinha Lily Rowan

 

 

 

 

 

 

Apresentação

No dia 10 de novembro de 1999, o tema da Sopa da Red foi "putas". Tantas e tão boas foram as opiniões e as histórias, que nasceu ali a idéia de sobre isso escrevermos textos: ficção, poesia, crônica, o que cada um decidisse. O resultado aqui está.

As imagens foram roubadas de um site de fotografia de um artista famoso de Manhattan. Infelizmente perdi o site e o nome do cidadão. Quem souber pode me enviar que darei todos os devidos créditos.

_____________red cat         

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Menina1
Lily

 

1Puta [do lat. Putta, por puta, ‘menina’]. S.f. chulo, meretriz, mulher devassa, libertina.

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Nos cantos do destino,
pela rua,
uma figura passa
ao revés da sina
— que a vida ela faz,
difícil e lassa
(dizem uns que 
é fácil e libertina).

Devassidão menina
de olhos baços,
lenta canção que nina
homens desfeitos,
nela revivem mortes mínimas,
átimos de sonhos saciados.

Olhos vidrilhos,
pupilas sem viço,
seu colo roliço
é mundo esquecido,
o corpo, a roda
de ciranda-vida,
airada e só.
Vida de viés,
alinhavada e crua
em retalhos de paixão.

(Puxa, alusão dissoluta!
Que palavras escolho, sorrateira?)

Ela sangra sem saber em minha alma.
(E quanto de mim transborda
e vive nela?)

O halo da linguagem
traça círculos (sem vícios)
imperfeitos,
nesse frágil fantoche
corrompido.

Esquece a tua alma pequenina
os teus conceitos,
a palavra nua.
Mira de viés:
naquela esquina,
reverbera no negrume
a silhueta
— é uma menina
   dissolvida em lua.

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História de Lô e Lô
Peido Carlos

Chamava-se Lourival e era quase pobre, quase burro e quase feio. Descobriu-o não pelo exercício acerbo da autocrítica, mas pelo isolamento em que sempre o puseram, na escola, no trabalho, na vizinhança. Acrescia que era quase chato. O Banco pagava-lhe o estritamente necessário para sobreviver, dividindo com a mãe o suburbano apartamento de dois quartos. Sem namoradas, amigos, extravagâncias, noitadas, dava-se entretanto o benefício semanal de ir às putas, à saída do trabalho, porque na sua idade é imperioso aplacar as imposições da carne. Freqüentava uma casa na Cidade Nova, perto do Banco, onde o preço era módico e as meninas limpinhas.

Um dia, por razões quaisquer, foi com Siomara, que tantas vezes já vira na casa, sem que contudo o fado lha destinasse. Gostaram ambos, e muito, Alguma eletricidade, ou química, sobejou ao que de hábito é, e remanesceu no após. A contar de então, Lourival esperava, se Siomara estivesse ocupada, e, de fato, mais esperava, já que ela, sabendo caber-lhe Lourival a seguir, abluía-se mais demoradamente, com caprichosa diligência, não fosse ele encontrar em seu corpo dejeto ou traço do cliente anterior.

Houve portanto que a relação comercial privilegiada demudou em afeição, e daí em carinho, e ele deu de rasgar a alma depois de cada orgasmo, e ela o ouvia em simpatia a sorriso. E também ela lhe disse coisas de sua vida, de como viera menina de Feira de Santana, e que não se chamava Siomara de verdade, mas Lourença, o que, naturalmente, rimava com Lourival, e que assim são as peças que o destino prega, e riam como crianças, às vezes às gargalhadas, e se deixavam estar até a caftina bater à porta e anunciar  “Tem freguês!”,  não por má índole, que até simpatizava com os dois, mas porque aquilo era um local de trabalho, não de prazer.

Tratavam-se então por Lô e Lô, ele o depositário do inefável, o nome secreto, insabido, de Siomara, chave evidente da intimidade dela. E se faltasse uma semana, era admoestado, que a falta de dinheiro não escusava a ausência e — pronto! — eliminava-se a pecúnia, e que ele viesse sempre de graça, mas não deixasse de vir. Assim passou a ser, e nem ocorreu a Lourival que a moça tirava do que era seu para pingar, a cada visita dele, o óbolo indispensável da caftina, que orçava por quase a metade da féria frustrada. Lourença, não obstante, alegrava-se em fazê-lo.

No dia em que se finou a mãe de Lourival, ela soube pelo jornal e foi ao Cemitério do Caju fazer-lhe companhia na solidão do velório noturno. Esteve com ele até a chegada do primeiro visitador da manhã, retirou-se discretamente, Lourival retornou ao pequeno apartamento com uma cisma, que remoeu e digeriu pelos três dias de nojo que o Banco lhe concedeu por força da legislação trabalhista. O que lhe obsedava o espírito era esta singela conjectura: se não é amor, é indistinguível do amor.

No retorno ao trabalho, contou os minutos até o fim do expediente, e foi ter com Lourença. Nesse dia, a blandícia habitual da moça pareceu extravasar em mimos e afetos de um candor perdido no tempo, convertidos ambos em adolescentes que se querem como só adolescentes se querem. Espírito ao cabo apascentado, seguro, determinado, Lourival olhou-a nos olhos e disse "Lô, eu quero que você largue essa vida, e venha viver comigo, na minha casa”, mas ela respondeu  “Quero não”.

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Vida fácil
Marilda

Quando o assunto em pauta foram as mulheres de vida fácil, Neide, funcionaria pública e careta de carteirinha, olhou pra amiga e disse: Vida fácil?? Tá bom! Sou apaixonada pelo meu marido, ele é lindo, cheiroso e gostoso e tem dias que se ele encostar em mim eu mato!! Imagine essas coitadas, tendo que ir com quem aparecer... Vida fácil é a nossa!!
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Sobre putas, domingos, viados e sanduíche
Thomas

"Meu doutorzinho bebeu um bocado, hem? Não tem importância, vamos subir, eu ajudo... Ah, gosto quando ocê vem, meu doutorzinho..."

(A tela branca desafia: escreva sobre putas... sobre uma puta... Suspendo a respiração, fecho os olhos, o mergulho poderá ser doloroso.)

"Aposto que não comeu nadinha, né mesmo? Ocê está magrinho... Gastou tudo só com bebida? Tem que comer também, meu doutorzinho. Que escada difícil, hem? Pronto, vamos entrar, a Martinha vai cuidar d’ocê...

Saio do prédio do DA da Escola, merda de hora dançante, isto é só pra quem tem dinheiro e carro, merda de domingo, domingo à noite é sempre merda mesmo, a vida da gente - toda ela - é uma merda de domingo à noite...Uma coisa que não consigo compreender: a turma parece gostar disso... Parecem alegres, todos eles... Mas aproveitando o quê? Música ruim, sempre as mesmas caras, o papo-furado... perverso... Hoje ficaram contando os viados da turma que chegavam no DA... Merda... Cuba libre de merda, estou tonto... e duro...Gastei toda a grana? Não... guardei cinco mangos, tenho certeza... Onde enfiei a merda do dinheiro?... 

"Deixa eu ajudar, deita aí, eu puxo as calças... Nada de apagar agora, viu?... Tem que comer, meu doutorzinho, não pode ficar apenas bebendo, não, aposto que está com fome, né? Ih, ih, essas cuecas novas parecem calcinhas..."

 Cinco mangos... Vou a pé pra casa... quase uma da madruga... Os merdas, riquinhos, todos de carro, eu aqui na sola do pé, no dedão... Por que não dei o fora mais cedo, porra?

"Ocê tem aula amanhã cedo, né? Vai ficar cansado, doutorzinho...Venha cá... o estômago tá ruim? Ah, não vá me aprontar sujeira, por que será que sempre vem aqui neste estado? Vem cá, vem cá, doutorzinho, tenho uma coisa gostosa aqui pr’ocê... deixa eu te ajudar a entrar em mim... a te abrigar..."

Este parque escuro me dá medo, tudo me dá medo, diacho, eu não deveria ter virado aquele último cuba-libre... Foda-se o mundo, foda-se o medo... contavam os viados, que merda. Até o J... porra, quem poderia imaginar? Sempre rodeado de meninas, o karmanguia, capota elevada, vazando meninas e, agora essa: viado!... Cinco mangos... o preço da Martinha, ela deve estar lá, na Inhaúma...Vou pra zona, tenho que ir... 

"Ih, ih... ocê gozou muito rápido, doutorzinho, tá cansado, né? Já está apagando, coitadinho..." 

Sim, lá está ela... Parece que sempre está aqui... Ela é legal, não dá medo, não passa doença... Pronto, já me sorriu... Deixa eu conferir o bolso: cinco mangos, diacho, dane-se o DA, a turma, os viados, esse domingo de merda...

"Vou dar uma saidinha, volto logo, fique descansando, meu doutorzinho..."

Que lugar mais sórdido, merda. O que estou fazendo aqui? Como uma criatura consegue viver sempre no escuro? Que espécie de merda de vida ela leva? Diacho, conto tudo pra ela... E o que sei dela? Porra nenhuma... Foda-se, quem se importa? Puta é puta, ela parece gostar disso, gosto que ela me acaricie os cabelos, que não me beije... Ela é apertadinha, como faz? Será que a xoxota chupeta é, na verdade, a mão dela? E o otário aqui nem percebe? Foda-se, foda-se, ahahah, dei a minha trepada... o pessoal contando os viados... Que contem viados, foda-se... Onde será que ela foi?...

"Ei, acorde, doutorzinho, olha o que eu lhe trouxe... Vamos, acorde, coma enquanto está quentinho..." 

Sanduíche gostoso, nunca comi um igual, nossa, eu estava com fome mesmo. De pernil, quentinho... Onde será que ela arrumou isso? Num desses botecos imundos da zona, de onde mais, seu besta? Você está morto, seu doutorzinho de merda, morto...Mas que delícia, que delícia...

"Melhor ocê dormir mais um pouco, eu te acordo cedo, amanhã tem aula, né? Gosto de estudantes, gosto d’ocê, muito... Mas tem que comer, viu? O meu doutorzinho tá muito magrinho... Agora, pode dormir...

O Sol brilha a manhã da segunda-feira, subo a Inhaúma, passos rápidos, fantasmas dissipando-se, minha nossa, tenho que chegar em casa, tomar um banho, aula às oito, estou ferrado, que loucura, dormi na zona...Ah, até sonhei, sonhei com sanduíche... De pernil... Não faço mais isso, nunca mais volto aqui, merda, o que é isso no meu bolso? Merda, ela não cobrou, não cobrou... Merda... ah, foda-se pra ela...

(A tela não está mais branca, penso na Martinha, onde estará ela agora?... Estará viva? Ora, que diferença faz? Isto não preencherá o vazio da minhas noites de domingo...)

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Retrato da vida com retoques
red cat

Foi naquela manhã em que dormi demais.
Quando acordei, ele já havia ido. Fiquei me revirando na cama, queimando de desejo, me recriminando pelo cansaço. Na noite anterior tínhamos nos amado feito loucos, com fome e paixão e tesão. Depois, eu me aninhara entre suas pernas, a boca envolvendo seu sexo esgotado, e assim tinha adormecido, sentindo o morno contato de seus dedos em meus cabelos, num raro instante de ternura em meio à explosão que sempre era nosso encontro.
Quando abri os olhos de novo, a esplendorosa manhã entrava pela janela, iluminando os lençóis amarfanhados e a avassaladora ausência de meu homem.
Ele já tinha partido.
Fiquei ali, nua, com preguiça de me mexer, apenas pensando. E foi assim que tive a idéia.
Fiz as contas rapidamente. Duas semanas. Seria tempo suficiente? E, principalmente, eu conseguiria convencê-las?
Comecei a rir sozinha à medida que ia planejando cada detalhe. Eu o amava tanto, tanto... Por isso era capaz de ir em frente. Era capaz de me reformular, abandonar velhos e inúteis hábitos, refazer emoções e me tornar melhor. Eu sabia que ele me queria melhor.

Pulei da cama, tomei um longo banho quente, me arrumei, mas sem exageros. A missão era difícil e eu conhecia bem as mulheres. Era preciso superar a primeira etapa, a intrínseca rivalidade com a qual nascemos.
Depois me sentei ao lado do telefone e procurei na lista o nome de Paula. Ela seria a primeira, e sua cumplicidade era preciosa. 
Espantou-se um pouco quando me identifiquei. Como eu supunha, já sabia de mim. Paula era como eu, e por isso imaginava que ele lhe contasse algumas coisas também. Não me enganei. Minha intimidade era dela, como a dela era minha. Ele nos unira desde que passara a sair com as duas, uma à tarde, outra nas madrugadas.
Fui falando meio aos trancos, nervosa, tímida, mas decidida. Ela me ouviu, fez perguntas, ponderou. Depois começou a rir e ao ouvir seu riso rouco, sensual, relaxei. Claro que ela aceitava. Combinamos de nos encontrar mais tarde, nos despedimos quase amigas, e tratei de buscar o número das outras.
Marion não seria fácil. Era muito jovem, carregava uma mágoa enorme de ter sido deixada de lado quando ele tinha reatado o casamento. Mas continuava louca por ele e isso eu entendia bem. Quando atendeu o telefone, me apresentei com o maior cuidado, procurando palavras certas, tentando me lembrar de tudo que ele havia contado a respeito dela. Me lembrei de que adorava telenovelas e por aí fui, usando um tom soap opera, encarnando um personagem. Venci Marion pela curiosidade. Ela não iria resistir a descobrir detalhes a meu respeito, a conhecer meu envolvimento com ele. Marcamos de nos encontrar um pouco depois que eu visse Paula. Não liguei para suas lágrimas ao telefone. Eu confiava que Marion a nós se juntaria, se realmente estivesse apaixonada por ele.
Não telefonei para as ex-esposas. Deixei para o dia seguinte, depois que tivesse Paula e Marion a meu lado. Lidar com esposas, descartadas ou atuais, era tarefa acima das forças de uma única mulher.

Paula era linda, tinha cabelos escuros e lisos, olhos meio puxados, negros, um ar misterioso que devia enlouquecer os homens. O corpo já havia sido mais bonito, mas ainda era generoso e acolhedor. Tentei vê-la com os olhos dele, e me surpreendi sentindo um arrepio. Paula era uma mulher para ser abraçada, apertada, mordida, para levar qualquer homem a perder-se em seus seios fartos e nas coxas roliças que a minissaia mal escondia. 
Quando sorriu, entretanto, transformou-se numa menina travessa. De novo me surpreendi. Aquele sorriso tinha lhe roubado dez anos. Era uma adolescente na minha frente, apesar de seus trinta e poucos anos.
Sentamos numa mesinha de canto, pedimos dois expressos, ficamos nos olhando sem saber direito o que dizer. Aí lhe falei tudo de uma vez, dos detalhes que já havia planejado, dos custos. Contei que marcara com Marion mais tarde. E pedi ajuda para as ex-esposas.
Um brilho divertido iluminou o olhar de Paula. Ela acendeu um cigarro, tragou, soltou a fumaça, depois me encarou.
– Só ele? – perguntou então. 
Entendi imediatamente.
– Acho que sim, Paula. Pelo dia, tem de ser só ele, não concorda?
Ela riu alto.
– Tá certa. Ia sugerir mais uns dois amigos, mas você tem razão. Conte comigo pra tudo. Também sou apaixonada por aquele filho da puta, e achei sua idéia genial.
Tive vontade de abraçá-la. Em vez disso, pedi que fosse comigo falar com Marion.

Eu a avistei de longe, andando nervosa em frente a uma vitrine. Os cabelos castanhos estavam presos num rabo-de-cavalo, ela usava jeans e tênis. Seu ar angustiado me deu pena e quase desisti. Mas então me lembrei do que ele me contava, de como gostava de trepar com aquela menina, e fui em frente. Já era tempo de transformar Sabrina em Messalina, disse comigo, um pouco cínica.
Me apresentei, apresentei Paula, e fomos sentar em um banco na praça ao lado. Marion não fez questão de esconder como se sentia chocada.
Foi Paula quem começou. Abraçou Marion, falando baixinho, acariciando-lhe a franja, depois prendendo-lhe a mão entre as suas. Vi o rostinho de Marion mudar de expressão, no esforço de compreender. Vi quando mordeu o lábio, ao ouvir sobre nós duas. Ensaiou uma cara de choro, a boca tremeu, mas ela bravamente engoliu os soluços. Então colocou em nós aqueles imensos olhos azuis, meio perdida, e falou quase inaudível.
– Ele vai gostar mais de mim depois?
Paula e eu trocamos um olhar, e naquele instante percebi que Paula entendia. Ela também conhecia todos os meandros que eu havia percorrido com meu macho, meu homem, meu dono. Nosso dono.
– Com certeza, Marion – me ouvi respondendo. – Ele nunca mais vai deixar você depois disso. 
Ainda indecisa, Marion abaixou a cabeça, torceu as mãos, alisou o jeans. E então, com um suspiro dramático, disse que aceitava.
Eu e Paula batemos palmas, rindo. E terminamos a tarde tomando sorvete no shopping, nós três, confabulando como feiticeiras a estratégia para atrair as ex-esposas.

Levamos uma semana para conseguir a adesão das duas primeiras. Não eram mais tão apaixonadas por ele, cada uma delas tinha seguido um rumo na vida, tinham os filhos (dele) para cuidar. Mas ainda adoravam trepar com ele. Morriam de saudade. Mas nunca tinham imaginado algo assim. Não eram disso. Não, nem pensar.
Marion, Paula e eu não demos trégua, pelo telefone, pessoalmente, nos revezando quase que diariamente. Entre nós, comentávamos como as duas se pareciam. Não fisicamente, uma era loira, a outra castanha, mas nas personalidades. 
Finalmente, na segunda-feira em que já estávamos a ponto de substituí-las ou tirá-las de nosso plano, ambas concordaram. Cada qual do seu lado, é lógico, mas no mesmo dia, o que consideramos um bom presságio. Maria Angélica e Maria Cristina agora faziam parte da tribo.

Na manhã seguinte nos encontramos as cinco. Chegara o momento da mais difícil das reuniões, em que teríamos de superar nossos ciúmes, nossos olhares avaliadores de uma para a outra e decidir como abordar a esposa. A atual. A primeira-dama. Estela. Sabíamos como ela controlava a vida dele. Sabíamos das dribladas que ele precisava inventar para encontrar-se com cada uma de nós. 
Foi uma reunião interessante, em que trocamos informações, preenchendo lacunas sobre a vida daquele homem. Rimos das semelhanças, ficamos com inveja das diferenças. Marion quase quebrou nossa união com uma crise de choro quando descobriu que era com Paula que ele passava as tardes em que não a procurava. As ex-esposas suspiraram e contaram de outras Marions e outras Paulas que nos antecederam.
E todas me olharam pensativas quando deixei escapar que sabia de todas elas.

Depois de horas de conversa não tínhamos ainda traçado uma estratégia para cooptar Estela. Até que Paula, lançando os cabelos negros para trás, exclamou:
– Já sei. Nós vamos seqüestrá-la.
Caímos na risada, mas ela tinha falado sério.
– Estela não foi sempre essa ameba dona de casa – disse ela, decidida. 
Eu concordei, e a segunda ex-esposa apressou-se a informar Marion que Estela o havia seduzido numa boate, onde trabalhava, e que ambos tinham vivido alguns meses em um motel, quando ele a estava deixando, a ela, Maria Cristina.
Marion arregalou os olhos, incrédula.
Paula prosseguiu.
– Nós a seqüestramos, a fazemos lembrar um pouco o gosto da vida, a deixamos no ponto para ele.
– Não temos muito tempo – lembrei, olhando um calendário na minha agenda. – Cinco dias.
– É suficiente – disse Paula, levantando-se. – Ela fica em casa, amanhã a levamos para lá. Agora já vou, ele está me esperando. Ciau, bambinas.

Não vai dar certo, pensei comigo na manhã seguinte, ao mais uma vez acordar sozinha. Ele tinha vindo de madrugada, e talvez pela excitação da surpresa que lhe preparava, talvez porque sentia mesmo muito sua falta, eu havia me entregue com mais ardor que de costume. Tive dois orgasmos seguidos enquanto ele me penetrava sussurrando em meu ouvido que eu era a sua putinha, a sua fêmea, que ele queria fazer uma filha em mim. Era sempre o que me dizia, que queria fazer uma filha em mim. Nunca um filho. E eu morria de prazer em seus braços. Dormi enlaçada, segurando-lhe o sexo, sonhando em fazê-lo sempre mais e mais feliz. Quando acordei tinha apenas seu cheiro em minha pele e as marcas de seu amor no corpo. E pensei imediatamente em Estela e quase desisti de tudo. 
Ela não ia ceder. Ia fazer um escândalo. Ele iria nos odiar porque o tiro poderia sair pela culatra e ele acabar prisioneiro para sempre naquele casamento. E se não pudesse nos ver mais?
Levantei e corri para o telefone. Eu precisava impedir Paula. Precisava fazê-la desistir do seqüestro. Tinha de achar Marion também, que serviria de "isca", por ser a única que Estela conhecia.
Quando Paula atendeu, vi que era tarde demais. Seu tom triunfante me contou que Estela já estava lá.

Nem quis ouvir detalhes pelo telefone. Me vesti em cinco minutos e voei para a casa de Paula.
Achei-as na sala. Estela ladeada por Paula e Marion. As duas ex-primeiras não tinham vindo, por ser horário de levar as crianças no colégio.
Estela tinha sido linda. Poderia voltar a ser, se suavizasse aquele olhar cansado e se cuidasse um pouco mais. Entendi num relance tudo que ele me dizia de sua mulher (como se nós outras também não fôssemos suas mulheres). Ela era uma vítima. Se o prendia, ou tentava, como um cão de guarda, era por todas as inseguranças que carregava sem se dar conta. As inseguranças que todas nós aprendemos a arrastar como grilhões, para que nossas almas de bruxas jamais viessem à tona. Eu precisava mostrar a Estela como se quebravam correntes.
Me lembrei de quantas vezes a tinha odiado e invejado e desejado estar em seu lugar. E me deu uma alegria imensa em descobrir que não havia meios de estar no lugar de Estela, que dela era a pior parte. E, no entanto, era a ela que ele mais amava.
Não podia dizer isso ali, na frente de Marion. A Paula não precisava, por sua expressão, vi que pensava o mesmo. Por um breve segundo experimentei a sensação de ser duas, eu e Paula, Paula e eu, duas e no entanto uma. Balancei a cabeça e a vertigem passou.

Estela chorava, claro. Mas não era o choro convulso do desespero. Também não havia ódio no modo como tinha os ombros caídos. Apenas mágoa e... conformismo?
– Quero ir embora – ela choramingou. – Minha filha... não pode ficar só...
– Escreva um bilhete pra ele – disse Paula. – Invente que teve de viajar às pressas, diga que explica tudo na volta... Fale pra ele cuidar da menina.
– Nunca! – Estela ergueu a cabeça, vi seu corpo esticar-se como o de uma leoa. – Vocês são loucas! Não acredito em nada do que estão dizendo. 
– Já falaram tudo? – indaguei às outras duas e elas assentiram.
– Vocês vão para a cadeia – continuou Estela. – Me soltem antes que seja tarde.
Paula olhava sem dizer nada. Então inclinou-se de repente, enlaçou Estela pelos ombros e a puxou, obrigando-a a deitar a cabeça em seu ombro. Começou a sussurrar em seu ouvido, tão baixinho que não pude escutar. Estela soluçou alto mas não se afastou. Marion escorregou do sofá para o tapete, e deitou a cabeça nas pernas de Estela.
Não sei quanto tempo aquilo durou. Fiquei parada, imóvel, olhando a cena, sentindo como se uma onda de calor começasse a envolver aquelas três mulheres lindas e depois viesse até mim, me lambendo os braços, as pernas, o corpo. Uma onda de ternura, medo, mágoa que dissipava, solidariedade. E desejo. O misterioso desejo que nos deixava exalando o perfume de fêmeas.
Paula, sem me olhar, me estendeu a mão. Eu entendi, e fui até elas.

Conseguimos penetrar na alma de Estela. Durou dois dias. Falamos e falamos e falamos. E agimos. Parecíamos tomadas, possuídas, enlouquecidas. O plano tinha de dar certo. Nós todas o amávamos demais para que aquilo não fosse em frente. Nós queríamos. E nosso querer tornou-se o querer de Estela.

No terceiro dia as ex-primeiras apareceram. Nós as deixamos a sós com Estela, e fomos, Paula, Marion e eu, passear no shopping e fazer as compras para o grande momento. Me diverti muito com as escolhas de Marion, fiquei fascinada com a criatividade de Paula, quase arranquei os cabelos com as listas das duas Marias. À noite, exaustas e felizes, voltamos a casa.
Uma das Marias cozinhava, a outra descascava legumes, e Estela?
No banho, me disseram. Estava tudo bem, ela começara a pensar em detalhes. 

Resolvemos que Estela voltaria para casa antes do previsto. Primeiro porque ele não podia desconfiar de nada. Segundo porque, mortas de saudades, queríamos liberá-lo dos serviços domésticos e do posto de babá da filha. Muito irônico. Era com a esposa em casa que ele ficava mais livre.

Ele veio me ver na manhã seguinte, a caminho do escritório. Chegou morto de saudade, me amou depressa, me inundou de alegria, tesão, riso, amor. Quando saiu, atrasado para uma reunião de negócios, não me contive e fui rezar. Fui agradecer aos céus por ter me dado um homem como ele e pedir para que conseguíssemos fazê-lo muito e muito feliz.

E então chegou o dia.
Combinamos que ele deveria vir às nove da manhã. 
Às sete em ponto todas nos encontramos na calçada. Subimos, nos aprontamos com longos banhos mornos, nossos perfumes e sedas e cetins, nossos saltos finíssimos e a maquiagem mais perfeita. 
Às oito e quinze encomendamos todos os cardápios e instruímos a cozinha sobre os horários de servir.
Às oito e meia Estela pegou o telefone e ligou para o celular dele. Chamou-o, inventando uma urgência qualquer, a que nem prestei atenção. Só sei que eu tremia quando ela falou o endereço e depois se virou para nós todas com um imenso sorriso no rosto.
A campainha tocou quando faltavam cinco minutos para as nove. 
Eu fui a escolhida para recebê-lo. Afinal, tinha sido a autora do plano.

– Feliz aniversário, meu bem – foi só o que consegui murmurar, com um nó na garganta. Quando o abracei, pude vislumbrar por entre as lágrimas sua surpresa, o susto, depois o entendimento chegando aos poucos e o sorriso se abrindo, se abrindo, enquanto as outras também vinham e começavam a acariciá-lo, a beijá-lo, a despi-lo, a torná-lo nosso rei, nosso homem, nosso macho, nosso dono. 

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Creusa
urublue

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Red Rooster 
Humphrey

Soninha apareceu para mim em tempos de boemia. Época de acadêmico. Passeava eu com desenvoltura pelas ruas Major Sertório, Rego Freitas, Marquês de Itu, Bento Freitas, Nestor Pestana, que formavam a então "Boca do Luxo" de São Paulo. Após o término das aulas (por vezes, antes mesmo), saía, junto com amigos de livros e uísque, para encontrar com outros amigos: putas, gigolôs, bicheiros, viados (é, viado... naquele tempo não tinha gay) e a malandragem. Ah, sim, a malandragem era chegada, não existia violência, era tudo na moral. O único crime permitido era o passional, porque em se tratando de paixão, tudo pode... 

Cada um de nós, acadêmicos, era conhecido por "doutor". Lembro que certa vez, alta madrugada, junto com conhecido líder estudantil que já foi e mais três putas, sentei em mesa do Bar Guanabara (av. São João com o Vale do Anhangabaú) e bêbados, redigimos os Estatutos do Sindicato das Profissionais do Amor do Estado de São Paulo.

Minha casa de eleição era o "Red Rooster", na rua Bento Freitas. E foi lá, entre amigos e citações de Emílio de Menezes e Paula Ney, que conheci Soninha. Soninha Toda Pura... como no filme...

Soninha me viu, certa madrugada, quando subi em uma cadeira e para tristeza de Vinicius, comecei a declamar: ... Ah, jovens putas das tardes/ O que vos aconteceu/ para assim envenenardes/O pólen que Deus vos deu?

Soninha chegou a mim, sentou ao meu lado e timidamente disse: "Que bonito!"  Pegou em minha mão e fomos para um "HO" em frente. Nos amamos, trepamos e Soninha gozou. Depois desta noite e noite após noite, esperava Soninha atender ao último cliente para sair, jantar e trepar...

Quantas vezes ardi de ciúmes, ao vê-la saindo com um deles?
Quantas brigas briguei, ao senti-la ameaçada ou menosprezada?
Jurei amor, a pedi em casamento, bebi mais um litro...
Soninha bebia cuba-libre e gostava de Nelson Gonçalves...

Certa vez, após ter acertado a centena do tigre, na cabeça, cheio da grana, levei Soninha para o Grande Hotel em Campos de Jordão. Deslumbrada, Soninha se comportou como devia: como uma dama em público e – talvez para demonstrar carinho – mais puta do que nunca na cama.

Por outra vez, fomos presos. Fomos os precursores do "efeito Hugh Grant"... O Delegado, compreensivo, lembrou dos tempos dele e nos soltou, não sem antes dar uma reprimenda no guarda-civil pela sua falta de sensibilidade.

Fim de ano, fim de curso, fim de farra, virei "doutor". Comprei um urso de pelúcia cor-de-rosa para Soninha...
....... 
Hoje à noite, vou ao "Kilt".

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Putinha, minha vizinha
Lily Rowan

Miúda, magrinha, nem bonita nem feia, loura tingida, franja rala na testa. Mal se podia chamar de puta. Putinha. Morava na quitinete ao lado da minha, perto da Boca do Lixo, das boates decadentes da cidade, como o La Licorne, Galo Vermelho, Michel. Quietinha, mal cumprimentava. Mas de vez em quando batia na porta, pedia alguma coisa, umas colheres de pó de café, açúcar. Coisa de interiorana, como eu. Talvez por isso falasse comigo, sentisse alguma afinidade, vai lá saber... 

Eu contava da dureza que era fazer a faculdade, me virar sozinha sem a estrutura familiar, meio perdida nessa São Paulo, e ela me contava que tingia os cabelos de louro por causa dos japoneses. Dos japoneses? É que havia muitos deles nas boates, bebiam muito e gastavam bastante, mas exigiam as louras. Então virou loura, cada mês um tom diferente. De vez em quando relaxava e se viam as raízes escuras por sob todo aquele blonde. 

Aí passou a dividir a quitinete com o tal sujeito. Roupa de couro, óculos escuros, moto, tatuagem, parecia saído de um desfile dos Hell Angels. Bigode farto, cabelos negros, quase 2 metros de altura. Do tipo bonitão brega, bonitão lá pras negas dele. Ouvia musica alto e me entupia o apartamento com o cheiro da maconha. E gostava de bater, não em gente do tamanho dele, mas nela. 

Volta e meia ouvia a voz do cara se elevando, ruído de móveis arrastados, uma vez ouvi até o rolar de um bujão de gás. Ela apanhava calada, nunca gritava. Imaginava aquela magrelinha levando porrada, me angustiava demais. Nos dias seguintes podia vê-la se esgueirando pelo corredor, manchas escuras no rosto e nos braços, que a maquiagem mal escondia. Chamei-a algumas vezes, tentei falar, mas mandou que não me metesse, que a deixasse em paz. Deixei. Um dia desapareceram de lá sem nem adeus. 

Tinha já me esquecido de ambos quando, mais de ano e meio depois, passando à noitinha por uma dessas esquinas cheias de meninas seminuas, dou com os olhos nela. Mesmo jeito de sempre, magrinha, loura, com o uniforme tradicional – saia curtíssima, botinha, a franja caindo sobre a testa pequena. Impulsivamente, parei o carro a um metro dela, voltei a pé e perguntei  se lembrava de mim. Sei lá se esperava alguma cena comovente, quem sabe um abraço, lágrimas, mas ela apenas me olhou indiferente, lembrava sim, ainda morava lá? Morava, e ela, para onde fora que desaparecera? Ah, pintou cadeia, meu homem traficava e e a polícia chegou numa noitinha. Ficou presa uns tempos e soltaram, mas ele pegara pena de alguns anos. E agora tinha de dar duro para arrumar uma grana, porque só assim se tem algum conforto na cadeia, não é? Deve ser, mas por que não ficara nas boates, que pareciam lugar mais seguro? As marcas, sabe? Os japoneses não apreciavam as manchas e os sinais das surras, e acabou sendo mandada embora, o jeito foi encarar a rua. Depois da prisão, então, apenas lhe restara as esquinas menos “nobres”, a barra mais pesada, os clientes baratos. Dureza, mesmo, e dois a pensar. 

Espantei-me – jovem demais, mal conhecia a alma das mulheres, imagine a natureza das putas. Depois de tudo, ainda estava dando dinheiro pro sujeito, ainda o queria de volta? Pela primeira e única vez olhou-me bem nos olhos, os dela brilhando: por acaso não tinha sido eu a denunciá-lo, teria? Deus me livre, eu não! Desconfiada, tornou a me encarar, de um jeito meio mau, e botou ponto final na conversa. Tudo muito bem, mas tinha de trabalhar, e melhor eu ir andando que o lugar não era muito seguro para quem não é do ramo. 

Pensei em estender a mão, oferecer algum dinheiro, perguntar se tinha onde morar, mas se fosse dar nota para encorajamento, tomava zero. Dei um tchau desenxavido, saí devagar, me sentindo meio besta, meio irritada, meio sei lá. Antes de entrar no carro, ainda olhei para trás. Ela nem se dera ao trabalho de me acompanhar com os olhos, voltara à pose original, uma das mãos na cintura, um pé apoiado na parede. Frágil, loura, meio sexy, meio ridícula. 
Uma putinha. 

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