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Lily |
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| História de Lô e Lô | Peido Carlos |
| Vida fácil | Marilda |
| Sobre putas, domingos, viados e sanduíche | Thomas |
| Retrato da vida com retoques | red cat |
| Creusa | urublue |
| Red Rooster | Humphrey |
| Putinha, minha vizinha | Lily Rowan
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Apresentação No dia 10 de novembro de 1999, o tema da Sopa da Red foi "putas". Tantas e tão boas foram as opiniões e as histórias, que nasceu ali a idéia de sobre isso escrevermos textos: ficção, poesia, crônica, o que cada um decidisse. O resultado aqui está. As imagens foram roubadas de um site de fotografia de um artista famoso de Manhattan. Infelizmente perdi o site e o nome do cidadão. Quem souber pode me enviar que darei todos os devidos créditos. _____________red cat |
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Menina1
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Nos cantos do destino,
Devassidão menina
Olhos vidrilhos,
(Puxa, alusão dissoluta!
Ela sangra sem saber em minha
alma.
O halo da linguagem
Esquece a tua alma pequenina
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História de
Lô e Lô |
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| Chamava-se
Lourival e era quase pobre, quase burro e quase feio. Descobriu-o não
pelo exercício acerbo da autocrítica, mas pelo isolamento
em que sempre o puseram, na escola, no trabalho, na vizinhança.
Acrescia que era quase chato. O Banco pagava-lhe o estritamente necessário
para sobreviver, dividindo com a mãe o suburbano apartamento de
dois quartos. Sem namoradas, amigos, extravagâncias, noitadas, dava-se
entretanto o benefício semanal de ir às putas, à saída
do trabalho, porque na sua idade é imperioso aplacar as imposições
da carne. Freqüentava uma casa na Cidade Nova, perto do Banco, onde
o preço era módico e as meninas limpinhas.
Um dia, por razões quaisquer, foi com Siomara, que tantas vezes já vira na casa, sem que contudo o fado lha destinasse. Gostaram ambos, e muito, Alguma eletricidade, ou química, sobejou ao que de hábito é, e remanesceu no após. A contar de então, Lourival esperava, se Siomara estivesse ocupada, e, de fato, mais esperava, já que ela, sabendo caber-lhe Lourival a seguir, abluía-se mais demoradamente, com caprichosa diligência, não fosse ele encontrar em seu corpo dejeto ou traço do cliente anterior. Houve portanto que a relação comercial privilegiada demudou em afeição, e daí em carinho, e ele deu de rasgar a alma depois de cada orgasmo, e ela o ouvia em simpatia a sorriso. E também ela lhe disse coisas de sua vida, de como viera menina de Feira de Santana, e que não se chamava Siomara de verdade, mas Lourença, o que, naturalmente, rimava com Lourival, e que assim são as peças que o destino prega, e riam como crianças, às vezes às gargalhadas, e se deixavam estar até a caftina bater à porta e anunciar “Tem freguês!”, não por má índole, que até simpatizava com os dois, mas porque aquilo era um local de trabalho, não de prazer. Tratavam-se então por Lô e Lô, ele o depositário do inefável, o nome secreto, insabido, de Siomara, chave evidente da intimidade dela. E se faltasse uma semana, era admoestado, que a falta de dinheiro não escusava a ausência e — pronto! — eliminava-se a pecúnia, e que ele viesse sempre de graça, mas não deixasse de vir. Assim passou a ser, e nem ocorreu a Lourival que a moça tirava do que era seu para pingar, a cada visita dele, o óbolo indispensável da caftina, que orçava por quase a metade da féria frustrada. Lourença, não obstante, alegrava-se em fazê-lo. No dia em que se finou a mãe de Lourival, ela soube pelo jornal e foi ao Cemitério do Caju fazer-lhe companhia na solidão do velório noturno. Esteve com ele até a chegada do primeiro visitador da manhã, retirou-se discretamente, Lourival retornou ao pequeno apartamento com uma cisma, que remoeu e digeriu pelos três dias de nojo que o Banco lhe concedeu por força da legislação trabalhista. O que lhe obsedava o espírito era esta singela conjectura: se não é amor, é indistinguível do amor. No retorno ao trabalho, contou os minutos até o fim do expediente, e foi ter com Lourença. Nesse dia, a blandícia habitual da moça pareceu extravasar em mimos e afetos de um candor perdido no tempo, convertidos ambos em adolescentes que se querem como só adolescentes se querem. Espírito ao cabo apascentado, seguro, determinado, Lourival olhou-a nos olhos e disse "Lô, eu quero que você largue essa vida, e venha viver comigo, na minha casa”, mas ela respondeu “Quero não”. |
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Vida fácil |
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| Quando o assunto em pauta foram as mulheres de vida fácil, Neide, funcionaria pública e careta de carteirinha, olhou pra amiga e disse: Vida fácil?? Tá bom! Sou apaixonada pelo meu marido, ele é lindo, cheiroso e gostoso e tem dias que se ele encostar em mim eu mato!! Imagine essas coitadas, tendo que ir com quem aparecer... Vida fácil é a nossa!! | |
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Sobre putas, domingos,
viados e sanduíche |
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| "Meu doutorzinho
bebeu um bocado, hem? Não tem importância, vamos subir, eu
ajudo... Ah, gosto quando ocê vem, meu doutorzinho..."
(A tela branca desafia: escreva sobre putas... sobre uma puta... Suspendo a respiração, fecho os olhos, o mergulho poderá ser doloroso.) "Aposto que não comeu nadinha, né mesmo? Ocê está magrinho... Gastou tudo só com bebida? Tem que comer também, meu doutorzinho. Que escada difícil, hem? Pronto, vamos entrar, a Martinha vai cuidar d’ocê... Saio do prédio do DA da Escola, merda de hora dançante, isto é só pra quem tem dinheiro e carro, merda de domingo, domingo à noite é sempre merda mesmo, a vida da gente - toda ela - é uma merda de domingo à noite...Uma coisa que não consigo compreender: a turma parece gostar disso... Parecem alegres, todos eles... Mas aproveitando o quê? Música ruim, sempre as mesmas caras, o papo-furado... perverso... Hoje ficaram contando os viados da turma que chegavam no DA... Merda... Cuba libre de merda, estou tonto... e duro...Gastei toda a grana? Não... guardei cinco mangos, tenho certeza... Onde enfiei a merda do dinheiro?... "Deixa eu ajudar, deita aí, eu puxo as calças... Nada de apagar agora, viu?... Tem que comer, meu doutorzinho, não pode ficar apenas bebendo, não, aposto que está com fome, né? Ih, ih, essas cuecas novas parecem calcinhas..." Cinco mangos... Vou a pé pra casa... quase uma da madruga... Os merdas, riquinhos, todos de carro, eu aqui na sola do pé, no dedão... Por que não dei o fora mais cedo, porra? "Ocê tem aula amanhã cedo, né? Vai ficar cansado, doutorzinho...Venha cá... o estômago tá ruim? Ah, não vá me aprontar sujeira, por que será que sempre vem aqui neste estado? Vem cá, vem cá, doutorzinho, tenho uma coisa gostosa aqui pr’ocê... deixa eu te ajudar a entrar em mim... a te abrigar..." Este parque escuro me dá medo, tudo me dá medo, diacho, eu não deveria ter virado aquele último cuba-libre... Foda-se o mundo, foda-se o medo... contavam os viados, que merda. Até o J... porra, quem poderia imaginar? Sempre rodeado de meninas, o karmanguia, capota elevada, vazando meninas e, agora essa: viado!... Cinco mangos... o preço da Martinha, ela deve estar lá, na Inhaúma...Vou pra zona, tenho que ir... "Ih, ih... ocê gozou muito rápido, doutorzinho, tá cansado, né? Já está apagando, coitadinho..." Sim, lá está ela... Parece que sempre está aqui... Ela é legal, não dá medo, não passa doença... Pronto, já me sorriu... Deixa eu conferir o bolso: cinco mangos, diacho, dane-se o DA, a turma, os viados, esse domingo de merda... "Vou dar uma saidinha, volto logo, fique descansando, meu doutorzinho..." Que lugar mais sórdido, merda. O que estou fazendo aqui? Como uma criatura consegue viver sempre no escuro? Que espécie de merda de vida ela leva? Diacho, conto tudo pra ela... E o que sei dela? Porra nenhuma... Foda-se, quem se importa? Puta é puta, ela parece gostar disso, gosto que ela me acaricie os cabelos, que não me beije... Ela é apertadinha, como faz? Será que a xoxota chupeta é, na verdade, a mão dela? E o otário aqui nem percebe? Foda-se, foda-se, ahahah, dei a minha trepada... o pessoal contando os viados... Que contem viados, foda-se... Onde será que ela foi?... "Ei, acorde, doutorzinho, olha o que eu lhe trouxe... Vamos, acorde, coma enquanto está quentinho..." Sanduíche gostoso, nunca comi um igual, nossa, eu estava com fome mesmo. De pernil, quentinho... Onde será que ela arrumou isso? Num desses botecos imundos da zona, de onde mais, seu besta? Você está morto, seu doutorzinho de merda, morto...Mas que delícia, que delícia... "Melhor ocê dormir mais um pouco, eu te acordo cedo, amanhã tem aula, né? Gosto de estudantes, gosto d’ocê, muito... Mas tem que comer, viu? O meu doutorzinho tá muito magrinho... Agora, pode dormir... O Sol brilha a manhã da segunda-feira, subo a Inhaúma, passos rápidos, fantasmas dissipando-se, minha nossa, tenho que chegar em casa, tomar um banho, aula às oito, estou ferrado, que loucura, dormi na zona...Ah, até sonhei, sonhei com sanduíche... De pernil... Não faço mais isso, nunca mais volto aqui, merda, o que é isso no meu bolso? Merda, ela não cobrou, não cobrou... Merda... ah, foda-se pra ela... (A tela não está mais branca, penso na Martinha, onde estará ela agora?... Estará viva? Ora, que diferença faz? Isto não preencherá o vazio da minhas noites de domingo...) |
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Retrato da vida com
retoques |
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| Foi naquela
manhã em que dormi demais.
Quando acordei, ele já havia ido. Fiquei me revirando na cama, queimando de desejo, me recriminando pelo cansaço. Na noite anterior tínhamos nos amado feito loucos, com fome e paixão e tesão. Depois, eu me aninhara entre suas pernas, a boca envolvendo seu sexo esgotado, e assim tinha adormecido, sentindo o morno contato de seus dedos em meus cabelos, num raro instante de ternura em meio à explosão que sempre era nosso encontro. Quando abri os olhos de novo, a esplendorosa manhã entrava pela janela, iluminando os lençóis amarfanhados e a avassaladora ausência de meu homem. Ele já tinha partido. Fiquei ali, nua, com preguiça de me mexer, apenas pensando. E foi assim que tive a idéia. Fiz as contas rapidamente. Duas semanas. Seria tempo suficiente? E, principalmente, eu conseguiria convencê-las? Comecei a rir sozinha à medida que ia planejando cada detalhe. Eu o amava tanto, tanto... Por isso era capaz de ir em frente. Era capaz de me reformular, abandonar velhos e inúteis hábitos, refazer emoções e me tornar melhor. Eu sabia que ele me queria melhor. Pulei da cama, tomei um longo
banho quente, me arrumei, mas sem exageros. A missão era difícil
e eu conhecia bem as mulheres. Era preciso superar a primeira etapa, a
intrínseca rivalidade com a qual nascemos.
Paula era linda, tinha cabelos
escuros e lisos, olhos meio puxados, negros, um ar misterioso que devia
enlouquecer os homens. O corpo já havia sido mais bonito, mas ainda
era generoso e acolhedor. Tentei vê-la com os olhos dele, e me surpreendi
sentindo um arrepio. Paula era uma mulher para ser abraçada, apertada,
mordida, para levar qualquer homem a perder-se em seus seios fartos e nas
coxas roliças que a minissaia mal escondia.
Eu a avistei de longe, andando
nervosa em frente a uma vitrine. Os cabelos castanhos estavam presos num
rabo-de-cavalo, ela usava jeans e tênis. Seu ar angustiado me deu
pena e quase desisti. Mas então me lembrei do que ele me contava,
de como gostava de trepar com aquela menina, e fui em frente. Já
era tempo de transformar Sabrina em Messalina, disse comigo, um pouco cínica.
Levamos uma semana para conseguir
a adesão das duas primeiras. Não eram mais tão apaixonadas
por ele, cada uma delas tinha seguido um rumo na vida, tinham os filhos
(dele) para cuidar. Mas ainda adoravam trepar com ele. Morriam de saudade.
Mas nunca tinham imaginado algo assim. Não eram disso. Não,
nem pensar.
Na manhã seguinte
nos encontramos as cinco. Chegara o momento da mais difícil das
reuniões, em que teríamos de superar nossos ciúmes,
nossos olhares avaliadores de uma para a outra e decidir como abordar a
esposa. A atual. A primeira-dama. Estela. Sabíamos como ela controlava
a vida dele. Sabíamos das dribladas que ele precisava inventar para
encontrar-se com cada uma de nós.
Depois de horas de conversa
não tínhamos ainda traçado uma estratégia para
cooptar Estela. Até que Paula, lançando os cabelos negros
para trás, exclamou:
Não vai dar certo,
pensei comigo na manhã seguinte, ao mais uma vez acordar sozinha.
Ele tinha vindo de madrugada, e talvez pela excitação da
surpresa que lhe preparava, talvez porque sentia mesmo muito sua falta,
eu havia me entregue com mais ardor que de costume. Tive dois orgasmos
seguidos enquanto ele me penetrava sussurrando em meu ouvido que eu era
a sua putinha, a sua fêmea, que ele queria fazer uma filha em mim.
Era sempre o que me dizia, que queria fazer uma filha em mim. Nunca um
filho. E eu morria de prazer em seus braços. Dormi enlaçada,
segurando-lhe o sexo, sonhando em fazê-lo sempre mais e mais feliz.
Quando acordei tinha apenas seu cheiro em minha pele e as marcas de seu
amor no corpo. E pensei imediatamente em Estela e quase desisti de tudo.
Nem quis ouvir detalhes pelo
telefone. Me vesti em cinco minutos e voei para a casa de Paula.
Estela chorava, claro. Mas
não era o choro convulso do desespero. Também não
havia ódio no modo como tinha os ombros caídos. Apenas mágoa
e... conformismo?
Conseguimos penetrar na alma de Estela. Durou dois dias. Falamos e falamos e falamos. E agimos. Parecíamos tomadas, possuídas, enlouquecidas. O plano tinha de dar certo. Nós todas o amávamos demais para que aquilo não fosse em frente. Nós queríamos. E nosso querer tornou-se o querer de Estela. No terceiro dia as ex-primeiras
apareceram. Nós as deixamos a sós com Estela, e fomos, Paula,
Marion e eu, passear no shopping e fazer as compras para o grande momento.
Me diverti muito com as escolhas de Marion, fiquei fascinada com a criatividade
de Paula, quase arranquei os cabelos com as listas das duas Marias. À
noite, exaustas e felizes, voltamos a casa.
Resolvemos que Estela voltaria para casa antes do previsto. Primeiro porque ele não podia desconfiar de nada. Segundo porque, mortas de saudades, queríamos liberá-lo dos serviços domésticos e do posto de babá da filha. Muito irônico. Era com a esposa em casa que ele ficava mais livre. Ele veio me ver na manhã seguinte, a caminho do escritório. Chegou morto de saudade, me amou depressa, me inundou de alegria, tesão, riso, amor. Quando saiu, atrasado para uma reunião de negócios, não me contive e fui rezar. Fui agradecer aos céus por ter me dado um homem como ele e pedir para que conseguíssemos fazê-lo muito e muito feliz. E então chegou o dia.
– Feliz aniversário, meu bem – foi só o que consegui murmurar, com um nó na garganta. Quando o abracei, pude vislumbrar por entre as lágrimas sua surpresa, o susto, depois o entendimento chegando aos poucos e o sorriso se abrindo, se abrindo, enquanto as outras também vinham e começavam a acariciá-lo, a beijá-lo, a despi-lo, a torná-lo nosso rei, nosso homem, nosso macho, nosso dono. |
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Creusa |
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Red Rooster |
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| Soninha
apareceu para mim em tempos de boemia. Época de acadêmico.
Passeava eu com desenvoltura pelas ruas Major Sertório, Rego Freitas,
Marquês de Itu, Bento Freitas, Nestor Pestana, que formavam a então
"Boca do Luxo" de São Paulo. Após o término das aulas
(por vezes, antes mesmo), saía, junto com amigos de livros e uísque,
para encontrar com outros amigos: putas, gigolôs, bicheiros, viados
(é, viado... naquele tempo não tinha gay) e a malandragem.
Ah, sim, a malandragem era chegada, não existia violência,
era tudo na moral. O único crime permitido era o passional, porque
em se tratando de paixão, tudo pode...
Cada um de nós, acadêmicos, era conhecido por "doutor". Lembro que certa vez, alta madrugada, junto com conhecido líder estudantil que já foi e mais três putas, sentei em mesa do Bar Guanabara (av. São João com o Vale do Anhangabaú) e bêbados, redigimos os Estatutos do Sindicato das Profissionais do Amor do Estado de São Paulo. Minha casa de eleição era o "Red Rooster", na rua Bento Freitas. E foi lá, entre amigos e citações de Emílio de Menezes e Paula Ney, que conheci Soninha. Soninha Toda Pura... como no filme... Soninha me viu, certa madrugada, quando subi em uma cadeira e para tristeza de Vinicius, comecei a declamar: ... Ah, jovens putas das tardes/ O que vos aconteceu/ para assim envenenardes/O pólen que Deus vos deu? Soninha chegou a mim, sentou ao meu lado e timidamente disse: "Que bonito!" Pegou em minha mão e fomos para um "HO" em frente. Nos amamos, trepamos e Soninha gozou. Depois desta noite e noite após noite, esperava Soninha atender ao último cliente para sair, jantar e trepar... Quantas vezes ardi de ciúmes,
ao vê-la saindo com um deles?
Certa vez, após ter acertado a centena do tigre, na cabeça, cheio da grana, levei Soninha para o Grande Hotel em Campos de Jordão. Deslumbrada, Soninha se comportou como devia: como uma dama em público e – talvez para demonstrar carinho – mais puta do que nunca na cama. Por outra vez, fomos presos. Fomos os precursores do "efeito Hugh Grant"... O Delegado, compreensivo, lembrou dos tempos dele e nos soltou, não sem antes dar uma reprimenda no guarda-civil pela sua falta de sensibilidade. Fim de ano, fim de curso,
fim de farra, virei "doutor". Comprei um urso de pelúcia cor-de-rosa
para Soninha...
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Putinha, minha vizinha |
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| Miúda,
magrinha, nem bonita nem feia, loura tingida, franja rala na testa. Mal
se podia chamar de puta. Putinha. Morava na quitinete ao lado da minha,
perto da Boca do Lixo, das boates decadentes da cidade, como o La Licorne,
Galo Vermelho, Michel. Quietinha, mal cumprimentava. Mas de vez em quando
batia na porta, pedia alguma coisa, umas colheres de pó de café,
açúcar. Coisa de interiorana, como eu. Talvez por isso falasse
comigo, sentisse alguma afinidade, vai lá saber...
Eu contava da dureza que era fazer a faculdade, me virar sozinha sem a estrutura familiar, meio perdida nessa São Paulo, e ela me contava que tingia os cabelos de louro por causa dos japoneses. Dos japoneses? É que havia muitos deles nas boates, bebiam muito e gastavam bastante, mas exigiam as louras. Então virou loura, cada mês um tom diferente. De vez em quando relaxava e se viam as raízes escuras por sob todo aquele blonde. Aí passou a dividir a quitinete com o tal sujeito. Roupa de couro, óculos escuros, moto, tatuagem, parecia saído de um desfile dos Hell Angels. Bigode farto, cabelos negros, quase 2 metros de altura. Do tipo bonitão brega, bonitão lá pras negas dele. Ouvia musica alto e me entupia o apartamento com o cheiro da maconha. E gostava de bater, não em gente do tamanho dele, mas nela. Volta e meia ouvia a voz do cara se elevando, ruído de móveis arrastados, uma vez ouvi até o rolar de um bujão de gás. Ela apanhava calada, nunca gritava. Imaginava aquela magrelinha levando porrada, me angustiava demais. Nos dias seguintes podia vê-la se esgueirando pelo corredor, manchas escuras no rosto e nos braços, que a maquiagem mal escondia. Chamei-a algumas vezes, tentei falar, mas mandou que não me metesse, que a deixasse em paz. Deixei. Um dia desapareceram de lá sem nem adeus. Tinha já me esquecido de ambos quando, mais de ano e meio depois, passando à noitinha por uma dessas esquinas cheias de meninas seminuas, dou com os olhos nela. Mesmo jeito de sempre, magrinha, loura, com o uniforme tradicional – saia curtíssima, botinha, a franja caindo sobre a testa pequena. Impulsivamente, parei o carro a um metro dela, voltei a pé e perguntei se lembrava de mim. Sei lá se esperava alguma cena comovente, quem sabe um abraço, lágrimas, mas ela apenas me olhou indiferente, lembrava sim, ainda morava lá? Morava, e ela, para onde fora que desaparecera? Ah, pintou cadeia, meu homem traficava e e a polícia chegou numa noitinha. Ficou presa uns tempos e soltaram, mas ele pegara pena de alguns anos. E agora tinha de dar duro para arrumar uma grana, porque só assim se tem algum conforto na cadeia, não é? Deve ser, mas por que não ficara nas boates, que pareciam lugar mais seguro? As marcas, sabe? Os japoneses não apreciavam as manchas e os sinais das surras, e acabou sendo mandada embora, o jeito foi encarar a rua. Depois da prisão, então, apenas lhe restara as esquinas menos “nobres”, a barra mais pesada, os clientes baratos. Dureza, mesmo, e dois a pensar. Espantei-me – jovem demais, mal conhecia a alma das mulheres, imagine a natureza das putas. Depois de tudo, ainda estava dando dinheiro pro sujeito, ainda o queria de volta? Pela primeira e única vez olhou-me bem nos olhos, os dela brilhando: por acaso não tinha sido eu a denunciá-lo, teria? Deus me livre, eu não! Desconfiada, tornou a me encarar, de um jeito meio mau, e botou ponto final na conversa. Tudo muito bem, mas tinha de trabalhar, e melhor eu ir andando que o lugar não era muito seguro para quem não é do ramo. Pensei em estender a mão,
oferecer algum dinheiro, perguntar se tinha onde morar, mas se fosse dar
nota para encorajamento, tomava zero. Dei um tchau desenxavido, saí
devagar, me sentindo meio besta, meio irritada, meio sei lá. Antes
de entrar no carro, ainda olhei para trás. Ela nem se dera ao trabalho
de me acompanhar com os olhos, voltara à pose original, uma das
mãos na cintura, um pé apoiado na parede. Frágil,
loura, meio sexy, meio ridícula.
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