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táxi, deslizando no cedo amanhecer de ruas molhadas pelas pancadas
de chuvas desabadas ao longo da madrugada, levava um passageiro apreensivo
e ensimesmado, rumo a um sofisticado exame denominado Ressonância
Magnética Nuclear, nome nada poético, convenha-se. A manhã,
nublada e cinzenta, parecia dissolver-se em si própria, acentuando
a solidão e a tristeza do mundo. Havia, por mera precaução,
tomado uma dose dupla do analgésico, pois soubera que o exame, em
que pese não ser desses que picam ou beliscam, era assaz desconfortável.
E sabia disso por conta de um obséquio do tempo, pois esse tempo
espichado e vazio do mundo horizontal nos permite conhecer coisas que jamais
imaginaríamos ou desejaríamos, pois não despertam
curiosidade nas pessoas normais, essas felizardas que nunca estão
conscientes do prazer que existe na inexistência da dor. Pois trata-se, esse exame de ressonância,
se quisermos explicá-lo de modo prosaico, de um excelente método
de imagem de ótima resolução para diversas partes
do corpo, incluindo-se aí a minha coluna, que poderia ser vista
em minúcias: a medula espinhal, o espaço subaracnóideo
e anatomia vertebral... O livro que consultei entrava em detalhes um tanto
cansativos, dizendo que a ressonância magnética nuclear ocorre
quando átomos de hidrogênio, ou certos outros elementos, são
colocados num campo magnético intenso, os núcleos atômicos,
comportando-se como pequenos imãs alinham-se e depois de estimulados
por um pulso de energia de radiofreqïência, deixam bruscamente
o eixo, giram em base e finalmente emitem um pequeno sinal quando retornam
ao alinhamento original. Um computador, poderoso, capta todo esse banzé
atômico e o transforma em imagens a serem apreciadas pelos Behrens
da vida... Isso, toda essa tecnologia combinava
com a feiúra daquele dia frio. No carro, porém, pensava em
coisa diversa, mais especificamente relacionada com aquele assunto em que
andava metido, a respeito do processo de criação artística.
Tentava assim, admito, tão-somente me desanuviar... Já sabia que o mister de criar
exige solidão, o interior mais íntimo, um bastidor aparentemente
insondável onde a contemplação do pequenino, do aparentemente
insignificante pode mostrar grandeza e significado. Mas afinal, no artista,
como se desencadeia o processo germinal da criação? Que tipo
de pulso energético, que espécie de campo magnético
podem produzir uma dança de átomos e partículas subatômicas
cujo resultado final será devidamente processado pelo computador
cerebral e, em seu tempo, expressado como música, pintura ou poesia?
Palavra de honra, não faço a mínima idéia e
nisto me encontro muito bem acompanhado, pois certa vez, uma poetisa de
gênio me afirmou categoricamente: a criação poética
é um mistério insondável que, provavelmente, nunca
será desvendado. A Arte: enigma ou milagre? Ambos, talvez. O motorista, gentil , ajudou-me a
descer do carro e piedoso, acompanhou-me, tutelando-me, até o interior
do prédio (onde, dentro em pouco, partículas, infinitamente
minúsculas, corretamente magnetizadas, criariam a imagem mais próxima
do real, dos danos porventura existentes em minha coluna lombar), entregando-me
aos cuidados de uma secretária sorridente. Sorridente e com um enorme
questionário nas mãos. – Por favor, responda a essas perguntas. Tinha de tudo ali, naquele papel
imprenso: doenças de maneira geral, alergias de todas as espécies,
idiossincrasias, medicações em uso, depressão e ansiedade
– passado ou presente de episódios de pânicos e fobias, o
medo de aviões em destaque exemplar, mas, principalmente, percebi
a insistência predominante: queriam saber se sentia medo de entrar
em cavernas, túneis, buracos, fossos, cisternas... (Como se sentiu José, ao ser
lançado na cisterna?, perguntou-me um pensamento impertinente.) Deveria confessar sobre o ópio
que corria em minhas veias? Com o intuito de não apenas evitar ou
aplacar a dor, mas tomado também com o propósito de roubar
tempo do tempo do exame. De
diminuí-lo... Não, decidi. Melhor, não. Questionário devidamente respondido,
fui, em seguida, encaminhado a um vestiário, deram-me um camisolão
cinza-asséptico, envolto num plástico e pediram-me que tirasse,
além de todas as roupas, todos os metais do corpo, anéis,
alianças, próteses mecânicas ou dentárias porventura
existentes e... essa não! Que tirasse também os meus óculos... – Sem eles sou cego! – reclamei,
do alto de minha miopia. Pois sem os meus óculos, sou
um desesperado. – Cuidarei pessoalmente de colocá-lo
em você tão logo termine o exame, prometo-lhe, viu?... Venha,
vou acompanhá-lo à sala de exames, não se reocupe,
tudo correrá bem... A delicadeza do tom da voz surpreendeu-me
sobremaneira, soprando quase toda a apreensão que me devorava, que
fazia o meu coração agitar-se em marteladas fortes. Olhei-a,
como um encantado, ainda mais que era uma linda mocinha, tinha o sol no
semblante, como um anjo. Queria olhá-la mais demoradamente, mas
tinha que lhe entregar os óculos, seu sorriso e sua mão estendida
pediam as minhas grossas lentes emolduradas por metal, um metal que certamente
seria nefasto ao exame, às resoluções magnéticas,
enfim, tornar-se-ia um imã a mais e indesejável na dança
programada pelo computador... Pelo braço, levou-me até
o interior de uma sala, esta mais parecida com algum laboratório
para astronautas, fria, sem alma. Sob suas ordens, firmes e delicadas,
deitei-me, ela me ajeitou da melhor maneira que podia, queria me dar um
conforto que ali não poderia existir. Antes de se retirar deu-me
explicações tranqüilizadoras e me deixou com uma engenhoca
de borracha nas mãos, dizendo: "Aperte somente se achar necessário,
é um alarme... Mas lembre-se: vai se sentir sozinho, o que poderá
trazer alguma aflição. É natural, mas procure não
se mexer, pois isso poderá prolongar o exame, que tem de ser bem
feito... Feche os olhos e fique bem consigo mesmo, isto ajuda o tempo a
passar... E sabe? De certa forma, tenha sempre em mente que se trata apenas
de um exame, que logo terminará, viu? E que estarei com você...
Até daqui a pouco..." Sua mão, antes que ela saísse,
pousou suavemente sobre a minha e senti, no leve aperto recebido, toda
a solidariedade do mundo... Porta fechada, como a velha tampa
toda verde de musgo cobrindo o fosso profundo onde se encontrava José,
tapando a sua boca como a sombra a lua morta... Encontrava-me agora no túnel, isolado do mundo, imobilizado dentro de uma cápsula espacial estreita, entregue à própria sorte, flutuando no espaço, sem nenhum contato exterior com o Universo. Como uma estrela apagada, isenta
de luz, mergulhando no abismo cósmico... "Feche os olhos e procure ficar bem
consigo mesmo", sussurrara-me o anjo. Foi o que fiz, com a ajuda do ópio. Um homem que dorme, ensina-nos Proust,
mantém em círculo em torno de si o fio das horas. Isto é
verdade, mas não vale para o homem que dorme sob o efeito do ópio,
pois nem acho que podemos dizer que este homem dorme inteiramente, dado
ao surgimento, quase que imperceptível, de sonho na vigília,
de sonho vivo, com as cores muito espessas e reluzentes, tais como as cores
daquele belo campo florido em que me encontrava... Sonhava? Sentia-me admiravelmente bem, naquele
prado de papoulas coberto por um céu magnífico de um azul
espalhado e com o ar ressoando perfumes, chilreios de pássaros e
som de vozes. De onde vinham estas? Ah!, Mas isto é um encanto! Um grupo de mulheres, acomodadas
sobre o relvado, teciam guirlandas de flores e ramagens, enquanto riam
e brincavam entre si. Uma jovem mulher, uma adolescente, era o alvo de
brincadeiras das mais velhas e deixava-se adornar com os arranjos, experimentando
um a um sobre a cabeça, emoldurando com as flores os seus cabelos
cacheados, abundantes – uma cabeleira de um dourado furtivo, levemente
avermelhado, quando assim tão próxima daquelas papoulas respingadas
pela relva... Era uma cena de graça e de delícia, um quadro
resplandecido de cintilâncias, vida e cores... A menina então avistou-me.
Ergueu-se, segurando um arranjo florido que tinha no colo e veio em minha
direção, sorrindo. Fiquei fascinado enquanto ela se aproximava,
graciosa, com a guirlanda florida nas mãos, destinada, compreendi,
à minha cabeça. Sorri, encantado, deixei-me coroar.
"Você é luz... Você é Luiz...", disse, como me
abençoando... Fitei-lhe os olhos, olhos de um azul-esverdeado,
como o furta-cor do agrião ao sol e das pradarias sem fim... Um
olhar com a cor de sonho ondulando como a relva no prado. –
Não sou Luiz, sou Tho... Seu dedinho selou-me os lábios. – Você é Luiz, é
luz... E será que Luiz poderá me alcançar?... E saiu correndo, rindo, voltando-me
uma vez o belo rosto juvenil, a fim de certificar-se se eu participaria
do folguedo. Irresistível. Luiz, encantado,
pôs-se em seu encalço, também ria, a brisa soprava-lhe
a música da felicidade, o ar delicioso perfumava de flores o seu
ser e o azul pairava em toda parte mirada pelos olhos, que bem-aventurança!
Ela não se deixava pegar, parecia uma corçinha ágil,
que ria das dificuldades de Luiz em correr pelo prado; escondia-se atrás
de um árvore e, quando ele se aproximava, ela dizia "Não
estou aqui, não estou aqui, viu?..." e já fugia, mesclando
sua silhueta bela e jovial àquela natureza em profusão... Finalmente, vencida pelo cansaço,
ela deitou-se sobre a relva. Luiz aproximou-se, ela, faces muito rosadas,
arfava e sorria..."Não me pegou... eu parei..." Ele ajoelhou-se, os olhos cravados
nos dela, de cor de sonho, inclinou-se até poder tocá-la
no rosto. "Você é linda...", murmurou. Queria beijá-la. Sorrindo, ela tirou do próprio
arranjo de flores um raminho, colocando-o nos cabelos de Luiz. "Não
te esqueças de mim...", balbuciou. E fechou os olhos para o beijo
pedido... O azul do mundo, como num feitiço,
misturou-se no beijo dos namorados... Abri os olhos, encontrava-se dentro
do túnel, um matraquear, certamente pulsões de radiofreqüência,
bombardeavam a minha coluna, buscando ressonância e destas, imagens
de alta resolução. Havia dormido? Quanto tempo? Estaria,
o exame, apenas começando, ou findava? A gente não tem nada
que esperar largar a sua Dor aí pelo caminho... Pois não
é ponto pacífico que não podemos matá-la? Isto
aí, de Céline, autor poderoso e maldito, não veio
à mente apenas porque o desconforto da minha posição
imobilizada já afetava a minha coluna, mas principalmente devido
a aquele matraquear surdo da máquina de ressonância agindo
em meu dorso lombar. Por que aquele som parecia ser um fundo de música,
martelado no vácuo sem notas, feito para mim, o vácuo da
morte. Os pensamentos, os meus, não
se ordenavam. Por instantes de irrealidade, pretendi me mexer, queria saber
se fora deixado algum raminho preso em meus cabelos... Que idiotice! A
vida porém é isso, um fiapo de luz que termina na noite.
Ela, a noite, pega tudo, somos esvaziados por ela. Por que não podemos
nos encontrar enquanto estamos na vida. Há cores demais que nos
distraem e gente demais que se mexe ao redor. Só nos encontramos
no escuro silêncio de nossa noite, tutelados pela Morte. Céline
continuava... Eu tivera a primeira parte do sonho
de Hans Castorp com os filhos do sol, com todas as cores pungentes da Natureza
e da vida. Agora, no entanto, os três batidos que precediam sempre
o matraquear subseqüente do túnel anunciavam como o bater do
címbalo na Nona Sinfonia, uma mudança de rumo, de sonho. Deveria cumprir a segunda parte da
façanha onírica e sonhar com aquele estranho cemitério
de impressionante edificação, caminhar por ele, até
abrir a porta brônzea do santuário maldito e me estarrecer
com a medonha visão do banquete horrendo das bruxas, devorando os
pedaços uma criancinha esquartejada sobre uma bacia de sangue. Apertei os olhos, tentei manter a
respiração regular, mas não era obedecido. Durma, Thomas, durma, acabe com isso, durma... Parece que não cheguei a dormir,
no sentido próprio da palavra. Pois ecoavam nos meus ouvidos o metralhar
da máquina que trabalhava em meu corpo. Encontrava-me agora num campo deserto,
devastado, sem nenhum movimento, sem o mais leve sinal de vida. Uma sombra
solitária poderia deslizar entre o vazio, o quieto, o silêncio
daquela paragem, vagando em busca de uma companhia, um único ruído,
qualquer coisa, um sopro, um mísero ondular, no entanto, o impossível,
pois isso lhe seria negado por toda a eternidade. Eu era essa sombra, e encontrava-me
nos campos da Morte. E Ela me disse: – A Morte, Thomas, não é tão-somente o pano de fundo da vida. Nem a vida é um fiapo de luz que termina na noite. Este fiapinho encontra-se, início e fim, no seio da noite. A Morte é a potência que rege e dirige o princípio, o curto durar e o fim da vida, deste fiapinho insignificante, percebe? Está presente antes e depois da vida – vida que já nasce morta, selada pelo seu signo poderoso. Tens indagado, em vão, de onde surge o espírito criador, onde ele se encontra nos homens, não é mesmo? Por que ficas aí, pateticamente, a gastar o pedacinho de tempo que te foi concedido pela Morte, a buscar esta resposta nas leituras do que foi escrito por outros filhos da Morte, não te dando ao trabalho de encontrar a verdade com o teu próprio conhecimento, a verdade que sempre se encontrou dentro de ti, e que somente tu podes desvelar? Por que buscas deuses e demônios, tratos, milagres, pactos e outras bobagens para falsificar a tua compreensão? Pois agora te encontras neste teu bastidor, que há muito procuravas, e que, muito mais breve do que pensas, será a tua única moradia. Observe, a Minha Casa em ti: aqui não há vontade; e precede o instinto primitivo, ou qualquer dessas belas e eloqüentes palavras tão bem e astuciosamente postas por escritores e filósofos. Veja, sinta, ouça ao teu redor: nada, absolutamente nada. Nem escritores, nem poetas, nem música, nada! Podes sentir a intensidade deste deserto? Do vazio? Percebes?... Então, prestes atenção a esta pergunta que é a um só tempo a resposta que vens buscando: o que poderás fazer neste ermo absoluto, senão criar?... |
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