Feito a partir de uma simples visita a casa de Lynn e Ignácio, risadas chacoalhantes de Asta ao telefone e acompanhamento de Mariana de corpo, alma e gargalhadas presentes. Esse povo ri por cada coisa!

Sábado. Madrugada. OITO da madrugada! E isso é hora de cristão acordar, Deus meu? Nem nessa, nem em outra vida. Só mesmo encarnando na Mari para ver se ela já acordou.

– Acordada, Mari?

– Quem, eu?

– Não, Odila. Tô dormindo. Quê se acha, mulher? Já tô pronta te esperando.

– Tá. Já passo aí. Se a gente chegar atrasada a Lynn mata a gente.

Fui tomar banho. Café. Suco. Não atrasei. Só cheguei depois da hora.

Teté, minha filha, prepara a bolsa azul pra gente viajar.

– Meu sapato! Meu sapato? Quem roubou meu sapato?

– Aqui, mãe. Coloquei bem no seu pé.

– É que não olhei pra baixo.

– RRRRRRRRRR... mãe! Você me dá uma raiva – diz Teté apertando as duas mãos fechadas de encontro as têmporas... Já achou?

– Claro. Zéca já chegou?

Filho pós-adolescente é fogo. Nunca chega na hora. Também, com quatro namoradas, quem agüenta hora?

- Zéca, é pela estrada do aeroporto?

E Zéca "o atento" de ruas, sinais e estradas, que conseguiu se perder dentro do Simba Safari disse:

– É sim.

Tudo acertado, byes e tchaus, beijos e indo para Mari. Mari chega, entra. Normal, legal.

– Vamos?

– Ué, tá esperando o quê?

Mari também é bem folgada quando responde. Fomos. Onde eu fui? Por ali. Ali, ó. Direto em frente... para a Dutra.

E, naquele calorão, as duas conversando, contei à Mari que minha tia Madali mora em Guaratinguetá e tia Odilita em Limeira, por isso que ir para Piracicaba, pra mim, era moleza.

– Fiz porta a porta, de Piracicaba em casa, São Paulo, Vila Mariana, em hora e meia.

Entramos na estrada, eram quase onze ou coisa que o valha, mas o ponteiro andava perto do onze, logo... quase onze. Andamos... pé fundo. Chumbado, pá lascado. Nunca a menos de cem. Conversa indo e vindo, as duas rindo muito, janela aberta, tempo passando. Puxa, pensei... e eu que achei que era pertinho...

– Mari, que horas são?

– Uma e oito.

– É? Que engraçado.

Por que a estrada não chegava naquela hora de andar, andar e nunca chegar? De onde tem tanta gente? E por que já passamos de hora e meia, o tempo necessário para chegar lá e nada?

– Mari, olha só que estranho. A estrada de Piracicaba está indicando Aparecida do Norte. Mari. MARI. MA-RI... O que a tia Odilíta está fazendo na tia Madalí?

– Tá louca, Odila? Mais louca?

– É sim. Guaratinguetá está em Limeira.

– E cadê Limeira, criatura?

– É mesmo, Mari. Será que a gente errou de estrada?

– E eu não estava perguntando isso para a senhora lá atrás, quando estava rindo e correndo feito louca?

– Eu não corro feito louca, Mari. O que a gente faz agora? Tem que voltar?

– E depois me chama de Pedro Bó... – Mari suspira, levanta os ombros, e cai numa gargalhada. – Vamos sim, tem que voltar. Mas tira o pé, ô pé de chumbo, senão a gente perde o retorno.

O retorno passou rápido demais, mas ainda assim, deu para a gente pegar, meia-volta na Dutra, e corre pegar Trabalhadores de novo. Nome besta pra estrada. Trabalhadores. Devia ser Descansadores.

– Até onde a gente volta, Mari? Campinas?

– Campinas! É perto de lá. Liga e pergunta pro seu pai.

Celular? Atende, cai. Atende... fora de área.

– Odila, Odila Odiiiiiiiila... Olha, a entrada. Caampinaaasss. ODILA, diminui.

– Diminui o quê, Mari?

– Cento e vinte... cento e vinte e cinco... cento e trinta... Odila, você sabe o valor da multa? Odila, aqui tá cheio de radar... passou. Odila...

Nós passamos tranqüilas pelo posto rodoviário. Tranqüila eu, não a Mari, que vinha contando quilometragem como quem reza ladainha.

– ODILA!

Grito súbito de Mariana. Vi o guarda fazendo sinal para encostar à direita. O guarda também estava no meio da estrada... depois a Mari vem com essa história que quase atropelei o homem. Mentira. Só estava, bem assim... um tanto quanto meio rapidinha, mas nada que passasse dos cento e vinte. Abri o vidro e esperei, mesmo sendo minha vontade já ir falando.. tá certo, seu guarda o que eu fiz errado dessa vez? Me calei e fiquei esperando.

– Boa tarde...

Pois é, já tinha passado da uma.

– Boa tarde.

– A senhora tem os documentos do carro?

– Claro. Mari, vê aí os meus documentos no porta-nota cor de vinho que vou ver aqui, os do carro.

– O carro é da senhora?

– Claro.

– A senhora estava correndo um pouco, a senhora viu?

– Hum, hum.

– Sabe quanto?

Nem cara de muito espanto eu fiz, porque ele falou em seguida... Cento e sessenta... aí espantei mesmo.

– Bem, sabe o que é? Eu estava indo para Piracicaba e errei a estrada. estava indo pela Dutra.

Pobre e infeliz guarda. A cara do homem nem de incredulidade era, pelo fato, que de tão idiota, fez o homem estender a idiotice a mim também. Ele segurou a risada como pôde. Galhardamente, devo dizer. Só apertou bem os olhos, depois a boca e quase entre os dentes disse maneando a cabeça para os dois lados... "pode ir". E nem me multou. Não é que fosse da minha vontade ser multada, mas foi um golpe no meu amor próprio. Primeira vez que vou a cento e sessenta e o homem quase morre de rir de mim? Só porque eu tinha errado a estrada? Vamos indo.

– Mari, a gente vai para Piracicaba.

– Sorocaba?

– Até você, Mari? Piracicaba. Já te disse que sei ir, só errei a estrada. Também ninguém me disse onde era.

– A Lynn não falou?

– Bem, ela falou sim. Disse direitinho como fazia.

– E onde está? – pergunta Mari, já abrindo a bolsa e procurando qualquer anotação.

– No icq.

– ONDE???

– Oras, no icq, onde mais você acha que poderia estar se ela está sem e-mail?

– Odila, suaa... – procurar palavra, procurar palavra... – Não vou te xingar... você não copiou?

– Pra quê? Eu sei ir a Piracicaba.

Não que isso interesse a alguém, mas a Mari disse que era bom avisar. Se vocês forem a Piracicaba, não peguem a Dutra. Lynn até me soletrou, mas a verdade é que a Trabalhadores de Piracicaba se chama Bandeirantes. Quatro horas é um tempo muito grande para se fazer hora e meia e isso é um fato que eu comprovei. E tenho também que dizer que 445 km não são os 160 de Piracicaba–São Paulo. Esse tantinho a mais só acontece quando a gente erra um pouquinho o caminho. E a Asta, que teve um acesso de riso no telefone quando falava comigo, também não sei por quê, me disse para falar a quilometragem final. Não que isso seja importante também, mas fizemos 626,7 km no sábado.

Outra coisa, será que alguém poderia me explicar o que o irmão da Mari quis dizer quando falou que preciso usar rastreador quando viajar? Que gente. Até parece que nunca se enganaram de estrada... E foi tudo culpa da Lynn. Ela disse que Piracicaba era do lado do rio. Só não disse de que Rio. Estava indo no mês errado. Estamos em outubro e não em janeiro.

 

ODILA© 23.10.00 A.D.
Colaboraram: Mariana, Lynn, Asta



Maria Odila

Odeio biografias.
GRRRRRRRRRRRRRR....
 
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