Pequenina, chegou ao morro no colo da avó.

Uma avó ainda moça, aborrecida com a dádiva da filha, ainda criança deixada numa instituição. A desculpa dada era de que precisava trabalhar, mas o fato é que bebia e embora fosse dona de uma capacidade e força bruta para o trabalho pesado, vivia perdendo empregos. Não gostava de trabalhar em casa de família, gostava do trabalho em fábricas onde a movimentação era grande, havia barulho, e gozava da liberdade do fim do dia. Não se sentia escrava, era livre. Tão livre que nos fins de semana gastava o salário nos bares. Nem sempre tinha sido assim. Antes, na roça onde nascera e morara, ser livre para ela, depois do trabalho estafante no campo, era rolar no mato com os moços, fazer como faziam os animais, sem pejo, como a natureza queria. Foi assim que nasceu a filha, sem certeza de paternidade. Quando a fome rondou os campos secos, migraram para a cidade grande, onde a liberdade do ir e vir era sinônimo de sofrer violências. Foi por isso que o juiz mandou colocar a filha na instituição. Meninas e meninos dividiam o espaço. Foi ótimo, ali a menina teria boa educação, comida e estaria ao abrigo das maldades! Ledo engano, um dia, depois de poucos anos, foi chamada para saber se queria a neta, uma criança linda! O corpo ainda infantil da filha não agüentara o parto e pai não existia. Quando ia recusar, ficou sabendo que seu companheiro gostaria de ficar com a criança. Não teve escolha, afinal conseguira uma vida estável, possuía um barraco no alto do morro, um companheiro mais moço que providenciava o necessário para ela viver e ainda por luxo possuía um ímpeto amoroso sem igual. Dele ela se sentia escrava, nem mesmo importando as ausências costumeiras. Chegava sem avisar, na calada da noite, acompanhado por amigos fortemente armados.

Foi ali que a meninazinha cresceu, sem muita atenção dos adultos, levando surras tremendas quando a avó bebia e o homem não estava perto. De tanto apanhar acostumou-se a ficar calada num mutismo defensivo, mas sua observação dos fatos foi ficando cada vez mais apurada. Percebeu que só pessoas com muita experiência e senso de direção conseguiam chegar ao seu barraco no mais alto do morro. O emaranhado das vielas da favela dificultava o acesso e o temeroso silêncio de seus vizinhos não indicava o caminho. Suas pernas infantis sofriam com a subida, mas quando entrava no barraco, o mundo se transformava, ficava todo aberto para uma quantidade enorme de pontinhos reluzentes. Um dia , num desses em que o padrinho ficava em casa, perguntou o nome dos pontinhos reluzentes.

Chamam-se estrelas.

Depois desse dia ela ficou sendo chamada de Estrelita. Gostava do nome, principalmente quando era pronunciado com sotaque na fala de seu padrinho.

Estrelita, um pouco mais tarde do que as outras crianças, foi para a escola. Chegava em casa já noite, tão cansada da subida, que mal tinha tempo de despedir-se das estrelas e já estava dormindo. Com o tempo tinha adquirido o hábito de contar para elas tudo o que acontecia. Com a avó tinha medo de falar. As estrelas tornaram-se sua família, suas confidentes. Um dia, na escola, perguntou como nasciam as estrelas assim tão juntinhas . Ela as amava tanto e por saber que seu nascimento tinha sido, como a avó contava, um horror, imaginou que as coisa amadas nascessem diferente. Espantada com a pergunta, a professora tentou explicar mostrando um livro com a figura de uma explosão cósmica e ainda mais que “nós somos poeira de estrelas”. Então era assim que nasciam as estrelas? É disso que somos feitos? Se era assim só podia ser bonito! Desde esse dia o belo, para ela, passou a ter uma dimensão de esplendor como só devia possuir o amor.

Cresceu, as transformações no seu corpo arrancavam os botões das blusas, deixavam as roupas apertadas. Sentia o corpo como as estrelas, explodindo.

Foi quando coisas estranhas começaram a acontecer. Chegaram pacotes carregados por homens armados; o barraco, bem maior agora e de alvenaria, ficou entulhado de mantimentos, principalmente comida em lata, conservas e garrafões com água. Sua avó mostrou-se contente com tantas misteriosas idas e vindas na calada da noite. Sabia que a volta do companheiro logo seria realidade e a ansiedade a fazia beber mais, tristezas e alegrias eram desculpas para o seu vício. Pela quantidade das provisões previa uma longa permanência do amante.

Num dia, na hora em que as estrelas eram substituídas pelo sol, Estrelita acordou sentindo o olhar do padrinho passeando por seu corpo. Fazia algum tempo que ele não a via e só então notou como crescera, ficara linda! O tempo foi passando, a inércia da situação deixava o padrinho nervoso, sem ocupação. Começou a brigar com mais freqüência com a companheira, o que a levava a recorrer ainda mais à bebida. Não tinha perigo dessa faltar, o estoque era grande como grande era a quantidade de alimentos e de uns pacotes, todos escondidos, alguns terminantemente proibidos de serem tocados. Os amigos de sempre haviam sumido.

Numa noite em que Estrelita conversava com suas estrelas, o padrinho colocou-a no colo, começando a acariciá-la. Ela não se mexeu, não deixou de falar com os pontinhos reluzentes até que sentiu as explosões. Não sabia se eram em seu corpo, se vinham de algum lugar do morro lá embaixo ou ainda de bem perto. Sentiu o corpo próximo ao seu estremecer, inundar-se em sangue e sem mais, cair no chão. Antes de esconder-se, viu a avó ébria sendo arrastada por homens fardados, aqueles de quem no morro tinham medo. Depois de vasculharem todo o barraco sem encontrar nada, os policiais levaram o corpo inerte do homem. Mas Estrelita estava a salvo fechada no esconderijo construído tempos atrás e no qual ela sabia entrar, conhecia seu segredo.

Era uma pequena fortaleza fincada numa depressão da rocha onde terminava a parte habitável do morro. Possuía um quarto mobiliado, um depósito com muitas prateleiras para guardar coisas, pequeno banheiro e minúscula cozinha abastecidos de água por uma cisterna que captava a água das chuvas caídas nas rochas, essas sim, terminando o morro. De um lado do esconderijo ficava a passagem secreta e do outro uma janela de onde só se enxergava o céu e por onde o sol entrava. Do lado de fora havia a queda brusca de um penhasco. De nenhum ponto a pequena fortaleza podia ser vista. Ali Estrelita ficou sozinha com suas estrelas. No princípio ouviu muito barulho do outro lado, depois o silêncio chegou. Passado o susto tentou sair mas alguma coisa impedia a passagem. Não pôde fazer nada, estava presa. Só o sol, a lua e as estrelas a visitavam. Colocou a cama numa posição onde de dia tomava banho de sol e de noite de estrelas. Nos primeiros meses enjoou muito, quase não comeu, depois comeu de tudo: doces, bolachas, frutas secas, tomou sopa, bebeu refresco feito de pó colorido, bebeu leite, foi abrindo todas as latas e as conservas. Os únicos sinais de sua vida eram as latas vazias e as sobras jogadas abismo abaixo, indo cair do outro lado da subida do morro. Não tocou nas bebidas, tinha medo delas. Sentindo que engordava, começou a vestir as roupas de homem deixadas ali, elas a agasalhavam se fazia frio. O tempo era um suceder de dias e noites de solidão apavorante, mas havia as estrelas com quem conversar e de tanto só falar com elas começou a imaginar que uma delas é que se mexia em seu ventre crescido.

Numa noite sem estrelas seu corpo foi rasgado pelo fogo que emanava da estrela que carregava dentro de si. Sentindo que a dor aumentava pediu ajuda aos riscos luminosos que via rasgarem o céu lá fora. Num instante as estrelas reapareceram, foram se aproximando da janela. E o milagre aconteceu! Da dor vinda de dentro de seu corpo surgiu sua roliça estrela de brilho avermelhado, ensangüentada, escorregadia, começando a berrar e a debater-se. Ensandecida, Estrelita não titubeou , aquela estrela não iria ficar ali, melhor era ir juntar-se às outras.

Jogou-a pela janela em direção ao céu.

 

(1999 – Este conto foi selecionado e
não classificado num concurso da Fundart)
 

 


Cibeles S. L. Puglisi

Depois de olhar os homens, sublimo nas estrelas. É por isso que escrevo, gosto de perceber os comportamentos e deles extraio emoções. Foi o que aprendi do amor, nesses sessenta e oito anos em que ocupo meu lugar no espaço cósmico. Graduação e Licenciatura em Filosofia conquistei aos sessenta anos, tenho três netas, um neto e três filhos. Para eles e para meus alunos deixo de herança o desejo da liberdade que vem da cultura como meta de vida. É só.

cibelese@iconet.com.br