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Corações ao ponto |
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Seria duro o coração de Luciano? Que
gosto teria o coração de Luciano? Dormi pensando nisso, na textura
musculosa da carne, em sua cor de sangue venoso, imaginando um odor
entre agridoce e urético. Melhor, não dormi. Fiquei ouvindo a voz de
minha amiga Monica Waldvogel, de quem bem conheço o coração
delicado, enunciar aquela notícia espantosa, sem o esgar que deve ter
contido em nome do profissionalismo televisivo: um dos presos mortos
durante a rebelião da véspera em Ribeirão Preto teve seu coração
arrancado, assado em churrasco e comido com pinga, dentro da unidade.
Os mortos, Carlos Alberto Almeida, o Neto, e Luciano Rodrigues de
Souza, o Teta, opunham-se ao PCC, Primeiro Comando da Capital. Faziam
parte de grupos rivais. Teixeira era do CRBC (Comando Revolucionário
Brasileiro da Criminalidade). Luciano, da CDL, Comissão Democrática
de Liberdade. Estas siglas e estes nomes fortes abriram por um segundo
uma gaveta fechada de minha memória. Por um segundo, misturaram-se a
outras: PCBR, VPR, ALN... Não, fechei rapidamente a gaveta, eu estava
misturando o sagrado e o profano, uma coisa não tinha nada a ver com
a outra. Volto a ouvir a voz de Monica: os detentos tiveram ainda suas
cabeças decapitadas e uma delas ficou exposta dentro da penitenciária,
enfiada numa espécie de estilete longo... A cabeça me traz um trecho
de poema de Dantas Motta, poeta mineiro que só há pouco tempo me foi
apresentado, por Sergio Miranda, contando a saga do corpo morto de
Tiradentes ao longo da Estrada Real que ligava o Rio a Vila Rica. As
partes salgadas foram sendo deixadas nos povoados mais habitados, e
por fim chegou a Vila Rica a cabeça já cobiçada pelos vermes, para
ser exposta no centro da vila, no alto de um mastro. Exemplo a todos
que ousassem afrontar a real autoridade de sua Alteza, dona Maria I,
de Portugal. Mais uma vez deliro, uma cabeça não tem nada a ver com
a outra. Esqueço a voz de Mônica, recordo um trecho da matéria que
li num jornal buscando aplacar meu espanto: o estado dos corpos era
assustador. Eles foram muito maltratados. Os olhos foram arrancados e
as mãos decepadas... Afasto a imagem dolorosa das mãos sem vida
jogadas a um canto, penso num cão faminto de olhos azuis, e para não
pensar em mãos, imagino a fenda vazia dos olhos. Escura e vazia.
Busco outra lembrança. Há poucos dias, o professor Drauzio Varela,
este médico repórter que nos revelou o mundo escuro do Carandiru,
esteve conosco em Brasília. Na casa de Jorge Moreno ensinou mais
sobre a vida real a jornalistas que como eu cobrem os salões claros
do poder, as astúcias da política e seus golpes sem sangue (ainda
quando há crime). Há poucos dias, indo atestar mais uma morte no
Carandiru, disse ter ficado surpreso com a violência do crime, com o
corte fundo que ia da clavícula até à base da nuca, deixando
exposta a massa cefálica. Nunca vira aquilo antes. Um preso lhe
explicou: É a marca do PCC. Uma marca forte, que não contentou os líderes
do PCC em Ribeirão Preto. Quiseram ir além da morte e da marca,
precisaram comer o coração de Neto e Teta. Pergunto-me se estão
todos espantados como eu, buscando o sentido deste ato bárbaro que
deve ocultar uma metáfora. Os homens matam desde quando não eram
ainda homens. Continuaram matando depois que inventaram a linguagem
(ou a receberam de Deus), depois da destreza e da ruptura com a
Natureza, quando abriram a porta de outro reino, este mundo de códigos
e símbolos a que chamamos Cultura. Nesta fase, para impor-se como
senhor do mundo e da Natureza, precisou diferenciar-se dela, romper
com ela. Trocou os pêlos pela roupa, o cru pelo cozido, o incesto
sexual pela interdição de sangue, separou o céu da terra, o sagrado
do profano, a porta da casa do mundo lá de fora. Autorizou-se a comer
de tudo no paraíso, todas as carnes e frutos, inclusive a maçã.
Tudo, menos a carne do semelhante, exceto nas poucas culturas antropofágicas
que subsistiram na franja que separa a civilização da barbárie.
Hans Staden e outros dos primeiros descobridores dos povos das Américas
encontraram poucos grupos antropofágicos. E estes, a praticavam
ritualisticamente. Comiam o prisioneiro valente e forte para adquirir
suas virtudes, nunca apenas para matar a fome. A dos fracos, vis e
covardes era rejeitada. Os homens do PCC não comeram o coração de
Luciano e Carlos Alberto porque tivessem fome, o que os faria
inferiores aos ameríndios e africanos que buscavam a virtude na
carne. Nem buscavam, numa regressão inconsciente aos códigos
ancestrais, os valores morais dos rivais assassinados. Comeram o coração
assado e regado a pinga, num ritual de ódio primal. Penso em Deus.
Senhor, ainda que eles não soubessem o que faziam, não devem ser
perdoados. Eles nos dizem que não somos mais os mesmos, eles nos
expulsam da franja que resta do paraíso, eles nos tiram a roupa que
sobrou da Cultura, expõem a nudez obscena de nossa imoralidade
coletiva. Coletiva? Ah, sim, Drauzio Varela. "Nós os enfiamos
nos presídios como quem joga o detrito na fossa e por cima põe uma
tampa de concreto..." Nossa imoralidade coletiva... Penso nela no
dia seguinte, quando já não sai uma linha nos jornais sobre o
assunto. Pergunto a uns e outros, sim, todos viram, ouviram, leram,
ouviram falar. Acharam horrível, mas mudam de assunto, melhor não
falar mais nisso. E eu, que tinha pensado em escrever sobre ele numa
coluna de política também me esqueci... Senhor, perdoai-nos, embora
saibamos todos o que estamos fazendo... |
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Tereza Cruvinel é jornalista. Escreve a |