Xenofobia é uma coisa feia. Feia, incoerente com a boa educação, mas, principalmente, totalmente destoante para com os princípios da boa constituição cultural de um povo. Brasileiros, somos essa soma das três raças, no dizer dos livros de história. A sociologia, essa receita de bolo que mistura algumas ciências e, por isso, nem ciência é, chega perto de dimensionar as participações das culturas que deram origem à identidade do povo brasileiro.

Temos identidade? Temos, sim. Apesar da música axé, apesar dos fanques, temos identidade. Como uma carteirinha de documento, com fotografia, nome de pai e mãe, sinais particulares e impressão digital. Se a ciência continuar nesse pique e as pesquisas sobre o genoma humano chegarem a bom termo, em breve teremos apenas um código de barra tatuado no braço ou na bunda, depende da preferência do identificado. Ah, mas isso é identificação pessoal, e eu falava de identificação do povo.

Nosso rosto é vário, pode ser negro, moreno (em todas as suas variantes) ou claro; cabelos? Claro que, com as tinturas em promoção nas drogarias e lojas de departamentos, mais de noventa por cento das mulheres brasileiras têm cabelos loiros. Dentes? Alguns os temos sim; uns, muito raros, os temos naturais. Sinais particulares? O gosto pela cerveja, pelo futebol, pelas bundas femininas; sobre peitos, já houve uma preferência pelo natural, hoje o silicone está tão cotado quanto microcomputador de última geração (o homem nacional; a mulher, mais inteligentemente, tem preferência pela essência do indivíduo, não pela embalagem)...

Parei no posto para abastecer o velho Logus e tive que pagar três centavos a mais, por litro, sobre o preço da sangria anterior. A desculpa era o acidente com a plataforma P-36. Perguntei: Mas você tem certeza de que essa gasolina veio dela? Não tinha. Ora! Sou brasileiro, orgulhoso das minhas origens, nacionalista de carteirinha, ufanista dessas coisas que terminam em “brás”.

Sim, mas isso foi antes desse francês que o presidente FHC nos impôs. Esse mesmo francês sob cuja incompetência a Petrobrás começa a envergonhar o Brasil lá fora. Faz parte, a gente sabe: envergonha que o preço cai, aí os amigos dos ministros e assessores de dupla nacionalidade vêm comprar. Se não quiserem gastar suas “verdinhas”, o governo do Brasil, de postura de príncipe e ação de inimigo, empresta o do povo.

A P-36 vai para o fundo do mar, mas o francês não renuncia. Os jornais da Pátria dele deram hoje (ouvi no rádio) a notícia, tecendo críticas mil a nós, os brasileiros de sobrenome Petrobrás. A gente morre de vergonha, mas nenhum de nós vai às ruas, não é mesmo? Isso é coisa de comunistas, petistas, terroristas e outros militantes. Os ex-exilados, desde que no poder, agora são da direita e não assinam Petrobrás. Que pena!

 

 


Luiz de Aquino (Alves Neto)

Nascido normalmente – a não ser pelo dia e horário: um sábado de 1945, às oito da manhã – em Caldas Novas, Goiás. Criança, fugia do futebol de bola de meia no meio da rua, preferia ler gibis. Poeta e  contista pelo prazer do texto, jornalista pelas mesmas razões e porque há que se sobreviver. Autor de nove livros publicados e alguns em disquetes. Vive em Goiânia, entre prazeres e angústia, pois que o neoliberalismo globalizante não permite coisa melhor. Escreve crônicas todos os dias para o Diário da Manhã.

 
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