O assunto é de interesse. Interessa a todas as camadas de leitores do seu jornal. Da criança que está em contato com o computador – e elas têm mais contato que os adultos – ao velho aposentado. Da secretária que brinca no micro do patrão à entediada esposa de um grande empresário que "namora" nas ondas da cibernética. Da solitária intelectual da USP ao apenas alfabetizado motorista da ambulância do hospital universitário de Bauru (ambos se encontraram num almoço de internautas em São Paulo, em fevereiro).

O assunto é interessante. Interessante porque trata da nova forma de relacionamento entre as pessoas. Há uma tendência a privilegiar esta forma moderna e totalmente diferente de aproximação. A abordagem, na internet, é totalmente diferente. As pessoas não se vêem. Falam de si sem nunca antes terem se visto ou ouvido, o que por si só já é revolucionário. Há histórias de amigos que nunca se apresentaram pessoalmente, nunca trocaram uma foto, jamais falaram ao telefone, nem sabem os nomes um do do outro...

O assunto é proibido. As pessoas tratam da internet com certo constrangimento. Parece novela, que dá 70% no Ibope, mas ninguém assiste. Poucos admitem que acessam a internet para entrar nas salas de bate-papo, a não ser para discussão de assuntos específicos... Entrar nas salas de bate-papo é igual fumar maconha: ninguém confessa o vício, poucos admitem gostar, alguns fumam terapeuticamente, quase todos já experimentaram... Um encontro de internautas é um momento feliz, onde as pessoas se abraçam, se beijam, sorriem, sentem a presença da cumplicidade... Como é bom saber que os outros também fazem o que fazemos, especialmente quando o que fazemos é meio clandestino e, de certa forma, reprovado pela sociedade... Precisamos dessa cumplicidade, dessa solidariedade, para que não nos sintamos sozinhos nessa "posição transgressora"...

O assunto é polêmico. Há uma polêmica sobre a internet e suas salas de bate-papo. É comum você ouvir que fulano está viciado em internet, beltrana apaixonou-se e sofreu muito, sicrano foi vítima de uma mirtomaníaco (Marta Suplicy acaba de jogar no ouvido do povo uma palavra que era só do dicionário) ou que a gata foi iludida pelo rato. Ora, é óbvio que no mundo das salas de bate-papo há a tendência natural para a omissão ou a criação mentirosa. Ambas funcionam como mecanismo de defesa, até que as pessoas passem a se conhecer melhor, a confiarem umas nas outras, quando então começam a "abrir-se" mais... Claro que na internet, como em qualquer lugar, há pessoas que tem prazer em mentir ou de enganar... Aliás, quem nunca mentiu, que atire a primeira pedra...

Você me pede opinião sobre uma matéria de comportamento a respeito desse tipo de relação. Sabe, mulher, que tenho dificuldade em opinar. Faz exatamente 20 anos que não entro em uma redação de jornal, na condição de repórter, redator ou editor (até diagramador já fui, isso no tempo que nem cola pritt existia e o fotolito era a grande inovação tecnológica da indústria gráfica).

Mas posso opinar como leitor e internauta contumaz. Nessa condição – ou "enquanto leitor e internauta", como diria a senadora Heloísa Helena para gostosas risadas de Freitas Neto (aliás, você já imaginou como é o céu com as estridentes gargalhadas de Freitas Neto? Pois é, quem diria, mais um comunista fazendo o céu ficar mais alegre... Sim, mais um, pois lugar de comunista não é no inferno; o inferno é dos ladrões, corruptos, torturadores e outros safados)... Nessa condição, então, gostaria muito de ver uma série de reportagens. Quem sabe uma grande matéria dividida em quatro ou cinco páginas, uma a cada domingo? Em cada um – e todos - desses domingos você poderia discutir tecnicamente o comportamento; poderia entrevistar psicólogos, psiquiatras, sociólogos, professores de língua portuguesa; tomar depoimentos de internautas felizes e frustrados; prestar serviços, informando sobre os sites que oferecem as mais procuradas salas de bate-papo, estas as mais variadas: por idade, por região, por cidade, por preferência sexual, por assuntos específicos... Enfim, há muito o que se escrever sobre isso...

A minha experiência? Essa eu guardo a sete chaves. Vou guardá-la pro meu livrinho. Quem sabe um romance sobre os romances na internet? Hein?

Beijos de amigo porque te quero amiga... (aliás, onde mesmo que amigo beija amiga?)

Luiz Carlos

 


Luiz Carlos Schroeder

Brasileiro nascido em Toledo (PR) há 43 anos. Foi advogado de trabalhadores e, depois, Juiz do Trabalho no Paraná. Desistiu do Direito e está aposentado. Atualmente, refugiado em Maringá, na região de Visconde de Mauá (RJ) - entre rios, montanhas e cachoeiras -, escreve e navega..."

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