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Somente a distância dos corpos:

dois mundos
calados e atentos
girando, girando lentos
e incertos,
mas girando, por certo,
sem saber em que direção...
Quem pode saber?
Quem pode dizer
da solidão
de que é feita a distância,
da expectante dissonância
dos corpos consonantes,
da proximidade de dois mundos
tão distantes?

(28.04.84)


CANSAÇO

Atravesso a galeria
com passos ligeiros, distraídos,
a bolsa me pesando no ombro
como todos os segundos já vividos...

o farol vermelho fere minha vista
e me paralisa na calçada da Paulista...
fico entre parênteses, tão cansada
e ausente da avenida
quanto de mim e da vida...

as pessoas que me cercam
se põem a andar
e eu as imito,
deixando-me tragar
por mais um dia infinito...

(28.10.85)

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Tarde chuvosa de sábado,
o cinza do céu se misturando
ao concerto de Brahms...

e eu te escreveria
uma poesia de amor,
te diria do meu desejo
e de minha infinda ternura,

e eu me enrodilharia
em teu corpo,
te daria minhas mãos, meu sorriso,
e dormitaria...

mas teu sorriso
jaz na sombra, teu corpo é ausência,
teu gesto é transparência
e teus olhos são uma poesia
de adeus...

(16.08.86)

RALLENTANDO

Há em meu caminhar
uma lentidão de quem não quer ir,
ou não quer chegar...

Em verdade, não sei para onde vou,
nem aonde quero ir,
minha bússola quebrou,
mas, dos lugares onde estou,
meu desejo é partir...

Contudo só sei dos rumos
que não quero tomar
e talvez seja por isso
esse rallentar em meus passos,
essa lentidão de quem
só sabe aonde não quer ir
e, assim, prefere não chegar...
 

EXAUSTÃO

O cansaço flui por minhas veias
e se espelha em meus olhos...

arre! Viver cansa, exaure,
e o desgaste em minha pele
não é menor do que o na alma...

meu corpo sente sono...
quisera dormir,
dormir muito, o tempo todo,
quisera a mim esquecer,
quisera mesmo morrer,
mas não sei,
não há como ter certeza,
porque minha cabeça sonolenta
se recusa a refletir,
e tudo o que sou, neste único instante,
é um eterno cansaço...
 
 

SUFOCAMENTO

Momentos absurdos
que se arrastam
lentos, taciturnos,
indiferentes ao meu tédio,
aos meus pés inchados de calor,
ao suor que umedece meu corpo,
ao silêncio febril e angustiante
que aos poucos me ensurdece...

Minutos taciturnos
que, lentos, se arrastam
mudos, absurdos,
como se não soubessem
que a vida vive apenas 
na tarde ensolarada lá fora,
porque aqui dentro só há morte,
que a todos sufoca
e a tudo ensombrece...
 
 

FOTO DE PRAIA GRANDE

Sol descendo vermelho
na linha do ascendente,
areia dura, úmida, quente,
água do mar indo e voltando,
se esfregando em nossas pernas
enquanto íamos caminhando...

CALOR

Sol refletido nos olhos,
precisão de nudez no corpo,
vontade de água fresca
no calor da nudez...

Vento corre solto e quente:
pressentimento de chuva no ar,
no pretume das nuvens
que brincam de esconde-esconde
por entre os meus cabelos...

minha pele encalmada
ressequida anseia
pela aura da noite...
 
 

RITUAL DE INICIAÇÃO

Era menina, se queria mulher...
abriu o coração
para o amor do homem,
abriu os braços
para o abraço do homem,
abriu a boca
para o beijo do homem...

Tateando, adivinhando como ser mulher,
desnudou o seio
para a boca do homem,
descruzou as pernas
para a mão do homem
e suas mãos hesitantes vagaram
por entre as pernas do homem...

Ficaram nus e sós,
num abraço ondulado, espasmódico,
mãos correndo, parando, se encontrando,
tocando, pernas misturadas, palavras arquejadas,
movimentos convulsivos, beijos ao acaso, gemidos abafados,
língua, pés, mãos, braços, pernas, pêlos, cheiro, suor, sêmen...

e, no corpo do homem,
a menina se descobriu mulher...
 

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Sandra Couto é tradutora literária e, nas horas vagas,  gosta de brincar com prosa e poesia. 
Seu nickname é Isadora Angel.

e-mail: sandra_l@mandic.com.br

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