Nota do Caixote 

Um dia nasceu a idéia de escrevermos sobre a infância. Mais especificamente, sobre experiências eróticas na infância. Aqui estão os textos dos que atenderam o 
"convite para brincar".


 
 

abrir a porta e sair para o quintal


 












 

Menina

Marcos Fernandes
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Eu também já fui menina

Sylvia Manzano





















 

Eu vou contar para vocês como é que entrei na escola. 

Naquele tempo, não existia pré-escola como hoje e a gente tinha que esperar fazer sete anos para entrar no primeiro ano e começar a aprender a ler.

Eu era gêmea naquela época. Meu nome é Maria Silvia e o nome da minha irmã era Maria Cecília.

A minha irmã mais velha, que se chama Maria Dulce, dava aula no primeiro ano, numa escola particular, que ficava bem pertinho da nossa casa.

Pois bem, "as gêmeas" como eu e minha irmã éramos chamadas tinham apenas cinco anos de idade.

Íamos fazer seis anos no mês de abril, mas estávamos mortas de vontade de entrar na escola.

Assim sendo, nós duas íamos todos os dias para a escola, ficávamos sentadas na entrada, rabiscando o chão com umas pedras coloridas que existiam naquele tempo.

O diretor entrava e saía da escola e vendo "as gêmeas" sempre ali no mesmo lugar, um dia chamou minha irmã, a professora, e disse pra colocar a gente na classe como "ouvintes".

Quer dizer, não seríamos matriculadas pois ainda tínhamos cinco anos de idade, mas seríamos ouvintes.

Para nós foi a glória e passamos a freqüentar a escola.

Naquele tempo existiam umas carteiras duplas onde cabiam dois alunos e a minha irmã, a professora, costumava colocar um menino e uma menina sentando na mesma carteira, porque assim, dizia ela, a disciplina estaria assegurada.

A disciplina desde sempre estava assegurada, ela era uma excelente professora e a escola era "risonha e franca".

Eu não perdia aula por nada desse mundo.

Bom, o meu companheiro de carteira chamava-se Errol Ranciaro e nós nos dávamos muito bem.

Eu me lembro que tinha um caderno brochura com 50 páginas, que tinha o "Tom-Mix" na capa, que era um herói do far-west, que usava um laço e com ele laçava os "bandidos".

Eu e o Errol tínhamos uma brincadeira, que era uma espécie de competição e que consistia no seguinte: um escrevia o nome do outro no próprio caderno o maior número de vezes possível.

Eu me lembro de páginas e páginas inteiras onde eu escrevia Errol Ranciaro, Errol Ranciaro, Errol Ranciaro...

Já ele levava uma grande desvantagem, porque meu nome completo tem dois nomes e dois sobrenomes.

Nós morávamos numa casa que ficava a quatro quarteirões da praça principal e todas as tardes íamos tomar sorvete numa sorveteria que ficava na esquina da praça.

A relação que existe entre irmãos gêmeos é tão íntima, tão profunda e tão agradável, que só mesmo quem é gêmeo para entender do que é que eu estou falando.

Nossa vida era completa, a felicidade consistia nessas pequenas coisas diárias: ir para a escola de manhã e à tarde, pegar aquela rua reta e arborizada que nos levava até a sorveteria e ao sorvete de palito de chocolate.

Num dessas tardes, eu e a Cecília encontramos no caminho o Errol Ranciaro e a irmã dele, a Élide Ranciaro.

Ela logo foi fazendo a pergunta inevitável, a pergunta que todos faziam quando nos encontravam:

– De qual das duas você gosta mais?

O que vocês pensam que eu achava que ele ia responder?

De mim, é claro.

Afinal, nós sentávamos na mesma carteira, éramos super, híper bons amigos, eu já nutria uma paixão secreta por ele e, é claro que não tinha nenhuma dúvida da resposta dele.

Portanto, vocês não imaginam com que cara eu fiquei, quando ele respondeu:

– Das duas.

Das duas? Mas como? Das duas? Igualzinho? E a nossa amizade? E a nossa cumplicidade? E aquelas páginas e páginas de Errol Ranciaro que escrevi no meu caderno, que tinha o Tom Mix na capa?

Foi a minha primeira desilusão amorosa, pior que isso, foi a primeira injustiça que sofri e pior que tudo isso, a minha irmã gêmea, a minha querida irmã gêmea, de repente se transformou na minha rival.

Para que o conflito fosse instalado, foi um passo.

Vocês sabem o que é um conflito?

Um conflito é assim: é quando a gente fica dividido, uma parte vai para um lado, a outra parte vai para o lado oposto.

Você não sabe mais o que quer, você não sabe sequer quem você é.

Como eu podia odiar a irmã que eu mais amava?

Nosso relacionamento era perfeito, nossa vida tão tranqüila, nossa felicidade tão completa...

E, no entanto, nuvens negras começaram a desenhar figuras sinistras naquele céu tão azul...

Os carneirinhos brancos de nuvens até então existentes se transformaram em dragões soltando fogo pelas ventas!

É claro que não percebi tudo isso naquele instante.

Naquele instante eu não lembro o que foi que senti, mas se não tivesse sido tão terrível, se eu não tivesse percebido aos seis anos de idade que a desilusão existe, que a injustiça existe e que o conflito existe e dói pra valer, talvez eu não tivesse me tornado uma escritora.

Acho que foi por isso que virei escritora: porque tenho memória e porque aprendi a botar a boca no trombone.

Dizer o que penso e o que sinto em alto e bom som e aprender que a tristeza e a alegria não devem ser muito levadas a sério.

O que a gente deve mesmo levar a sério é que a gente está aqui neste mundo para aprender e, sobretudo, para aprender a ser feliz!


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Alta escola

Wael de Oliveira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

"Quer aprender a dirigir?" 

A pergunta do tio ressoava, hoje, no convite à ficção literária.

Magrelinha (até hoje as pernas finas), cidade quente, a mãe a fazia usar vestidos rendados e rodados, na exibição de sua menina. Filha única, mimada e protegida, na quentura da cidade conheceu o calor da carne como tantas outras: do lado de dentro das grades de proteção.

Criançada no carro, noite, ela no colo do tio. "Cuidado! Vira à direita, agora à esquerda. Reto, agora."

E reto não era só o caminho. De repente, o colo do tio foi ficando diferente. Quente, duro, cardíaco. Ereto.

Havia alguma coisa diferente, ali. A mão, discreta, puxava a parte de trás do vestido e a ajeitava no colo. Coração batia rápido, não sabia por quê. Mas era bom e não queria o fim do caminho.

A cidade, cheia de lombadas contra a velocidade, trabalhava a seu favor. Pequenos socos, leves arremetidas contra suas pernas. E a voz do tio, suave, suava em seu ouvido, perguntando se estava gostando.

Se estava gozando... a pergunta não feita.

Muito novinha, não teria entendido. Gostaria de poder responder, hoje. Mas não havia mais quem ouvisse. Ouvidos moucos, mortos. Talvez fosse por isso que nunca respondia a essa pergunta. Apenas em seu corpo a resposta exibida sem palavras. Não mais menina.

Da aula de direção ficou o rumo do sexo e o gosto de dirigir. Motorista hábil, intimorata, enamorada pelo volante.

E pelos valentes, na direção de seu corpo em altas rotações por minuto.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Infância

Sílvia Moreira
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Não me lembro de estória muito engraçadinha da minha infância, mas tenho uma do meu filhote. Aos 6 anos ele começou a brincar de médico com a vizinha. Certa vez entrei no meu quarto e lá estava ele inspecionando a menina, bem peladinhos os dois, ele abria e fechava os chamados grandes lábios dela, que de grandes não tinham nada.

– Mãe, fecha aí, tamos brincando de médico.

Estupefata, obedeci na hora e fui conversar com a mãe da paciente. Daí ficou a dúvida, não podemos deixar para não incentivar a sacanagem explícita, também não podemos proibir para não podar a sexualidade dos dois. Resolvemos então distraí-los chamando para tomar sorvete, os dois atenderam ao chamado prontamente.

Usamos esta tática durante um bom tempo, pois se não os encontrássemos logo certamente estavam debaixo da cama, na casinha de bonecas ou em algum outro canto inusitado praticando a tal medicina.

Depois pensamos melhor e vimos que estávamos criando um problema sério para os dois. Imaginem se quando os dois estivessem de fato fazendo sexo, entre si ou com outros parceiros teriam sempre que tomar sorvete ou um todyinho antes, de tão condicionados que tinham ficado.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

As hortênsias

Sérgio Wax
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Quatro da tarde, a rua sobe, cascalho cinzento, abrasado. O mar e o céu. Claros. A casa branca, esquadrada, as varandas, o pórtico. O jardim e os caminhos de pedras que se cruzam, regulares, as duas magnólias linheiras. Olhar em volta. O cachorro que deita na sombra. Modorra. Atrás do muro, o silêncio que continua, a vereda estreita, as amoras doces, galhos espinhosos. A pele retesada, quase em fios sutis, cumpridos, bolhas secas que amanhã se abrirão. Passo a boca no braço. O amargo do sal. O chuveiro no quintal, água morna nos canos, escorre pelo corpo, que alívio. A que hora disse que viria? Tenho tempo.

Talvez não. A moita das grandes hortênsias. No meio do jardim. Mais altas do que eu. Todas azuis. Menos uma, de uma cor vermelho-clara, bordas quase amarelando. Nem sei como deixaram crescer tanto. Dá para sentar no chão, bem no meio, imaginar uma cabana, um refúgio. Esconder-se. Que horas são? Ainda não? Aconchego. Ficar sozinhos. Ninguém poderá nos ver. Já vou para lá. Aguardarei seus olhos, seu riso.

Virá hoje? Mora na casa ao lado, vinte metros acima, não vai demorar. Nunca fui lá, nunca entrei no jardim dela, ninguém de nós passou por aquele portão verde. Espero aqui, sempre. Devi vir, sim. Desta cabana não posso espiar quando ela sai da porta de casa, vem descendo, passa entre os ciprestes e o pitósporo da cerca. Aparecerá na minha frente sem um barulho, olhará em volta, à minha procura. Chamarei. Ela virá correndo, parará de repente, antes de entrar...

Desenho seu rosto no chão seco. Como é seu nariz? E as mãos? Os olhos grandes, assim? De vez em quando ela ri, mas não conversa muito. Responde, às vezes. Ficar perto dela, falar baixinho, não fazer nada até – Disse que sim, que virá de tarde, ficará um pouco. Apago o desenho, está muito feio, não quero que o veja. Tenho outra surpresa para ela... Mostrarei, depois, aqui, na minha moita. Ah. O Júlio não estará. Ainda bem. Tem sempre novidades, ele. Quando o Júlio fala, e fala alto, ela ri, diferente. Não gosto deste primo. Não gosto quando ela ri. Bateria nele, se pudesse. Júlio. Mais alto e forte do que eu. Mais velho, também. Tenho medo dele, já esmurrou outros. Mas hoje não estará e ela vai ficar só comigo – Mostrarei a minha surpresa, a cabana no meio das grandes hortênsias. Ambos calados, já sei. Olhos baixos, como quando – Já passou o tempo. Nem sei quanto. Dias, meses, semanas? Ou mais? Ainda estou esperando. Estou esperando no refúgio das hortênsias, Beatriz. A ti e teu cabelo encaracolado, a fita amarela, o vestido curto, branco e rosa. Teus olhos azuis. A minha mão que pega na tua, tu que te soltas, me empurras sem força, sem sair, olhando para o chão... A caixinha que abres aos poucos, a joaninha que sai voando. Paciência, procurarei mais duas para ti, Beatriz, sei onde pousam, entre as espinhas das amoras, conheço o caminho, talvez hoje, talvez amanhã, assim vais voltar para cá e sorrir de novo, só para mim – Vais me dar a mão, desta vez... Aquele silêncio, teu riso curto, repentino, os dentes brancos entrevistos, o calor do rosto e dos lábios que se encontram por um segundo apenas, quente, infinito e vermelho. Não vás embora, espera um pouco mais...

Tu corres, o babado do vestido sujo de terra...

Voltarás um dia? Voltarás Beatriz?


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A menina veio e tchum...
... chutou a bolinha branca!

Adriana Gragnani
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

E lá foi a bolinha branca direto para o céu, tão rápido que virou um pontinho. E dá-lhe bolinha branca crescendo e voltando prá terra, enorme como o sol, caindo na cabeça do João, que cambaleando sentou no chão! E rola que rola bolinha branca! Vai ela lá correndo e pimba! acerta na galinha que com o susto esquece de botar o ovo! Salta lá bolinha branca, cai no chão, bate três vezes, e vai rolando, pula no barco e atravessa o rio, porque se fosse pela ponte caia nele! Eta, bolinha branca esperta! Corre lá e chuta o peixe de volta prá água! E lá vai ela, bate na pedra, voa na árvore e derruba a maçã na cabeça da Maria, que dormia na rede! Anda depressa, bolinha branca, entra na mata, assusta o macaco, derruba o urubu! E vai em frente, rolando matreira, pega a estrada, desvia à esquerda, entra na cidade, passa uma rasteira no moleque Zezé, que cai de bunda na fonte da praça! Ei, bolinha danada, sobe no coreto assobia fiu fiu e catapimba! cai na sopa da Izilda, que fecha os olhos toda enojada! Entra pela porta, encontra uma estante, sobe nos livros, vai soletrando a b c d e f g....., se encanta com a história, e...atchim, dá um espirro por causa do pó, e voa poeira e as folhas pela biblioteca inteira, corre, danada bolinha branca! Salta da estante, cai no balcão, faz ping pong e o Pedrinho não pede mais livro, pede raquete! Rola, rola, sai pela porta, entra na escola, sobe as escadas, entra na classe e plá! Se choca na lousa, fica mais branca por causa do giz! E Paula e Pedro e Júlia e Sérgio e Letícia e Marcelo e Fernanda e Francisco , e a professora sisuda, gritam Viva! Bolinha branca, branquinha de giz! Salta a janela, encontra a calçada listrada que parece uma zebra! Desenrola bolinha branca, parece um caroço, correndo da vaca que muge, mu, mu! Eia, bolinha branca, emparelha com o cavalo, aposta corrida e ganha distância. Desenrosca da lama que ficou com a chuva e vaiiiiiiiii-se embora! Corre rápida, parece uma flecha, acerta na bola que estoura e faz bum! Caramba, caracoles! Como é ligeira a bolinha branca! Vê um carrapato, apeia do alto e grita sai prá lá, seu pegajoso! E corre e voa e vai longe, rolando, rolando, chega na serra, corre encurvando, seguindo as montanhas, esbarra na flor, suspira de amor e cesta! Acerta em cheio o copo de suco, colocado na grama, que se esparrama e mancha a toalha no chão! E a turma, com fricote por causa do convescote, sai toda atrás da branca bolinha, que se move depressa, não se deixa pegar! Veloz e astuta entra no ônibus, pega carona, pede passagem e desce no ponto, de frente prô mar. Eh! bolinha branca, corre na areia, conversa com o siri, cumprimenta a estrela e pára. Pimba! fica encantada com o mundo de água e com as ondas do mar. Fica quietinha, mas muito espertinha, saudade da menina que com um chute fez... tchum... e que tem nome de Elisa.

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 


 
 

A rua das mulheres coloridas

Cibeles Serigi Leite Puglisi
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Ficava ao lado do pontilhão, bem embaixo de onde passavam os trens. Caminho obrigatório se tínhamos pressa para chegar ao nosso destino. Passávamos em fila de quatro meninas, quando o normal era fila de duas. Uma quadra antes as Irmãs, nossas guardiãs e professoras, faziam um sinal para que andássemos bem depressa e de olhos baixos. Se fosse bem de manhãzinha não havia tanto risco, mas se passava do meio dia encontrávamos muita gente num ir e vir constante. Quanto mais tarde passávamos mais movimento encontrávamos.

A rua estreita e pequena, terminava do lado contrário por onde andávamos.

Nosso colégio era internato para meninas de classe média, e íamos com freqüência ao outro colégio dirigido pela mesma irmandade religiosa, só que na versão masculina. Não era sempre que passávamos por ali, o lugar era evitado, mas quando estávamos atrasadas não tinha outro jeito...

A obrigação de ter os olhos baixos não era empecilho para olhar, dávamos um jeito com o canto do olho e o que víamos não era preciso comentar, a rua era ruidosa, muito ruidosa para nosso gosto de meninas educadas com melindres. Se por acaso era na hora que as Irmãs chamavam de triste, a rua tinha guardas, música, gritos. Eu a chamava, no meu silencioso observar, de Rua das Mulheres Coloridas. As mulheres eram sim coloridas, nos rostos e nas roupas espalhafatosas! Minha observação terminava nisso, e não tinha coragem de perguntar o por quê de tanto mistério, por que tantos homens entravam ali, a ignorância e a idade ainda pouca não despertavam maiores esclarecimentos, estava habituada a obedecer.

Foi quando terminou a guerra que tudo desencadeou. Mil novecentos e quarenta e cinco foi um ano difícil, principalmente para uma menina que tinha ficado mocinha! Corpo e mundo num reviravolta: minha mãe havia morrido recentemente, a guerra tinha terminado, a política fervia, o nacionalismo era visível e vivido em paradas e festas cívicas. Os colégios eram convocados para cooperarem na ordem da cidade principalmente nas paradas militares. E lá íamos nós!

Foi um tempo estranho e divertido. Mas para mim foi principalmente um tempo de descobertas. Descoberta da minha sexualidade.

Essa era tabu, não era mencionada. Reprimida nos modos, nas carícias, éramos proibidas de qualquer demonstração de afeto. Mesmo com nossos pais, quando recebíamos suas visitas, não era permitido maiores demonstrações amorosas do que um beijo no rosto e um abraço. Carinhos efusivos eram tidos por mal gosto, falta de educação. Éramos obrigadas a dormir com as mãos para fora das cobertas, no que obedecíamos sem mais perguntas, pelo menos eu não perguntava e, se as outras desconfiavam, o assunto não foi comentado na minha presença.

Num belo dia de sol, chegaram os pracinhas, os heróis de nossa heróica Força Expedicionária! Para dar ordem ao desfile da volta, para que não houvesse tumulto quando os soldados saíssem do trem, foi pedidos aos colégios da redondeza para que os alunos fizessem um cordão humano entre a rua e a calçada. Fomos para a avenida próxima mais cedo para garantir que nosso espaço não seria ocupado. Fizemos o cordão, de um lado as meninas, do outro os meninos. Padres e Irmãs ficaram atentos para que o cordão não fosse partido, tínhamos ordens severas para não deixar que isso acontecesse. Aos poucos o lugar foi ficando cheio de gente, todas bem comportadas , como o fato pedia, até que elas surgiram. Coloridas e ruidosas começaram a preocupar as Irmãs e os Padres. O Superior da Irmandade ficou correndo de um lado da rua para o outro , confabulando com as Irmãs e outros Padres. O medo era de que alguma das meninas internas ficasse perdida na multidão. O cordão humano feito por nós ia muito longe.

Demorou para os soldados da FEB chegarem. O cansaço já tomava conta dos nossos braços, parados numa mesma posição. As mulheres coloridas continuavam com sua algazarra, o que tirava um pouco a preocupação da demora em mim, mas as Irmãs estavam cada vez mais preocupadas e até o superior da congregação não voltou mais para o outro lado, ficou a postos defendendo a inocência das meninas. O palavreado que escutávamos não era o que poderíamos chamar de fino, muito ao contrário , as palavras ditas não faziam parte do nosso vocabulário.

O barulho de banda tocando anunciou a chegada dos pracinhas, e logo eles apareceram em cima de jipes e carros militares. Foi um rebuliço! Empurradas pelas mulheres, fomos arremessadas para o meio da rua. Vi-me em meio ao mundo ruidoso e colorido, sendo arrastada por elas. Os Padres davam ordens para que o povo ficasse em seus lugares, mas não adiantou, as Coloridas, rindo, correram estendendo os braços, abanando suas bolsinhas, equilibrando-se nos saltos exageradamente altos, romperam o cordão humano, subiram nas viaturas militares, caíram no colo dos heróis e os encheram de beijos! Elas os beijavam na boca! Instalou-se o pandemônio!

As Irmãs e professores receberam o reforço dos Padres para reunir as meninas dispersadas, e nós , as que tínhamos sido mais diretamente atingidas, estávamos embasbacadas! Depois de ter sido arrastada fui ignorada por elas e puxada para trás por um Padre esbaforido! Fiquei parada, sem fala, observando tudo com o meu corpo em reboliço! Alguma coisa estava acontecendo em mim à qual ainda não me acostumara! Fiquei extasiada, não queria perder nenhum detalhe!

As Irmãs ficaram paralisadas.

Nem bem os soldados passaram levando com eles as mulheres coloridas, foi-nos dada a ordem para voltarmos. As Irmãs , com cara de desaprovação, nos fizeram andar depressa. O desassossego instalou-se entre nós. Começamos a comentar, a achar graça . Rimos muito, até a hora de dormir.

Na hora do "Boa Noite", hábito no colégio onde recebíamos admoestações ou ordens para o dia seguinte, a Irmã Diretora se apresentou e indignada comentou o acontecido. O que ela mais enfatizava era que o exemplo que tínhamos tido na rua jamais deveria ser seguido por nós, meninas de família, educadas no mais estrito refinamento moral e religioso. Certos comportamentos sem moral não eram próprios de filhas de Deus! Era preciso conservar o bom tom, a educação, demonstrações públicas de afeto eram de mal gosto, e mesmo reservadamente certas coisas nunca deveriam ser feitas! Que descaramento, sentar no colo de homens, ainda mais desconhecidos, e beijá-los! Que horror!!!

De cabeças baixas escutávamos. As mais sabidas davam risinhos de mofa, mas eu fiquei indignada! Feio aquilo? Tinha achado lindo! Como podia ser feia uma demonstração de amor? Verdade era que tinha sido muito ruidosa para meu gosto, mas daí a achar feio... Os soldados não estavam recebendo recompensas por seus bravos feitos?

Desde esse dia comecei a pensar que nem sempre minhas educadoras tinham razão, resolvi, dentro do meu intimo que um pouco de rebeldia não iria me fazer mal. Menina criada sem carinho, longe de pai e mãe, aquele espetáculo me mostrara que existiam outras coisas, desconhecidas embora, onde podíamos encontrar alegria.

De uma maneira muito estranha minha sexualidade fora salva. Passei a sonhar com príncipes e beijos coloridos. Naquele dia aprendi a mentir.


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Chiclete no cabelo

Liz Mercadante
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

Há uma coisa de menino em grudar chiclete no cabelo das meninas. Um quê de inveja, sacangem e território conquistado. Vingança de Sansão. E imagino se uma certa garotinha, cujos cabelos precisaram ser cortados, lembrar-se-á mais tarde de suas primeiras lições de diferença.

*

Nadir.

Tinha um cabelo preto comprido que ia até a cintura. Não lembro o tom de sua voz, não distingo os traços de seu rosto, não sei dizer se era gorda ou magra, nem mesmo consigo recordar se era de minha classe. A única cena que me restou foi a de nós duas sentadas no longo banco de madeira do pátio da escola, nossos lanches na mão, num dia especial, de reunião de pais talvez, porque estes iam chegando e se agrupando ante a porta do auditório e de lá olhavam para nós, os filhos, enquanto as freiras, pressurosas e subservientes em seus sorrisinhos de boas-vindas, agitavam-se para cima e para baixo. Minha mãe já se encontrava também ali e de longe me admirava, com aquele ar de orgulho a que já me habituara. Como para lhe mostrar que estava feliz também, que me sentia aconchegada e nem um pouco sozinha, deitei a cabeça no ombro de Nadir, naquele manto negro e brilhante a que tanto eu amava, na maciez daqueles cabelos que a mim lembravam os da própria Virgem Maria da capela onde íamos todos os dias rezar, pegar indulgências e velar o Santíssimo. Não entendi naquele momento a sombra que desfez o contentamento de minha mãe. Não entendi por que ela não partilhava comigo aquele momento de pura magia e ternura. Uma inquietação perdurou em minha alma pelo resto do dia. Foi só à noite, já à mesa de jantar, que o nó de agonia se desatou num caudaloso rio de decepção que, acredito, nunca mais me abandonou: "Você não deve ficar se encostando nessas meninas da escola. Pode pegar piolho, nunca se sabe se são limpas".

Nadir sumiu no tempo. Eu nunca mais pensei nela. A não ser uma vez, para me indagar se também ela teria alguma vez sentido a mãe grudar-lhe chiclete em seus maravilhosos cabelos negros, compridos, brilhantes.

*

Já os usei curtos, crespos, lisos, compridos, com franja, sem franja. Mas jamais consegui recuperar aqueles centímetros que foram para a lata do lixo, depois da implacável tesoura materna que condenou meus primeiros exercícios de feminilidade — e isso foi bem antes de Nadir, bem antes das freiras, bem antes de outras decisivas descobertas do mundo. Não creio que houvesse chiclete no cabelo da menina que todos os dias se postava ante o espelho, escovando os fios que chegavam já até a cintura, cintilantes, lisos, cabelos "de moça", perfeitamente adequados a saltos altos e batom surrupiados do armário da mãe. Não, com certeza não foi chiclete. Talvez apenas as óbvias determinações práticas, adequadas a uma garota de cinco anos que além de às escondidas fingir-se de mulher, saracoteava o dia inteiro como menino, pulando no quintal, subindo em árvores, mocinho e bandido príncipe princesa dona de cães gatos patos marrecos lugares secretos buracos terra aranhas formigas minhocas cigarro de talo de chuchu. Não importam os motivos. O que restou foi a lancinante sensação de perda, choro de menina implorando para tê-los de volta, por que não grudá-los com durex goma arábica cola de araruta? A impaciência de sequer compreender que "tornariam a crescer". Não cresceram. Nunca mais cresceram. E por longos anos a brincadeira de ser mulher ficou esquecida.

Até que chegaram as outras meninas.

*