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São Paulo, 25
de outubro de 1996
Carolina,
querida sobrinha,
Há
quanto tempo não lhe escrevo?
Tudo ficou mesmo diferente.
Eu nunca mais fui ver o mar.
Eu nem ao menos sei se a noite tem luar.
Eu durmo cedo com as galinhas. Amanhã eu preciso
trabalhar.
Isso é normal. Acontece com todo mundo.
Primeiro são as contas principais.
Depois são as lojas, com tanta coisa que a gente
quer comprar.
Comida que a gente come.
Cinema que a gente vai.
É tanta coisa, Carolina, que não sei se é bom
lembrar.
E chuvisco, ventania, tempestade, calorzão.
É tudo, às vezes, no mesmo dia.
Antigamente, nas vitrolas tinha 33 e 78 rotações.
Ou tudo ia muito devagar, ou ia depressa demais.
Hoje em dia, o tempo é coisa que não dá mais
pra se pegar.
Apego? Nunca mais.
Eu já disse e torno a divagar: eu nem sei se esta
noite tem luar.
Mas volta e meia, você sabe, é como se tudo
voltasse para o mesmo lugar.
Eu me lembro de você, eu me lembro do luar, eu me
lembro de alguém, que um dia na minha casa veio morar.
Eu me lembro do Natal, do anjo Gabriel que veio
anunciar.
Eu me lembro que chovia.
Eu me lembro de Sofia.
Eu me lembro que ninguém via.
Sofia chorava, chovia. E ninguém via...
É natural, Carolina.
Quando as águas caem de tanto lugar, fica difícil
precisar.
Tem água que cai do céu, tem água que é do
mar, tem água que é do chorar.
A gente fica um pouco sem tempo, sabe como é,
Carolina?
É do ar?
Do mar?
Do chorar?
Eu me preocupo muito com Sofia, mas você sabe
como é, Carolina, eu durmo com as galinhas: amanhã eu preciso trabalhar.
São tantas as contas pra pagar que ninguém mesmo
terá tempo pra saber por que é que Sofia sofria, por que é que Sofia chorava,
por que chovia e por que ninguém via.
Sylvia
Manzano
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