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E cá estou eu, novamente, na tarefa de dobrar panos, catar feijão, lavar os pratos, ir buscar o pão.

Cá estou eu, na tarefa de ir buscar a fome.

Cá estou eu, entre livros e papéis, na tarefa de buscar a grana do aluguel.

Cá de novo na indecisão: ir ou não ir para a aula de musculação.

Ficar ou não ficar bonita?

Hoje, ganhei uma caneta xadrez.

Meu pai, costumava dizer, quando eu era bem pequena: "Era uma vez, um gato xadrez. Pulou a janela, quer que eu conte outra vez?"

Eu dizia: "Quero!" Ele contava. E perguntava: "Quer que eu conte outra vez?" Eu dizia: "Quero". Ele contava. Eu ficava olhando com cara de tonta, deslumbrada e não entendia nada. E não perguntava. Será que precisava?

Meu pai, esse herói de olhar tão doce...

Eram os primeiros versos de uma poesia do meu livro de francês. Tinha outra lição que falava da bigorna e da charrua. Até hoje não sei o que quer dizer charrua, mas achava uma palavra tão bonita.

É assim também com a palavra armagedon de uma música que o Gil canta e que uso em minhas aulas.

Sempre um ou outro aluno pergunta o que é armagedon.

Quando eu digo que não sei, mas que acho uma palavra muito bonita, eles me olham como se eu tivesse um parafuso a menos.

Procurei esse tal desse parafuso a vida inteira e como não o encontrei, cheguei à conclusão que foi falha de fabricação: um parafuso a menos.

Ontem meu analista perguntou do que exatamente gostei na sessão.

Eu gostei foi do silêncio inicial. Aquele silêncio antigamente tão pesado e difícil de atravessar, quando eu falo, falo e as palavras sobem no ar.

No começo eu tinha medo que elas fossem embora e não voltassem nunca mais.

Mas, de repente, mágica. Elas começam a se procurar, a se juntar, a se aninhar: casas, ninhos, dragões, serpentes, manadas de elefantes, tiroteios e rajadas de balas.

Mas ninguém morreu.

Eu finjo que acredito, Melodia.

No começo, eu me agarrava nessa afirmação, como se fosse uma tábua de salvação.

Eu dizia "ninguém morreu" e ia chorar no banheiro.

Agora, que já perdi a conta do número dos mortos, que já choro como se fosse uma torneira aberta, que já rasguei aquela camiseta preta que usei anos e anos a fio, eu penso que fazer milagres é fácil!

Difícil é a manutenção da graça.

A pilha de roupa suja não se lava sozinha, ainda mais no meu caso, que sofro de carinhos especiais pelos meus panos de prato.

Fervo água para colocar neles, esfrego com sabão de coco, deixo no sol para quarar, estico as bordas de crochê com todo o cuidado antes de colocar no varal e nunca me esqueço de colocar amaciante de roupas no final.

Mas também tem hora que olho, digo "tá encardido" e jogo direto no lixo.

Eu sei que tenho um jeito meio estúpido de amar, mas estou tentando, feito a Márcia, minha sobrinha, quando era pequena. A gente perguntava: "Márcia o que você tá fazendo?" E ela: "Tô procurachando".

Tá caindo uma chuva danada de triste, mas eu juro que eu também, eu também tô procurando...

Mas eu não sei de nada.

Só sei que vou passar o carnaval em minha cidade natal, na casa paterna, em busca de silêncio, recolhimento e aconchego.

Ah, meu Deus, desta vez me ajuda a conseguir.

Abafa aqueles gritos, ajuda-me a descobrir que a casa não foi destruída, que está lá, imensa ainda, do lado da igreja matriz. Com seus azulejos portugueses intactos, as rosáceas de madeira no teto segurando o lustre de cristal, o milho crescendo no quintal e a velha cozinheira, cozinhando tigelas e tigelas de curau.

O enorme porão continua úmido e visitado aqui e ali pelos anjos que meu irmão comercializava.

Meu pai continua colocando chapéus neles, só por brincadeira.

Na pharmácia, as estantes altíssimas com seus remédios milagrosos.

No laboratório, os vidros com tampa de vidro, que me faziam sentir rica e poderosa.

Meu pai ateu, em seu longo avental branco, continuaria indo inspecionar todas as tardes as obras da igreja matriz, com o seu melhor amigo, o pároco.

Os pernilongos continuariam invadindo os quartos todas as noites, as paredes cada vez mais manchadas de sangue e eu perpetuando o namorinho de portão, deixando minha mãe rouca de tanto me chamar para entrar.

Ah, mãe, deixa eu ficar mais um pouquinho...

Tá tão gostoso, depois eu durmo tão profundo, com a mão direita suavemente apertando o bico do meu seio esquerdo.

Ah, mãe, deixa eu ficar mais um pouquinho, deixa eu ficar para sempre.

Ou então, para com essa voz de lengalenga.

Me bate, arranca meus cabelos e me leva de uma vez pra dentro.

Faça alguma coisa, mãe.

Me dê um motivo pra eu odiar você de verdade.

Diz que eu não presto, me põe pra fora de casa.

Abre as portas e janelas e deixa que os morcegos entrem de uma vez por todas, embriagados de tontura do trajeto percorrido do campanário da igreja até aqui.

Deixa que os ratos do porão subam para a sala de jantar e invadam o resto pouco a pouco.

Vende essa casa, mãe!

Vende essa casa enquanto é tempo, mesmo que ela não seja exatamente sua.
 

 

Sylvia Manzano
Janeiro/95

 

 
 
 
  Sylvia Manzano

 

Sylvia Manzano tem os seguintes livros publicados: Carta para Carolina, O circo do meio-dia, Tereza e suas rendas e É feriado pela Ed. Dimensão; Seis tempos pela Ed. Global; A dama pé de cabra, O que é que eu faço agora? e A boca da noite pela Ed. Paulinas e Tanabata, pela Ed. Ave-Maria.

e-mail: sylviamanzano@uol.com.br