Sem pé e manco entre os perfeitos,
a mim, o vaidoso, Fizestes-me, Senhor.
Antes os dois ou a vida toda,
mas Quisestes-me sem um pé.
Assimétrico e de bengala,
Mandastes-me andar na Bahia.
A Grécia amputada Esculpistes
em minha própria carne.
Cortastes a mim mesmo, Senhor,
e com dores, à Tua criatura...

Tantas mulheres tive, Senhor,
com nenhuma me casei.
Possuí todas as que desejei
e fui abandonado pela querida.
Nenhuma coroa de louros,
nome, glória, perpetuidade,
foi-me de alguma valia
para deter a amada.
Eu, símbolo do desejo
claro ou obscuro,
traído pela escolhida...

Toma-me a fama!;
dá-me um filho!
Não a descendência por si mesma,
nem a sede da permanência do meu nome.
Unicamente, Senhor, o desejo
de compor canções de ninar.
Alguém a quem ensinar o Português,
corrigir suas lições na fresca da tarde.
Olhar uma filha adormecida
na rede do meu amor.
Macho ou fêmea me é indiferente,
contanto seja um filho meu!
Uma carne minha doada por Ti...

Desejastes diferente e assim vôo
ao Teu encontro
sem pé, filho ou mulher,
nas vésperas da Grande Noite de São João...


Com grande compaixão pelo Poeta Antonio de Castro Alves
Cidade do Salvador, Bahia, 28/08/1999 AD
João Augusto Sampaio


 


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