Criação poética & loucura
A criação poética presente em toda arte também implica numa representação da morte. A arte é criação de novos mundos, mas o eu precisa morrer um pouco para dar lugar a mundos não seus, inventados. (Há um outro aspecto evidente: além de significar uma vivência da morte, a arte é também superação da morte – e sobre isso nos deteremos um pouco mais adiante). Quanto à sua relação com a loucura, a criação poética, mais talvez do que qualquer outra experiência humana, resume as duas grandes experiências do morrer: há nela um gesto de amor apaixonado e radical, ao mesmo tempo que um mergulho na loucura. É a criação como ato de loucura que me interessa agora.

Enquanto experimentação na loucura, a criação poética aparece antes de tudo como um mergulho no desequilíbrio e no caos de si mesmo – no sentido de que para criar é preciso revirar todo o interior do criador, até o ponto de abalar-lhe o sentido quotidiano. De fato, a gente cria porque não cabe mais dentro de si mesmo e então procura uma expressão fora de si, no desconhecido. Por causa disso, o ato de criar implica numa confissão de desequilíbrio – assim como "a civilização é a expressão do desequilíbrio congênito dos homens", no dizer de Octavio Paz8. Deve-se lembrar também que todo artista cria a partir do contato com seus fantasmas e demônios interiores, que o atormentam e se impõem através da chamada intuição ou inspiração. "O escritor escreve não com suas idéias mas com suas obsessões", já dizia Mario Vargas Llosa. É verdade. Imagine-se o que seria de Kafka, Virginia Woolf e Clarice Lispector sem o seu pânico?

A criação de outros mundos e personagens na ficção supõe uma "arrebatadora experiência de perda de identidade", nas palavras de Mary McCarthy9. De fato, para inventar, tirar coisas do nada, é preciso perder parte do eu. Numa carta, Flaubert certa vez confessou como se sentia escrevendo a cena de sedução de Emma por Rodolphe, na floresta, em MADAME BOVARY: "Como é delicioso escrever, como é gratificante não ser mais eu, mas poder me movimentar por todo o universo sobre o qual estou falando. Veja o que me aconteceu hoje, por exemplo: eu era homem e mulher, dois amantes ao mesmo tempo; cavalguei por uma floresta em uma tarde de outono, sob as folhas amarelas, e eu era os cavalos, as folhas, o vento, as palavras que ele e ela falavam, e o sol inclemente, que castigava suas pálpebras semicerradas, já carregadas de paixão"10.

Com seus novos mundos, a criação poética leva ao absurdo. Frente à lógica do real, seu mergulho na imaginação é um verdadeiro ato de loucura. Esse mergulho no desequilíbrio provavelmente cobra seu tributo à razão. Assim, há artistas que só conseguem criar através da loucura, de modo que a fronteira entre criação e demência acaba se tornando frágil. Veja-se, como exemplo, o caso do poeta francês Antonin Artaud, que passou boa parte de sua vida em hospícios, aí incluindo os últimos nove anos. Poderia citar dezenas como ele. Há outros artistas que se exaurem na sua criação, de tal modo que o ato de criar acaba desembocando na morte. Pode-se lembrar o caso do americano Ernest Hemingway e tantos outros escritores que se suicidaram. Mas há também o caso particular de Dostoievsky, ainda citado por Freud. Ele atravessava períodos de compulsão no jogo. Só depois de ter perdido tudo é que Dostoievsky conseguia criar coisas geniais – como se antes fosse necessário um processo de loucura, para se purgar.

Se a criação poética pode adquirir tons de mergulho na loucura, é indiscutível que ela significa também o oposto: uma resposta à loucura. De fato, a arte implica um gesto de superação – do próprio artista e do caos. Ao mergulhar nessa loucura de criar novos mundos e personagens, o criador que perde o equilíbrio na verdade já está buscando um novo equilíbrio do seu ser. Seu desequilíbrio inicial é criador, como já dizia Octávio Paz: um perder-se para encontrar-se. Mais ainda: ao criar sua obra, o artista busca um convívio com sua loucura. Ao usá-la no exercício poético, ele faz da vivência esquizofrênica um método de introspecção mas também matéria-prima para sua criação. Em outras palavras, trabalhar num espaço de loucura experimental é sem dúvida uma excelente maneira de oxigenar o inconsciente e o interior do artista: assume-se o desequilíbrio e o caos enquanto componentes da vida. Por isso o filósofo alemão Schelling já afirmava que na base da inspiração está uma "loucura controlada"11. Em outra palavras, a criação poética resulta numa reciclagem da loucura que habita cada um de nós, e pode assumir perfeitamente um papel de redenção da razão.

O ponto mais importante ao qual eu queria chegar, está aqui, numa interseccão mágica. Além de experimentação na loucura e, ao mesmo tempo, resposta a ela, a criação poética traz em si uma experiência de imortalidade e superação da morte. Ao inaugurar, através da arte, um novo mundo onde a fantasia é realidade, o artista reinaugura a vida. Essa nova vida é, naturalmente, passada para o leitor, ouvinte ou espectador, criando uma implicação mágica de reinvenção do mundo. Nesse sentido, a criação poética enfrenta a morte. E é talvez a única experiência humana capaz de tal façanha. Prova disso é que existem artistas que destemidamente (ou desequilibradamente, como se quiser) tomam a própria morte como tema de sua criação, num enfrentamento direto. A história da arte está cheia de exemplos de obras inspiradas na morte – que vão desde as centenas de interpretações do sacrifício de Cristo até a série de desenhos de Flávio de Carvalho retratando a agonia de sua mãe, sem falar de todos os réquiens que abundam na produção musical do Ocidente. Em literatura, entre centenas de outros, lembro o mesmo inesgotável Jorge Luis Borges e seu poema "Elogio da sombra". Com a costumeira contundência, ele assim se refere à sua cegueira:

"isso que deveria me aterrorizar
é uma doçura, um regresso
".12

De fato, a proliferação da sombra (na cegueira) é uma preparação para a maturidade final. A morte se abre como um espaço infinito e então

Chego ao meu centro,
à minha álgebra e chave,
ao meu espelho.
Em breve saberei quem sou.

E a morte decifra o poeta.

Abordagens como essa, tão próximas da verdade interior do artista, criam ápices no viver e pequenos milagres no quotidiano. Ao ler um livro de três séculos atrás ou ouvir uma peça musical do século XVIII ou olhar um quadro do Renascimento podemos experimentar profundas emoções poéticas, que se tornam verdadeiras vivências da perenidade no coração do efêmero. Apesar de séculos de diferença entre nós e os artistas, sua obra continuou o milagre de levar adiante, indefinidamente, sua poesia. Mas, muito mais do que isso, a obra é revivida indefinidamente, a cada vez que a lemos, ouvimos ou vemos. Poderíamos chamar isso de experiências de eternidade. Convido o leitor a ouvir, por exemplo, a PAIXÃO SEGUNDO SÃO JOÃO de J. S. Bach (1685-1750) ou aquele cântico de celebração à morte que é o REQUIEM de W. A. Mozart (1756-1791). Ora, toda vez que me emociono com sua música, minha experiência poética faz ressuscitar em mim esses dois compositores, que morreram há mais de dois séculos. Essa foi, com certeza, sua melhor maneira de ser imortal, de vencer a morte: através da poesia que produziram. Além disso, ao vivê-los de modo tão interiorizado, eu os torno parte de mim. As emoções que levaram Bach e Mozart a criar música perpetuam-se na sua obra e são revividas por mim, quando as ouço e atualizo através da minha própria emoção poética. Então, ocorre um duplo milagre: eu sou Bach e Mozart. Mas também Bach e Mozart realizam sua imortalidade através de mim – ser miseravelmente efêmero. Ocorre portanto um encontro miraculoso, no qual nós todos superamos o tempo e a morte.

Conclusão

Se num primeiro momento é incitação à loucura, a criação poética torna-se uma maneira de responder à loucura, propondo uma convivência com a morte e, portanto, com o absurdo e o nada – como vimos. A partir daí, pode-se dizer que a poesia é uma vitória contra o nada. Mas não é uma busca de explicação, pois a loucura e a morte são inexplicáveis.

Por nos mergulhar no mistério, a criação poética me parece uma possibilidade de salvação, uma vivência redentora. Mas atenção: nem por isso estou propondo a poesia como solução terapêutica – ainda que ela possa ser assim usada. Resguardo à poesia a necessidade de ser absolutamente poesia, antes de tudo, e absolutamente inútil em termos de rendimento outro que não a própria emoção poética. Além do mais, não proponho como corolário a necessidade das pessoas enlouquecerem para criar arte, porque a loucura em si mesma não leva necessariamente à poesia. Ainda assim, não é incomum que poetas e criadores tenham algo de profetas e loucos, porque são de certo modo pára-raios da alma humana e seus intérpretes privilegiados. Joseph Campbell os chamava de "novos xamãs", criadores de novos mitos – "porque só os artistas podem ouvir a canção do universo"13. De modo semelhante, Octavio Paz diz que "na palavra individual do escritor se ouve, em momentos mais intensos, a palavra do mundo"14.

Para encerrar, proponho aqui mais um pequeno milagre de eternidade: trago de volta um poeta chinês do século VIII, chamado Han Yu. Apesar de se referir mais particularmente ao escritor, sua reflexão vale para todo artista, sempre que a obra poética entra em comunhão com o mundo e se torna sua expressão. Repito as palavras tão antigas de Han Yu porque eu não teria condições de definir melhor do que ele a vocacão redentora da poesia. Mas as mimetizo também porque desejo que ele fale através de mim e seja assim atualizado, muitos séculos depois. Que você leia e realize o milagre de eternizar suas proféticas palavras, tal como seguem:

"Tudo ressoa, mal se rompe o equilíbrio das coisas. As árvores e as ervas são silenciosas: se o vento as agita, elas ressoam. A água está silenciosa: o ar a move, e ela ressoa. As ondas mugem: é que algo as oprime. A cascata se precipita: é porque falta-lhe solo. O lago ferve: algo o aquece. Os metais e as pedras são mudos, mas ressoam se algo os golpeia. Assim também o homem. Se fala, é porque não pode conter-se. Se se emociona, canta. Se sofre, lamenta-se. Tudo o que sai de sua boca em forma de som se deve a um rompimento do seu equilíbrio... A palavra é o mais perfeito dos sons humanos; a literatura, por sua vez, é a mais perfeita forma de palavra. E assim, quando o equilíbrio se rompe, o céu escolhe entre os homens os que são mais sensíveis e os faz ressoarem"15.

artigo publicado na REVISTA VOZES
janeiro-fevereiro 1997, p. 72

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8 "A república das letras", de Octavio Paz, em SUPLEMENTO DE CULTURA, "O Estado de S. Paulo", 11/maio/1986.

 

 

9 "Madame Bovary não era Flaubert", de Mary MacCarthy, em revista LEIA, nov. 1989, p. 45.

 

 

 

10 Apud Mary McCarthy, artigo citado, p. 45.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

11 PRELEÇÕES DE STUTTGART, de Schelling.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

12 "Elogio de la sombra", em POESIA POÉTICA (1923-1977), de Jorge Luis Borges, Alianza Editorial, Madrid, 1981, p. 361.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

13 O PODER DO MITO, de Joseph Campbell, Palas Athena, São Paulo, 1992.

14 Octavio Paz, artigo citado.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

15 Apud Octavio Paz, artigo citado.

 

  João Silvério Trevisan

Nascido em 1944, na cidade de Ribeirão Bonito (Estado de São Paulo). É escritor de literatura ficcional e ensaística, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema. Estudou filosofia. Tem publicadas diversas obras. Escreve para jornais e revistas de todo o país e do exterior.


E-mail: jstrevisan@uol.com.br