A obscura maravilha
Começo com o mistério. E a constatação de que tudo é mistério: nós mesmos, os outros, a vida quotidiana. Estamos, na verdade, mergulhados até o pescoço no mistério. Mas não se trata de uma idéia de mistério que aponte para a resignação, quer dizer, algo como entregar-se nas mãos do acaso, de modo quase conformista, tão ao gosto de religiões milenaristas. Ou seja, o mistério ao qual me refiro não é um mergulho no transcendental ou religioso. Mais modestamente e de acordo com minhas forças, permaneço no chão da realidade como tal – aquela vista e não vista. Assim, este meu mistério menos pretensioso significa simplesmente um exercício de reconhecimento do mundo como algo muito maior do que nossos olhos e nossa compreensão alcançam. Há fatos quotidianos que desconheço. Por exemplo, não sei se morrerei daqui a cinco minutos ou dez anos. A verdade é que o mundo está, em grande parte, composto pelo desconhecido: só conhecemos a ponta do iceberg. Portanto, a maior parte do que nos rodeia está para ser descoberta. Ora, coisas espantosas e duras como a morte e a loucura não são absolutamente um mistério a mais e sim parte desse mesmo mistério da totalidade que são a vida e o mundo.

Nós costumamos sentir a morte como o fim de tudo. Em vez de ser uma continuação natural do processo de vida, tendemos a vivê-la como algo totalmente separado da vida. Num de seus mais belos poemas, o escritor argentino Jorge Luís Borges assim definia a morte:

"uma obscura maravilha nos ronda:
a morte, esse outro mar, essa outra flecha".
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A definição "uma obscura maravilha" é perfeita justamente porque indica o mistério e sua maravilha, ainda que mistério. Ora, sabemos que o maior mistério para os humanos é a morte – e sua suprema angústia também. Por que morrer? Para onde vamos? O que fazer com as lembranças do que fomos? Para qualquer um de nós, parece absurdo e inaceitável saber que daqui a cem anos provavelmente nem nós nem qualquer um dos nossos contemporâneos estaremos vivos, segundo a lógica da história. Em algum lugar da sua obra, o mesmo Jorge Luis Borges diz que o cão é imortal porque não sabe que vai morrer. Se não sabemos algo, não criamos expectativas. Ao contrário, saber nos torna mortais. Ter consciência da morte é viver a dor e a tragédia maior de saber. Nesse sentido, o homem é o único ser mortal, porque se sabe mortal. E é tal consciência da mortalidade que denuncia nosso estado de absoluto desamparo no mundo.

Mas não só. Somos mortais também porque vivemos cheios de morte. A história nos deixa a marca dos que nos precederam: nós contemos nosso passado; nosso passado contém nossos mortos; e nossos mortos nos marcam com lembranças, muito mais do que gostaríamos. Existe consolo possível? Não. Há tentativas. Num de seus contos, Jorge Luis Borges nos diz que os imortais são seres entediados porque entre eles tudo é repetição, não há mistério. Ao contrário, entre os mortais "tudo tem o calor da irrecuperabilidade e do risco", porque "a morte os torna interessantes e patéticos."2 Por mais consoladoras que possam ser, tais conclusões não conseguem apontar uma solução para a morte e sua dor. A morte é morte. A morte é. Nós vamos morrer e não queremos. Um velho terapeuta que tive, já quase cego, dizia que aprender a viver implica aprender a morrer. Segundo ele, não há salvação possível para a morte porque não há do que se salvar: a morte é fato integrante da vida de cada um de nós e como tal tem que ser aceita. Papai e mamãe morreram, nós morreremos, nossos filhos e os filhos deles também morrerão. Não há nada para perguntar. Só nos resta aprender a conviver com a realidade inevitável da morte.

Quanto à loucura, é impossível falar dela sem pensar na morte. Por quê? Do ponto de vista da consciência, a morte significa a loucura instalada no próprio coração da existência. Se ela é normal na natureza (onde, por exemplo, não é absurdo o zangão morrer ao fecundar a abelha-rainha), para a consciência a morte não faz sentido, pois ela aspira à eternidade. Segundo a consciência, só a eternidade faz sentido para a experiência de viver. A morte é negação desse anseio instalado no próprio cerne da consciência. Ainda assim, a própria loucura poderá ser usada pela consciência (ou pela parte oculta do seu iceberg) enquanto estratagema para enfrentar a morte – como se verá mais adiante.

O horror diante da abolição da existência é tal que o ser humano vive se preparando, ainda que sem se dar conta, para o grande momento de morrer. De fato, a experiência humana pode se servir de tudo, na tentativa de compreender (ou enfrentar) a morte. É como se passássemos a vida ensaiando morrer. Isso torna a vida um longo aprendizado para a morte, cheia de fantasias e experimentações: um convívio que busca amadurecimento, no sentido de poder estar usufruindo legitimamente do milagre de viver, apesar das evidências do fim irremediável. Segundo Bernard Berenson, citado por Clarice Lispector, "uma vida completa talvez seja aquela que termine em tão plena identificação com o não-eu que então já não resta nenhum eu para morrer."3 Além disso, as representações da morte são sem dúvida uma maneira de desafogar a suprema angústia do fim da existência, um exorcismo ante seu terror. Mais uma vez, ensaios para o momento final. Em resumo, não seria exagero dizer que a vida é um amplo palco onde vai se desenrolando, por anos a fio, o espetáculo da morte. É nesse espetáculo que se inserem, enquanto ensaios do morrer, a loucura e a criação artística – como se verá adiante.

São muitas as representações da morte (ou experimentações do morrer) durante a vida, inclusive no quotidiano. Podem-se encontrar alguns exemplos nas mais diversas e imprevisíveis circunstâncias da atividade humana. O acasalamento e a paternidade/maternidade são em geral entendidos exclusivamente dentro de seus fins procriativos, como supremo exemplo de perpetuação da espécie. Mas se olharmos da perspectiva da morte, essa continuidade da espécie entre os humanos pode implicar na tentativa psicológica e individual dos pais sobreviverem através dos seus filhos. O acasalamento com fim procriativo denuncia uma (não tão) secreta intenção de não morrer, deixando sementes que finquem raiz na vida, através dos filhos. Freqüentemente em resposta à angústia inconsciente da morte, os pais buscam perpetuar-se nos rebentos através da realização de suas expectativas e frustrações, com cobranças que beiram a vampirização: estar presente nos filhos como um carimbo indelével. Assim acontece com aqueles pais que manipulam, explicitamente ou não, a vocação dos filhos. Todos nós conhecemos histórias de traumas provocados nas personalidades de crianças e adolescentes por essa "perpetuação" tirânica da espécie.

Uma outra (e curiosa) representação da morte pode ser encontrada na idéia de raça ou povo eleito. Em quase todas as culturas e momentos históricos, criam-se para tanto verdadeiras marcas registradas da "eleição". Em tribos de todo o mundo, isso se verte em tatuagens no corpo, ossos no nariz, madeiras nos lábios ou orelhas. No caso dos judeus, por exemplo, impõe-se essa marca de perpetuação enquanto povo por meio do ritual da circuncisão em cada indivíduo "perpetuador". Tais costumes ancestrais significam também um sacrifício da individualidade à coletividade – com extraordinária ênfase no caso israelita, ao marcar o próprio órgão individual que expele a semente "do povo". Entre os antigos maias, a idéia desse sacrifício manifestava-se de modo literal: ofereciam-se ritualmente jovens príncipes e princesas ao deus Sol, matando-os para garantir a continuidade da raça, dentro de uma conceituação cósmica cíclica, na qual o sangue dos vivos alimentava o Sol que, por sua vez, garantiria a vida dos humanos com sua luz insubstituível.

Entre muitos povos, há também comemorações festivas da morte, como modos explícitos de dialogar com ela. No México, o Dia de Finados (lá chamado "Día de Muertos") é uma famosa e popularíssima comemoração com direito a danças, bebidas e brincadeiras. As pessoas levam as melhores comidas aos cemitérios, depositando-as nos túmulos dos seus mortos. Nas padarias, há doces e pães especiais referenciados a motivos da morte (cítaras, caveiras, foices etc.). E os amigos trocam entre si caveirinhas de açúcar com seus nomes inscritos na testa nua, assim como poemas jocosos narrando sua hipotética morte. Também entre nós brasileiros há uma comemoração supreendentemente implicada com a morte. É o nosso carnaval, em cuja explosiva alegria orgiástica está implícita a presença da morte. Se no hemisfério norte o carnaval comemorava o fim do inverno e início da primavera (da vida), no hemisfério sul inverteu-se o sentido. Ao se festejar o fim do verão e fazer a última comemoração antes das penitências da Quaresma, que aqui coincidem com o início do outono, deu-se forma ao falso: nosso carnaval tornou-se ambíguo como uma perigosa dança diante da morte. Basta para tanto considerar a violência que costuma eclodir no período momesco. Claro que há o outro lado dessa ambigüidade. Clarice Lispector já lembrava: "porque é cruel demais saber que a vida é única [...], então respondo com a pureza de uma alegria indomável".4 O carnaval é essa vivência do avesso que nos remete ao avesso da vida, expresso tanto no travestismo comuníssimo das festas carnavalescas quanto na alegria de quem vai morrer de tanto festejar – sempre o morrer. Pode-se encontrar essa ambigüidade orgia/morte no dionisismo das ruas de Salvador, com os foliões vestidos com túnicas chamadas de "mortalhas", ou no Recife, com seus grupos de "alminhas", ou seja, foliões vestindo roupas com esqueletos pintados e máscaras de caveiras.

Por mais estranhas que possam parecer, tais tentativas de diálogo com a morte não são mórbidas, se considerarmos que a própria vivência amorosa humana traz implícita a representação do morrer. Confira-se a reação física do orgasmo, durante o qual nossos rostos contraídos fazem lembrar em tudo os esgares da morte. Não por acaso, os franceses chamam maliciosamente o orgasmo de "pequena morte". Ora, amar supõe mortes para poder chegar ao outro. Qualquer relação amorosa com intenção de durar exige que cada um dos parceiros em certa medida abra mão de si mesmo – mate uma parte de si – para que a relação de troca seja possível, permitindo o espaço do outro dentro de si. Além disso, a fidelidade (fantasia da suprema prova de amor) implica automaticamente na morte dos demais amores possíveis. Mais do que isso, o amor pode se realizar como uma inversão de signos. Tome-se o termo brasileiro para penetração: "comer" – que traz implícita a idéia de tomar posse, locupletar-se. Pode-se flagrar aí uma profunda ambigüidade (e por que não: um equívoco lingüístico). Na verdade, quem come (sexualmente) é aquele que é devorado pelo buraco onde penetra: ao atacar, ele está sendo atacado. Mergulhando no abismo do outro, o "comedor" é na verdade aquele que é comido. Ou seja, na penetração amorosa a afirmação torna-se uma negação, pois quem possui é de fato quem é possuído pelo outro: aquele que penetra afunda na alteridade e lá se perde, ao atingir o orgasmo. Assim, o gozo físico máximo do nosso eu supõe a perda de sua identidade no momento do êxtase amoroso, quando já não sabemos quem somos. O orgasmo, nosso máximo prazer vital, é aquele ápice fugaz em que nossa vida perde o sentido de si mesma. Tida como afirmação do eu, a busca amorosa significa de fato o anseio por se fundir, perder-se e ser outro – em outras palavras, morrer. Sintoma dessa morte é sem dúvida a lassidão masculina pós-coito. Aliás, esse mesmo fenômeno da dubiedade amor/morte pode ser perfeitamente ilustrado nas rupturas amorosas. Segundo o psicanalista Igor Caruso, quando dois amantes se separam, ocorre uma dupla e suprema experiência da morte em vida: ao mesmo tempo que sofro minha morte na consciência do outro, vivencio a morte do outro na minha consciência. Os desdobramentos são dolorosos, quando não trágicos.5

Além do amor, há representações mais óbvias da morte em outras circunstâncias da vida. Adoecer, por exemplo, traz consigo uma vivência clara da morte: nós adoecemos dentro da perspectiva da dor que prenuncia a destruição da vida. Mas também na loucura há esse outro aspecto – diferente do que se apontou acima, na sua relação com a morte. A loucura é representação da morte porque quebra a lógica da realidade e, tal como a morte, introduz em nossas vidas a experiência do nada. Assim, o enlouquecer provoca uma experiência concomitante de morte da lógica e de confinamento interior – quase como um defeito de comunicação no circuito. Tornado socialmente ininputável, o louco "morre" para a vida pessoal, já que não é mais dono de si mesmo. Mas na loucura ocorre também uma morte social. Vive-se a dor de ser "enterrado vivo", através do confinamento compulsório, mas não só. Na loucura, há um estar enterrado vivo dentro de si mesmo. Segundo o psicanalista R. D. Laing, a experiência esquizofrênica é um mergulho na morte sem caminho de volta porque o esquizofrênico se vê perdido diante de seus demônios interiores. Daí, sofre de "alma partida", que é o sentido etimologicamente exato para o termo "esquizofrenia"6. Num texto que chega a ser comoventemente poético, Freud analisou a epilepsia de Dostoievsky como um típico caso de vivência da morte. Segundo ele, a doença desse escritor russo era uma epilepsia afetiva e não orgânica, mais precisamente de fundo histérico. Precedida por um intenso medo de morrer, ela terminava em estado de letargia. Tratava-se, segundo Freud, de um ataque de morte em dois sentidos. Como o pai morrera assassinado durante a infância do escritor, já adulto ele viveria sua epilepsia como representação de um castigo de morte contra o desejo de matar o pai rival. Mas, em sentido oposto, seria também uma busca da morte para identificar-se amorosamente com o pai: nos seus ataques, Dostoievsky buscaria uma satisfação de fundo homossexual, com componentes masoquistas, procurando realizar fantasias de encontro com o pai morto.7

[segue]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

1 "1964", em OBRA POÉTICA (1923-1977), de Jorge Luis Borges, Alianza Editorial, Madrid, 1981. p. 247.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2 "El inmortal", em EL ALEPH, de Jorge Luis Borges, Alianza Editorial, Madrid, 1974. p. 7.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3 Apud A PAIXÃO SEGUNDO G. H., de Clarice Lispector, Nova Fronteira, 1986, 10 ed., p. 6.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4 A PAIXÃO SEGUNDO C. L., de Berta Waldman,  Brasiliense, 1983. p. 98.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5 Ver A SEPARAÇÃO DOS AMANTES (UMA FENOMENOLOGIA DA MORTE), de Igor Caruso, Cortez , S. Paulo, 1981.

 

 

 

 

 

 

 

 

6 Ver SOBRE LOUCOS E SÃOS, de R. D. Laing, Ed. Brasiliense, S.Paulo, 1981.

 

 

 

 

 

 

 

 

7 DOSTOIEVSKY Y EL PARRICIDIO, em OBRAS COMPLETAS (VOL. III), de S.  Freud, Editorial Biblioteca Nueva, Madrid, 1981. V.III, p. 3004.

  João Silvério Trevisan

Nascido em 1944, na cidade de Ribeirão Bonito (Estado de São Paulo). É escritor de literatura ficcional e ensaística, dramaturgo, tradutor, jornalista, coordenador de oficinas literárias, roteirista e diretor de cinema. Estudou filosofia. Tem publicadas diversas obras. Escreve para jornais e revistas de todo o país e do exterior.


E-mail: jstrevisan@uol.com.br