QUAL É
O BRINDE PERFEITO
"AOS AMIGOS AUSENTES :
"Um sujeito me contou outro dia uma história
engraçada.
"REAJA!... SABE
O QUE
Frank Sinatra não gostava de estar sozinho. Quando só, ficava ansioso, e até um pouco medroso. Sozinho, não era ele mesmo. E se ele não era ele mesmo, todos os solitários ficariam ainda mais solitários, mais perdidos, sem um farol. Ironia: "Você ouviu a história do sujeito que estava passeando por Nova York?" diria, já começando a contar uma das suas piadas preferidas que o assolava o tempo todo. "A cidade é atingida por uma bomba-atômica — que tal? — e ele é o único homem que resta. O sujeito sai andando por aí, passam-se quatro ou cinco dias, até que ele se sente solitário. Não tem com quem conversar. Então vai até as ruínas de um prédio grande qualquer — e pula pela janela. Quando está passando pelo décimo-sexto andar, ele ouve um telefone tocar." Nunca ninguém riu mesmo da piada, mas o ponto principal ressoa forte. Ele jamais seria esse sujeito. E portanto, para os solitários apenas, canta a pergunta retórica: "Quando se está sozinho, quem liga para um céu estrelado?" [When you're alone, who cares for starlit skies?] Ele é que não, mas não mesmo. Quando estava só, a noite era uma merda, um buraco negro, um vácuo de amargura. A noite pedia companhia, pedia fortalecimento e reforço. Desde a década de quarenta, ele não topava enfrentar uma noite, qualquer noite, desacompanhado. De forma que convocava batalhões para beber, fumar e rir junto com ele. "Se há uma coisa que Frankie não entende é que o corpo precisa de um pouco de sono", reclamou um amigo quatro décadas atrás. Na ocasião, o New York Tímes declarou: "Ele trava uma batalha incansável contra ir dormir antes do nascer do sol." Inclusive na década de sessenta, brincando com seu incrível radinho transmissor-receptor, ele chamou a si mesmo de "Guerreiro da Noite". A guerra nunca
terminou, jamais.
Sono: chatice, amortecimento, fraqueza. Ele não dormia nem quando andava de avião. Acordado, estava consciente, o que era tudo. Esteja consciente, sempre dizia a Nancy Jr., e mandou até gravar essas palavras na medalha de São Cristóvão no primeiro chaveiro dela. "É a prioridade número um" diz ela. Ele rompeu mais madrugadas do que a maioria dos mortais. Cada uma era o seu triunfo, a morte de cada noite. Sobrevivera a mais uma. "Ele se sente renascer à luz da manhã", atestou certa feita sua filha Tina. Quando os horizontes se aclaravam, ele se rejubilava com os destroços da guerra. "Vejam só as cores!" dizia enquanto mostrava o brilho de milhares de sóis nascentes aos seus ofuscados acompanhantes. "Que tipo de azul você diria que é esse aí?" Ele chamava o matiz do céu que mais paz lhe trazia de Azul Las Vegas às cinco da manhã. "É preciso ver para crer" insistia com os incrédulos. Steve Lawrence, que viu o seu quinhão de Azul Las Vegas, afirma: "Eu já lhe disse que ele provavelmente é o último dos vampiros italianos." Como Frank conseguia: Poderosas Sonecas o sustentavam. Há muito, aprendeu a tirar sonecas nos ônibus que transportavam a banda pelas estradas perdidas. Daí em diante, não obstante os aviões, ele conseguia cair no sono em qualquer lugar, a qualquer momento, sentado ereto, e ainda mantinha o vinco das calças do seu smoking. Infortúnio para os ausentes. Mais infortúnio para os que saudavam a madrugada ao seu lado. Era aí que inúmeros homens desmoronavam, presos, pois ele não deixava ninguém ir embora. Ninguém podia bater na cama antes dele, e todos tinham que beber no seu ritmo até acabar. Esse assunto é penoso, mas de muito orgulho, para todos eles. Soltam grunhidos, mas adoram quando falam disso. Hank Cattaneo, que fiscalizou todos os aspectos técnicos dos seus concertos dos últimos anos, recorda: "Às quatro da madrugada, eu já estava cheio de Jack Daniel's, aí conseguia que um garçom colocasse água na Coca-Cola pra que ele achasse que eu ainda o estava acompanhando." Mas Sinatra sempre acabava descobrindo, pois era implacável nessa área: o chefe de turnés Tony Oppedisano, ou Tony O., com quase a metade da idade do Velho Frank, a quem acompanha de perto durante os últimos dez anos, diz: "Já passamos noitadas juntos em que ele enxugava urna garrafa inteira de bebida, e eu não ficava muito atrás. Ele ficava de olho. Porque de vez em quando dizia: 'Sua bebida está boa? Deixe-me provar.' Assim, ficava sabendo se eu não estava tomando chá gelado." Bastava a cabeça começar a descambar para um lado que ele dizia: "Ei! O que é que há? Acorde." Bastava levantar da mesa que ele dizia: "Pra onde você acha que vai?" Melhor desculpa:
"Ao banheiro." "Bom, neste caso, tudo bem" Frank permitia, mesmo que sob
suspeita. O grande e adorável Jilly Rizzo, que administrava
o bar preferido de Sinatra em Nova York e depois passou a fazer todas as
viagens junto com ele, sempre usava essa como despedida e depois sumia.
Havia outros que se aproveitavam do velho código de cavalheirismo
do Sinatra: Se uma das mulheres do grupo resolvia se recolher, quase todos
os homens presentes, menos Frank, se ofereciam para acompanhá-la
em segurança até a porta do seu quarto no hotel. Eles
costumavam empurrar uns aos outros, em disputa pela concessão da
partida. Mas muitos dos que se esgueiravam para longe eram chamados de
volta: "Deus que o protegesse se ele soubesse em que quarto você
estava hospedado", diz Cattaneo. "O próprio Frank ia lá
e acendia fogos de artifício bem diante da sua porta."
Deutsch recorda: "Éramos uma tripulação sonolenta, potencialmente amotinada, à mercê de um anfitrião resoluto que vigiava todas as saídas com olhos de águia. Bennett, sempre pragmático, arranjou a solução. Faríamos um rodízio. Dois de nós nos manteríamos afastados a cada noite. Não era perfeita mas funcionava bem o suficiente." Kurnitz, a quem Sinatra considerava o homem mais engraçado que conheceu, disse uma vez: "Frank é a única pessoa que o convida para uma festa de black-tie e, antes de desligar o telefone, diz: 'NÃO SE ESQUEÇA DE TRAZER OS ÓCULOS ESCUROS'." Kurnitz chamava Sinatra de Príncipe Careca, o que muito o divertia. Já perto do fim de sua vida, quando já estava bastante fragilizado, o roteirista ficava no Beverly Wilshire Hotel sempre que viajava para a Costa Oeste. Sinatra ia até lá e o tirava da cama às onze da noite para farras madrugada adentro. Preocupado, Deutsch falou para Frank: "Você vai matar o homem. Vai, mesmo." E Frank retrucou: "Não, Armando, eu o estou mantendo vivo." HISTÓRIA DE BOTEQUIM. FINS DA DÉCADA DE OITENTA Ele pregou uma no comediante Tom Dreesen. Dreesen, que passou doze anos abrindo shows para ele e o acompanhando de perto nesse período, estava de hóspede em Palm Springs na noite em questão alojado num dos bangalôs da propriedade de Sinatra. "Vamos tomar um drinque", disse Frank. Então eles pegaram um carro e foram para um botequim chamado Chaplin's, do filho de Charlie Chaplin. Dreesen recorda: "Não havia ninguém lá. Só um sujeito num canto afastado, e Frank e eu no balcão, de pé. O garçom estava fechando a casa. Ficamos conversando alguns minutos quando, de repente, uma mulher dos seus sessenta e cinco anos entrou correndo no bar. Ela disse: 'Com licença, com licença! Vocês têm uma jukebox aqui?’" Frank Sinatra se virou e olhou bem no rosto dela e falou: ‘Desculpe, qual foi a pergunta?' Ela repetiu: 'Eles têm uma jukebox aqui?’ Frank olhou à sua volta e falou: 'Não, acho que não.' Em seguida, como que pensando melhor, falou: 'Mas eu vou cantar para a senhora.' E ela disse: 'Não, obrigada!' E deu meia volta e foi-se embora." "O mais engraçado é que ele ficou olhando triste enquanto ela saía porta afora. Mas havia um sorrizinho em seu rosto. Eu no meio daquele silêncio desconfortável: ‘Talvez ela não o tenha conhecido.’" "Ele deu de ombros
e suspirou: ‘Ou talvez tenha.’"
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