Ingrid
Bergman não é apenas Casablanca. E nem deixaria de escandalizar
a própria Hollywood de resto tão pouco escandalizável
, com sua independência, bem ao estilo já conhecido de Greta
Garbo, que, como ela, era também sueca e virginiana. Assim, nessa
névoa, estão seus amores, conhecidos ou mais ocultos, a separação
do marido sueco absolutamente previsível, nas circunstâncias
e sua ligação tumultuada com o enfant gaté do neo-realismo
italiano, o diretor Roberto Rosselini.
Sobre
a atriz, é ainda Otto Friedrich que conta :
"Um
filme muito mais interessante, ganhador do prêmio dos Críticos
de Cinema de Nova York como o melhor filme estrangeiro de 1948, não
só tratava do nazismo como realmente começou a ser rodado
em Roma enquanto o exército alemão ainda estava em processo
de evacuação da cidade. Isso foi no final de 1944, e Roberto
Rossellini teve de fazer Roma: cidade aberta sem nenhum cenário
de estúdio, usando pedaços de filmes do mercado negro, e
a maioria dos atores eram amadores. Até então, o trabalho
de Rossellini para a indústria de cinema estatal de Mussolini tinha
envolvido muitos filmes de propaganda, como La neve bianca (1941)
e Un pilota ritorna (1942), mas ele se entusiasmou com o desafio
de filmar a ocupação alemã quase como documentário,
áspero, denso, cru e vivo.
Os
senhores de Hollywood ficaram indiferentes, pois faltava a Roma: cidade
aberta aquilo que eles gostavam de chamar de "valores de produção".
Entretanto, causou profunda impressão a uma das pessoas mais importantes
que o assistiu. "Havia sombras e escuridão, às vezes não
se conseguia ouvir, às vezes nem mesmo se conseguia ver", disse
Ingrid Bergman, ---mas na vida é assim também, (...) nem
sempre se consegue ver e ouvir, mas a gente sabe que alguma coisa além
do entendimento está acontecendo." A senhorita Bergman pediu a amigos
que lhe falassem sobre Rossellini, mas ninguém parecia saber de
nada. "Em 1948, os filmes estrangeiros não mereciam a atenção
de Hollywood", lembrou ela.
Alguns
meses depois, ela estava andando pela Broadway, sozinha, e viu um cartaz
anunciando Paisá (1946), seqüência de Rossellini
para Roma: cidade aberta. Ela entrou e assistiu ao que considerou
"outro grande filme"; no entanto o cinema estava praticamente vazio. Ela
própria estava cansada dos "valores de produção" de
Hollywood cenários elaborados, penteados sempre perfeitos, música
orquestral surgindo no fundo. Resolveu que queria fazer um filme com Rossellini.
Sendo a mulher que era, simplesmente escreveu-lhe uma carta: "Caro senhor
Rossellini, vi seus filmes Roma: cidade aberta e Paisá
e gostei muito deles. Se precisar de uma atriz sueca que fale inglês
muito bem, não esqueceu o alemão, ainda não é
muito inteligível em francês e de italiano só sabe
ti amo, estou pronta para fazer um filme com o senhor".
Qualquer
diretor no mundo teria telefonado imediatamente para convidá-la
a pegar o primeiro avião. A bela estrela de Casablanca e For Whom
the Bell Tolis (Por quem os sinos dobram) tinha ganho o Oscar por Gaslight
(À meia luz, 1944), e seu desempenho em Notorius (Interlúdio,
1946), de Hitchcock, foi tão glorioso que Cary Grant, co-astro do
filme, declarou na cerimônia de entrega do prêmio: "Acho que
a Academia deveria reservar um prêmio especial para Ingrid Bergman
todos os anos, faça ela filmes ou não.
Rosselini, porém,
nunca tinha ouvido falar dela.
Por
acaso, a carta chegou ao Minerva Films, em Roma, no dia em que o estúdio
pegou fogo. Alguém remexendo nos escombros achou a carta e a abriu.
Na época Rossellini estava movendo uma ação contra
o Minerva, por uma razão qualquer, mas uma secretária atenciosa
telefonou-lhe para dizer que tinha "uma carta muito engraçada para
você". Rossellini disse que não falava com o Minerva e desligou.
Foram necessários muitos telefonemas até que Rossellini concordasse
em ouvir a mensagem vinda de Hollywood, e muitos telefonemas mais até
que descobrisse o que representava o nome da remetente (dinheiro!); então
enviou-lhe por telegrama a resposta padronizada: "ACABEI DE RECEBER COM
GRANDE EMOÇÃO SUA CARTA, QUE CHEGOU NO DIA DO MEU ANIVERSÃRIO
COMO 0 PRESENTE MAIS PRECIOSO (
... )". E assim por diante.
Apesar
do detalhe coquete do "ti amo", parece que a senhorita Bergman não
tinha idéias românticas a respeito de Rossellini, mas, também
na vida profissional, ela era uma pessoa inquieta. Seu casamento, supostamente
feliz, com o médico sueco Peter Lindstrom vinha tendo problemas
havia algum tempo. Lindstrom gerenciava a carreira dela, pechinchava nos
contratos e dava as ordens em geral. Isso era bastante comum naquela época,
mas, embora a senhorita Bergman gostasse de se imaginar no papel de Nora
em Casa de bonecas, havia limites. Era regra de Lindstrom não admitir
que fotógrafos viessem à sua casa. Numa ocasião, a
senhorita Bergman achou mais conveniente ser fotografada em casa do que
no estúdio. Lindstrom ficou furioso quando viu as fotos impressas.
"Tudo
bem, errei de novo", disse a senhorita Bergman. "Mas todo mundo erra, você
comete erros, eu cometo erros...
"Eu...
Eu cometo erros?", repetiu o marido.
"Bem,
sim, você não comete erros?"
"Não",
disse Lindstrom. (Contando a cena, a senhorita Bergman acrescentou que
Lindstrom depois negou ter dado resposta.) "Por que eu erraria? Eu penso
cuidadosamente antes de fazer alguma coisa. Peso, pondero e, só
então, decido."
Essa
declaração convenceu a senhorita Bergman de que era tempo
de mudar. "Perguntei a Peter se ele fazia objeções a pedirmos
divórcio", lembrou ela. Ele certamente fazia. "Por que iríamos
nos divorciar?", perguntou. "Não tivemos uma briga séria.
Nunca tivemos desavenças." Então não se divorciaram,
não naquela ocasião. "Acho que eu estava só esperando",
disse ela mais tarde, "que alguém aparecesse para me ajudar a sair
daquele casamento."
O
homem que apareceu foi Bob Capa, fotógrafo húngaro,
então no auge da fama como um onipresente correspondente de guerra.
(As fotografias frontais de soldados desembarcando em meio à batalha
de Omaha Beach estão gravadas em nossa memória graças
a Capa, que tinha desembarcado primeiro para registrar a chegada.) Ao chegar
a Paris logo depois da guerra, para um tour pelas bases militares com Jack
Benny, a senhorita Bergman nunca tinha ouvido falar nos dois jovens que
enfiaram uma carta conjunta por baixo da porta do quarto dela no Ritz,
convidando-a para jantar. Um deles era Capa e o outro um soldado chamado
Irwin Shaw. Saiu com eles e ficou encantada Capa sabia ser irresistível.
Encontrou-o depois em Berlim e, de novo, em Paris. "E suponho", disse
mais tarde, "que foi aí que comecei a ficar apaixonada por ele."
Foi uma paixão intensa, mesmo durante as separações,
mas, como astro perambulante da revista Life, Capa não podia abrir
mão de sua carreira nem Bergman da dela. "Ele me disse: 'Não
posso me casar com você. Não posso ficar amarrado. Se me disserem
'Coréia amanhã' e nós estivermos casados e com um
filho, não serei capaz de ir para a Coréia. E isso é
impossível'." (Alguns anos depois, ele foi para o Vietnam e pisou
na mina que o matou.)
A senhorita
Bergman voltou ao trabalho. Ela sempre quis interpretar Joana d'Arc a
combinação impossível de heroísmo, misticismo
e martírio . mas o papel sempre se esquivava dela. Quando ela embarcou
para a América, Selznick telegrafou recomendando que dissesse à
imprensa em Nova York que estava chegando para interpretar Santa Joana,
mas um assessor de publicidade de Selznick foi esperá-la no cais
e avisou: "Não fale muito sobre Joana d´Arc 0 projeto nunca se
concretizou. Sete anos depois, o dramaturgo Maxwell Anderson telefonou-lhe
dizendo que estava "pensando (se) talvez um dia vocκ nγo gostaria de ir ΰ
Broadway fazer uma peηa"
"Sim,
claro que gostaria", respondeu ela. "Diga-me, sua peça é
a respeito de quê?"
"Joana
d´Arc", disse ele.
Ela
concordou mesmo sem ter lido a peça. E, depois de a ter lido, foi
dar um passeio com Anderson na praia de Santa Mônica e assinou o
contrato, ali mesmo na praia, enquanto Selznick e Lindstrom ainda estavam
negociando os termos com os agentes de Anderson. Na semana seguinte à
que ela partiu para ensaiar em Nova York, Selznick anunciou à imprensa
que ia fazer um filme sobre Joana d´Arc com Jennifer Jones. Esse
projeto também não foi adiante.
Joan
of Lorraine, de Anderson, não era exatamente sobre Santa Joana,
mas sobre uma companhia teatral ensaiando uma peça sobre Santa Joana.
A senhorita Bergman incitava Anderson a escrever mais sobre a heroína
e ele a atendia. Estreou na Broadway um produto híbrido dos mais
pretensiosos, mas a atuação da senhorita Bergman valeu-lhe
grandes elogios. The New Yorker, por exemplo, classificou-a de "talvez
incomparável no teatro do momento".
Victor
Fleming, que tinha dirigido a senhorita Bergman em Dr. Jekyll and Mr. Hyde
(0 médico e o monstro) em 1941, agora insistia com ela para filmar
a peça com ele. Os dois montaram uma companhia produtora independente,
com Walter Wanger como produtor. Entretanto, apesar de a senhorita Bergman,
mais uma vez, ter recebido elogios calorosos por sua interpretação,
o roteiro de Anderson continuava a ser um fardo. Quando ela viu o filme,
produzido em 1948, numa reprise de televisão, em 1970, descobriu
como era artificial. "Tinha aquele aspecto homogêneo e polido de
Hollywood", disse ele. "Todas as cenas de batalha foram feitas no estúdio:
as torres de Chinon e as cidadezinhas francesas eram panos de fundo pintados.
Não me achei nem um pouco parecida com uma camponesa. Parecia só
uma atriz de cinema fazendo o papel de Joana. Rosto limpo, penteado bonito.
(...) Ao pensar nisso, suponho que começaram aí minha rebelião
e ressentimento instintivos."
Ao
telegrama de Rossellini seguiu-se uma longa carta explicando seus métodos:
"Devo dizer que minha maneira de trabalhar é extremamente pessoal.
Não preparo um cenário, que considero uma limitação
terrível ao campo de ação. É claro que começo
com idéias muito precisas e uma mistura de diálogos e intenções
que seleciono e aprimoro à medida que as coisas vão caminhando".
Ele propôs também a idéia de um filme ao qual queria
dar o nome "Terra di Dio". Enquanto dirigia pelo campo, perto de Roma,
observou uma área cercada de arame farpado para pessoas desabrigadas
e parou para dar uma olhada. Um guarda mandou-o embora. Ele tinha notado
uma mulher que estava separada dos outros, loura, toda vestida de preto,
que lhe disse ser da Letônia.
Então o guarda o enxotou. "Fiquei
obcecado com a lembrança dessa mulher escreveu Rossellini. "Vamos
procurá-la juntos? Vamos visualizar sua vida?"
A
senhorita Bergman aceitou com entusiasmo o convite de Rossellini, mas estava
comprometida com um filme de Hitchcock, Under Capricorn (Sob o signo de
Capricórnio), em Londres, naquele verão. Talvez pudesse dar
uma escapada e ir à Itália discutir o assunto? Combinaram
encontrar-se em Amalfi, onde Rossellini estava com a amante, Anna Magnani,
a tempestuosa estrela de Roma: cidade aberta. Antes mesmo de conhecer
a senhorita Bergman, Rossellini tomou a precaução de recomendar
ao porteiro-chefe do hotel em Amalfi que todas as cartas e telegramas vindos
de Londres deveriam ser entregues a ele em particular e com discrição.
E, muito embora a senhorita Magnani também jamais tivesse encontrado
a senhorita Bergman, ela tinha suas suspeitas.
Quando o porteiro-chefe
recebeu o telegrama de Londres anunciando a chegada da senhorita Bergman
em Amalfi, achou que nenhuma mensagem poderia ser tão particular
que a famosa companheira de viagem de Rossellini não pudesse ouvir;
então foi ao restaurante onde Rossellini estava almoçando
e a senhorita Magnani pondo molho no espaguete e disse num sussurro teatral:
0 senhor disse que se recebesse um telegrama de Londres eu devia entregá-lo
em particular. Aqui está. (...)
"Ah,
grazie", disse Rossellini, do modo mais casual que pôde, enfiando
o telegrama no bolso, sem ler, como assunto sem importância. A senhorita
Magnani continuou misturando o molho ao espaguete.
"Então",
disse ela finalmente, segurando a travessa. "Está bom, hein, Roberto?"
"Ah,
si, si, grazie", disse Rossellini, todo inocente.
"Ótimo",
disse a senhorita Magnani. "Então pode ficar com tudo." E atirou
a travessa cheia de espaguete na cara dele."
Depois,
Roberto Rosselini e Ingrid Bergman fizem Stromboli. E o resto da
história é conhecido. Seu mais conspícuo resultado
é Isabela Rosselini.
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