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Na época em que o cinema de Hollywood ainda criava e se 
alimentava de mitos e de divas, ela — mesmo contra todas as evidências iniciais — se tornou uma. Mais que isso, ela se tornou a primeira integrante de um grupo seleto de divas "cult"  (ao qual seriam mais tarde incorporadas muito poucas, como Rita Hayworth, em Gilda, Bette Davis em A Malvada, Marilyn Monroe em Os homens preferem as louras e Quanto mais Quente Melhor, Kim Novak em Picnic e Um Corpo que Cai). 

Mas a carreira de Ingrid Bergman em Hollywood está pontilhada de atitudes firmes, paixões tórridas e lances de pura sorte. 

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Um exemplo é a forma como ela se transferiu do cinema sueco para o de Hollywood. Otto Friedrich conta, em A Cidade das Redes – Hollywood nos Anos 40, que David Selznick tomou conhecimento da existência de Ingrid por um ascensorista sueco que trabalhava no prédio onde funcionavam os escritórios de Kay Brown, representante do produtor em Nova York. O ascensorista contara à mulher de Brown que seus pais tinham ficado comovidos com um novo filme sueco, Intermezzo, e em especial com a heroína, uma jovem de 21. "Kay Brown foi diligentemente ver o filme e relatou ao patrão que a jovem atriz era "tudo o que havia de melhor". Selznick estava acostumado com os entusiasmos dela (foi a senhorita Brown quem insistiu em vão para que ele comprasse os direitos de Gone with the Wind ( ... E o vento levou)). Disse-lhe que comprasse a história, não a moça. Ela comprou as duas", conta Friedrich. 

Quando recebeu Ingrid pela primeira vez, Selznick iniciou um desfiar de insatisfações. Primeiro, implicou com a altura da atriz. "Meu Deus! Tire os sapatos!", lamentou-se ele, ao que ela retrucou que não iria adiantar nada, já que, com ou sem sapatos, media 1,73 metro. Depois, Selznick não gostou do nome e do sobrenome da nova contratada. Ingrid era uma coisa muito sueca, ou, pior ainda, com sabor muito germânico para uma época pré-guerra. Sugeriu que "Berriman" talvez fosse um bom nome. Ou que, embora seu nome de casada, Lindstrom, não servisse, talvez "Lindbergh" fosse uma boa escolha. 
"A senhorita Bergman resistiu a tudo isso. Disse que o nome dela era Ingrid Bergman, e quem não soubesse pronunciá-lo que aprendesse. Selznick não se deu por vencido "Bem, discutiremos isso pela manhã. Mas, quanto a essa maquilagem, as sobrancelhas estão muito grossas, os dentes não são bons e há muitas outras coisas para eu ver. Levarei você amanhã ao departamento de maquilagem e veremos o que podemos fazer..." A resposta da senhorita Bergman foi exemplar. Desistia. "Prefiro não fazer o filme", disse a Selznick, enquanto este ponderava. "Não vamos falar mais do as-sunto. Não há nenhum problema. Tomo o próximo trem e volto para casa." Selznick ficou impressionado, achou graça ou qualquer outra coisa. O fato é que decidiu trans-formar a intransigência da senhorita Bergman em promoção dele próprio. "Você será a primeira atriz 'natural‘", disse a ela. "Nada vai ser modificado em você. Nenhuma alteração", conta Friedrich.


 
O primeiro filme de Ingrid com Selznick foi precisamente...... Casablanca. E ela se beneficiou do extraordinário festival de equívocos e de inesperados que foi o filme, o qual, dizem muitos, teria sido o principal responsável pelo sucesso da película. À parte as primeiras vacilações para a composição do elenco (pensou-se inicialmente em George Raft para o papel de Rick Blaine — já que a previsão inicial do roteiro falava em um Rick durão e algo próximo de um ganster — e em Hedy Lammar para o de Ilza Lundt; depois, considerou-se a possibilidade de se chamar Edgar Rice para fazer Rick e Anne Sheridan para o papel de Ilza. Para encarnar Victor Lazlo, cogitou-se de Ronald Reagan). Além disso, todo mundo em Casablanca estava profundamente infeliz.

Humphrey Bogart, além de irritado por estar sendo obrigado a uma vez mais substituir Raft em um papel que este havia recusado, enfrentava a ira de sua mulher na época, Mayo, que o acusava de estar cortejando Ingrid Bergman e ameaçava matá-lo (comenta-se que foi essa a raiva mal contida que conferiu aquela mordacidade à sua interpretação, que proporcionou o desprezo sarcástico de algumas das falas do filme que ele tornou famosas). Já Ingrid Bergman preocupava-se com o fato de que ninguém parecia saber como o filme iria terminar. Afinal, ela ficaria com Rick ou viajaria com Lazlo? Se ninguém dizia isso a ela, como ia saber por quem estava realmente apaixonada?" Apenas interprete, bem... um meio termo", disse Curtiz. Anos mais tarde, Ingrid desabafou. "Era ridículo, horrível. (...) Todos os dias filmávamos de improviso. Todo dia nos entregavam diálogos e tentávamos pôr algum sentido naquilo. Ninguém sabia o rumo do filme." 

O curioso é que essa hesitação dos produtores, em relação ao destino da heroína do filme, num paradoxo, ajudou a interpretação da atriz, como ela reconheceu 30 anos depois: 

— Durante as filmagens, cheguei a me irritar. Queria saber com qual dos dois homens (Bogart ou Paul Henreid) eu ficaria. Um dia, pressionei o Curtiz: afinal, com quem e que eu vou ficar no fim do filme? Preciso passar isso à platéia. Mas ele também não sabia, e pediu que eu fosse levando a coisa de forma ambígua. Hoje percebo que o fato de eu estar indefinida em relação ao rumo da interpretação, refletia a realidade da personagem que, na história, também está confusa sobre o seu destino. A minha dúvida de atriz, assim, se refletiu de forma muito verdadeira no caráter da personagem. 

Nessa festa, no British Film Institute (que promovia uma sessão especial com trezentos convidados especiais do mundo inteiro, para comemorar o 30º aniversário de Casablanca), Ingrid Bergmann estava presente como convidada de honra. 

Logo depois do avião para Lisboa levantar vôo, as luzes da sala se acenderam, Ingrid Bergmann subiu ao palco e, diante do microfone, ainda emocionada, ficou alguns segundos em silêncio. Por fim deixou escapar: 

— Vocês viram? Que filme bom! 

Risos comovidos da platéia e uma estrondosa salva de palmas pela frase espontânea e verdadeira. 

— Fazia mais de 25 anos que eu não assistia ao filme inteiro, como um espectador, que senta e presta atenção do princípio ao fim — explicou ela. — Assim, foi emocionante. E, tantos anos depois, percebi como o filme foi bem feito. A ação é intensa, o espectador não se distrai nunca. Esta, na minha opinião, é a razão principal do sucesso perene do filme. 

Pode ser que a infelicidade de todo o elenco tenha sido o que fez de Casablanca um sucesso. É Otto Friedrich que conta : "A incerteza de Ingrid Bergman em relação a qual dos dois heróis devia amar não era um problema, como pensava, mas sim o aspecto essencial da personagem que interpretava. E sua ansiedade quanto à possibilidade de fazer Maria em For Whom the Bell Tolls — para o qual tinham destinado, logo quem, Vera Zorina, a ajudou a retratar Ilsa com aquele ar maravilhosamente nostálgico.

Quanto a Paul Henreid, que se queixava de que nenhum líder da Resistência desfilaria na Casablanca de Vichy de terno branco, saiu-se bem exatamente em função da espiritualidade ligeiramente pretensiosa implícita no tal terno branco. Até Max Steiner, encarregado de compor a música do filme, estava infeliz. Odiava As time goes by." 

Por sinal (talvez felizmente), Casablanca chegou ao final mais ou menos dentro do mesmo espírito. Era tanta a indecisão em relação ao final que os chefões decidiram filmar as duas possibilidades. "Iam filmar dois finais" —  conta Ingrid — "porque não conseguiam decidir se eu ia viajar com meu marido ou ficar com Humphrey Bogart.

Então, a primeira versão que filmamos foi aquela em que me despeço de Humphrey Bogart e sigo com Paul Henreid. E todos disseram: 'Pronto! É isso aí! Não precisamos do outro final'." 

— Tudo foi tão improvisado que acabou sendo uma surpresa para todos quando ganhamos o Oscar de melhor filme. Nunca se sabia exatamente o que seria filmado no dia seguinte — contou Ingrid Bergmann na noite do 30º aniversário do filme, em 1972, em Londres. — Havia só um esqueleto, um plano geral da película. O roteiro era refeito quase todos os dias. O diretor Michael Curtiz tinha discussões freqüentes com os produtores, pois até ele tinha dúvidas sobre o que seria o filme exatamente. 

Pelo menos uma das dúvidas da filmagem cruzaria as décadas seguintes e ainda hoje persiste: Ilsa Lund (Ingrid Bergman) deveria ficar no final com Rick (Bogart) ou com Laszlo (Paul Henreid)? 

— Só na ultima semana de filmagens ficou decidido que eu viajaria com Laszlo, deixando Rick em Casablanca — revelou Ingrid Bergmann. — Chegamos até a filmar um final em que Laszlo viajava sozinho e eu ficava com o Rick... 

Não teria sido um final melhor? — perguntamos todos nós até hoje. 

— Não creio. Acho que elegeram o melhor. Se Laszlo tivesse embarcado sozinho, seria decepcionante. — respondeu Ingrid Bergmann, convicta. 

Mas nós outros sabemos que Ilsa Lund não tinha essa certeza toda, e embarcou de coração partido. 

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  BERGMAN :
O MITO E SEUS AMORES
Ingrid Bergman não é apenas Casablanca. E nem deixaria de escandalizar a própria Hollywood — de resto tão pouco escandalizável —, com sua independência, bem ao estilo já conhecido de Greta Garbo, que, como ela, era também sueca e virginiana. Assim, nessa névoa, estão seus amores, conhecidos ou mais ocultos, a separação do marido sueco — absolutamente previsível, nas circunstâncias — e sua ligação tumultuada com o enfant gaté do neo-realismo italiano, o diretor Roberto Rosselini. 
Sobre a atriz, é ainda Otto Friedrich que conta : 

"Um filme muito mais interessante, ganhador do prêmio dos Críticos de Cinema de Nova York como o melhor filme estrangeiro de 1948, não só tratava do nazismo como realmente começou a ser rodado em Roma enquanto o exército alemão ainda estava em processo de evacuação da cidade. Isso foi no final de 1944, e Roberto Rossellini teve de fazer Roma: cidade aberta sem nenhum cenário de estúdio, usando pedaços de filmes do mercado negro, e a maioria dos atores eram amadores. Até então, o trabalho de Rossellini para a indústria de cinema estatal de Mussolini tinha envolvido muitos filmes de propaganda, como La neve bianca (1941) e Un pilota ritorna (1942), mas ele se entusiasmou com o desafio de filmar a ocupação alemã quase como documentário, áspero, denso, cru e vivo. 
Os senhores de Hollywood ficaram indiferentes, pois faltava a Roma: cidade aberta aquilo que eles gostavam de chamar de "valores de produção". Entretanto, causou profunda impressão a uma das pessoas mais importantes que o assistiu. "Havia sombras e escuridão, às vezes não se conseguia ouvir, às vezes nem mesmo se conseguia ver", disse Ingrid Bergman, ---mas na vida é assim também, (...) nem sempre se consegue ver e ouvir, mas a gente sabe que alguma coisa além do entendimento está acontecendo." A senhorita Bergman pediu a amigos que lhe falassem sobre Rossellini, mas ninguém parecia saber de nada. "Em 1948, os filmes estrangeiros não mereciam a atenção de Hollywood", lembrou ela. 
Alguns meses depois, ela estava andando pela Broadway, sozinha, e viu um cartaz anunciando Paisá (1946), seqüência de Rossellini para Roma: cidade aberta. Ela entrou e assistiu ao que considerou "outro grande filme"; no entanto o cinema estava praticamente vazio. Ela própria estava cansada dos "valores de produção" de Hollywood — cenários elaborados, penteados sempre perfeitos, música orquestral surgindo no fundo. Resolveu que queria fazer um filme com Rossellini. Sendo a mulher que era, simplesmente escreveu-lhe uma carta: "Caro senhor Rossellini, vi seus filmes Roma: cidade aberta e Paisá e gostei muito deles. Se precisar de uma atriz sueca que fale inglês muito bem, não esqueceu o alemão, ainda não é muito inteligível em francês e de italiano só sabe ti amo, estou pronta para fazer um filme com o senhor". 

Qualquer diretor no mundo teria telefonado imediatamente para convidá-la a pegar o primeiro avião. A bela estrela de Casablanca e For Whom the Bell Tolis (Por quem os sinos dobram) tinha ganho o Oscar por Gaslight (À meia luz, 1944), e seu desempenho em Notorius (Interlúdio, 1946), de Hitchcock, foi tão glorioso que Cary Grant, co-astro do filme, declarou na cerimônia de entrega do prêmio: "Acho que a Academia deveria reservar um prêmio especial para Ingrid Bergman todos os anos, faça ela filmes ou não.

Rosselini, porém, nunca tinha ouvido falar dela. 

Por acaso, a carta chegou ao Minerva Films, em Roma, no dia em que o estúdio pegou fogo. Alguém remexendo nos escombros achou a carta e a abriu. Na época Rossellini estava movendo uma ação contra o Minerva, por uma razão qualquer, mas uma secretária atenciosa telefonou-lhe para dizer que tinha "uma carta muito engraçada para você". Rossellini disse que não falava com o Minerva e desligou. Foram necessários muitos telefonemas até que Rossellini concordasse em ouvir a mensagem vinda de Hollywood, e muitos telefonemas mais até que descobrisse o que representava o nome da remetente (dinheiro!); então enviou-lhe por telegrama a resposta padronizada: "ACABEI DE RECEBER COM GRANDE EMOÇÃO SUA CARTA, QUE CHEGOU NO DIA DO MEU ANIVERSÃRIO COMO 0 PRESENTE MAIS PRECIOSO  ( ... )". E assim por diante. 

Apesar do detalhe coquete do "ti amo", parece que a senhorita Bergman não tinha idéias românticas a respeito de Rossellini, mas, também na vida profissional, ela era uma pessoa inquieta. Seu casamento, supostamente feliz, com o médico sueco Peter Lindstrom vinha tendo problemas havia algum tempo. Lindstrom gerenciava a carreira dela, pechinchava nos contratos e dava as ordens em geral. Isso era bastante comum naquela época, mas, embora a senhorita Bergman gostasse de se imaginar no papel de Nora em Casa de bonecas, havia limites. Era regra de Lindstrom não admitir que fotógrafos viessem à sua casa. Numa ocasião, a senhorita Bergman achou mais conveniente ser fotografada em casa do que no estúdio. Lindstrom ficou furioso quando viu as fotos impressas. 

"Tudo bem, errei de novo", disse a senhorita Bergman. "Mas todo mundo erra, você comete erros, eu cometo erros... 

"Eu... Eu cometo erros?", repetiu o marido. 

"Bem, sim, você não comete erros?" 

"Não", disse Lindstrom. (Contando a cena, a senhorita Bergman acrescentou que Lindstrom depois negou ter dado resposta.) "Por que eu erraria? Eu penso cuidadosamente antes de fazer alguma coisa. Peso, pondero e, só então, decido." 

Essa declaração convenceu a senhorita Bergman de que era tempo de mudar. "Perguntei a Peter se ele fazia objeções a pedirmos divórcio", lembrou ela. Ele certamente fazia. "Por que iríamos nos divorciar?", perguntou. "Não tivemos uma briga séria. Nunca tivemos desavenças." Então não se divorciaram, não naquela ocasião. "Acho que eu estava só esperando", disse ela mais tarde, "que alguém aparecesse para me ajudar a sair daquele casamento." 

O homem que apareceu foi Bob Capa,  fotógrafo húngaro, então no auge da fama como um onipresente correspondente de guerra. (As fotografias frontais de soldados desembarcando em meio à batalha de Omaha Beach estão gravadas em nossa memória graças a Capa, que tinha desembarcado primeiro para registrar a chegada.) Ao chegar a Paris logo depois da guerra, para um tour pelas bases militares com Jack Benny, a senhorita Bergman nunca tinha ouvido falar nos dois jovens que enfiaram uma carta conjunta por baixo da porta do quarto dela no Ritz, convidando-a para jantar. Um deles era Capa e o outro um soldado chamado Irwin Shaw. Saiu com eles e ficou encantada Capa sabia ser irresistível. Encontrou-o depois em Berlim  e, de novo, em Paris. "E suponho", disse mais tarde, "que foi aí que comecei a ficar apaixonada por ele." Foi uma paixão intensa, mesmo durante as separações, mas, como astro perambulante da revista Life, Capa não podia abrir mão de sua carreira nem Bergman da dela. "Ele me disse: 'Não posso me casar com você. Não posso ficar amarrado. Se me disserem 'Coréia amanhã' e nós estivermos casados e com um filho, não serei capaz de ir para a Coréia. E isso é impossível'." (Alguns anos depois, ele foi para o Vietnam e pisou na mina que o matou.) 

A senhorita Bergman voltou ao trabalho. Ela sempre quis interpretar Joana d'Arc — a combinação impossível de heroísmo, misticismo e martírio —. mas o papel sempre se esquivava dela. Quando ela embarcou para a América, Selznick telegrafou recomendando que dissesse à imprensa em Nova York que estava chegando para interpretar Santa Joana, mas um assessor de publicidade de Selznick foi esperá-la no cais e avisou: "Não fale muito sobre Joana d´Arc 0 projeto nunca se concretizou. Sete anos depois, o dramaturgo Maxwell Anderson telefonou-lhe dizendo que estava "pensando (se) talvez um dia vocκ nγo gostaria de ir ΰ Broadway fazer uma peηa" 

"Sim, claro que gostaria", respondeu ela. "Diga-me, sua peça é a respeito de quê?" 

"Joana d´Arc", disse ele. 

Ela concordou mesmo sem ter lido a peça. E, depois de a ter lido, foi dar um passeio com Anderson na praia de Santa Mônica e assinou o contrato, ali mesmo na praia, enquanto Selznick e Lindstrom ainda estavam negociando os termos com os agentes de Anderson. Na semana seguinte à que ela partiu para ensaiar em Nova York, Selznick anunciou à imprensa que ia fazer um filme sobre Joana d´Arc com Jennifer Jones. Esse projeto também não foi adiante. 
Joan of Lorraine, de Anderson, não era exatamente sobre Santa Joana, mas sobre uma companhia teatral ensaiando uma peça sobre Santa Joana. A senhorita Bergman incitava Anderson a escrever mais sobre a heroína e ele a atendia. Estreou na Broadway um produto híbrido dos mais pretensiosos, mas a atuação da senhorita Bergman valeu-lhe grandes elogios. The New Yorker, por exemplo, classificou-a de "talvez incomparável no teatro do momento". 

Victor Fleming, que tinha dirigido a senhorita Bergman em Dr. Jekyll and Mr. Hyde (0 médico e o monstro) em 1941, agora insistia com ela para filmar a peça com ele. Os dois montaram uma companhia produtora independente, com Walter Wanger como produtor. Entretanto, apesar de a senhorita Bergman, mais uma vez, ter recebido elogios calorosos por sua interpretação, o roteiro de Anderson continuava a ser um fardo. Quando ela viu o filme, produzido em 1948, numa reprise de televisão, em 1970, descobriu como era artificial. "Tinha aquele aspecto homogêneo e polido de Hollywood", disse ele. "Todas as cenas de batalha foram feitas no estúdio: as torres de Chinon e as cidadezinhas francesas eram panos de fundo pintados. Não me achei nem um pouco parecida com uma camponesa. Parecia só uma atriz de cinema fazendo o papel de Joana. Rosto limpo, penteado bonito. (...) Ao pensar nisso, suponho que começaram aí minha rebelião e ressentimento instintivos." 

Ao telegrama de Rossellini seguiu-se uma longa carta explicando seus métodos: "Devo dizer que minha maneira de trabalhar é extremamente pessoal. Não preparo um cenário, que considero uma limitação terrível ao campo de ação. É claro que começo com idéias muito precisas e uma mistura de diálogos e intenções que seleciono e aprimoro à medida que as coisas vão caminhando". Ele propôs também a idéia de um filme ao qual queria dar o nome "Terra di Dio". Enquanto dirigia pelo campo, perto de Roma, observou uma área cercada de arame farpado para pessoas desabrigadas e parou para dar uma olhada. Um guarda mandou-o embora. Ele tinha notado uma mulher que estava separada dos outros, loura, toda vestida de preto, que lhe disse ser da Letônia.

Então o guarda o enxotou. "Fiquei obcecado com a lembrança dessa mulher escreveu Rossellini. "Vamos procurá-la juntos? Vamos visualizar sua vida?" 

A senhorita Bergman aceitou com entusiasmo o convite de Rossellini, mas estava comprometida com um filme de Hitchcock, Under Capricorn (Sob o signo de Capricórnio), em Londres, naquele verão. Talvez pudesse dar uma escapada e ir à Itália discutir o assunto? Combinaram encontrar-se em Amalfi, onde Rossellini estava com a amante, Anna Magnani, a tempestuosa estrela de Roma: cidade aberta. Antes mesmo de conhecer a senhorita Bergman, Rossellini tomou a precaução de recomendar ao porteiro-chefe do hotel em Amalfi que todas as cartas e telegramas vindos de Londres deveriam ser entregues a ele em particular e com discrição. E, muito embora a senhorita Magnani também jamais tivesse encontrado a senhorita Bergman, ela tinha suas suspeitas.

Quando o porteiro-chefe recebeu o telegrama de Londres anunciando a chegada da senhorita Bergman em Amalfi, achou que nenhuma mensagem poderia ser tão particular que a famosa companheira de viagem de Rossellini não pudesse ouvir; então foi ao restaurante onde Rossellini estava almoçando e a senhorita Magnani pondo molho no espaguete e disse num sussurro teatral:  

– 0 senhor disse que se recebesse um telegrama de Londres eu devia entregá-lo em particular. Aqui está. (...) 

"Ah, grazie", disse Rossellini, do modo mais casual que pôde, enfiando o telegrama no bolso, sem ler, como assunto sem importância. A senhorita Magnani continuou misturando o molho ao espaguete. 

"Então", disse ela finalmente, segurando a travessa. "Está bom, hein, Roberto?" 

"Ah, si, si, grazie", disse Rossellini, todo inocente. 

"Ótimo", disse a senhorita Magnani. "Então pode ficar com tudo." E atirou a travessa cheia de espaguete na cara dele." 

Depois, Roberto Rosselini e Ingrid Bergman fizem Stromboli. E o resto da história é conhecido. Seu mais conspícuo resultado é Isabela Rosselini.
 

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