Enfim, tudo começa numa noite fresca de meio-maio. O passeio pelo calçadão da praia é mais uma fuga do que um encontro. Lembranças são varridas e imediatamente substituídas por outros pensamentos que por sua vez também são esquecidos e trocados.

Ninguém perde nesse escambo de faz-de-conta. É o que é e fica assim mesmo. Um passeio rápido, olhos que não fitam, pernas que não param, só desviam. 

Mas as pernas tentam a parada indiscreta, o pescoço tenta virar a cabeça, os olhos querem ver tudo ao contrário, tudo do avesso e a memória quer lembrar o nome mas ele continua esquecido.

Qual é mesmo?

Mais um adeus, mais um não saber, mais um deixar passar. 

Mais um menos um. 

Tudo contabilizado, o balanço está certo e talvez seja isso o que importe. 

Os pés empurram os dedos e puxam os calcanhares e tudo se arrasta outra vez, para adiante de uma virada de cabeça que não aconteceu. 

O ver ao contrário. O olhar pelo avesso. Nunca acontecia nada, sempre.

Mas isso agora não ia embora, não era trocado nem substituído. Como num caleidoscópio quebrado, de ponta de girar azul e cilindro vermelho de papelão amassado, um brinquedo que não se pode trocar, o pensamento é mais um punhado de cristais entalados.

E no entanto o balanço continua certo. 

É a matemática da geometria do não virar, do não olhar, do não ver e do não pensar. Apenas dedos, pés e calcanhares flutuando, sem pisar nas pedras portuguesas do calçadão da praia de copacabana.

Mas copacabana também é apenas um nome que a gente às vezes não consegue lembrar.

E isso é tudo o que importa.

Paul Silva é o tipo do cara que se ganhasse de repente um milhão de dólares, ia querer se livrar dele o mais rápido possível, com mulheres, drogas e rock and roll.

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