| Quieta, quieta, preciso ficar
imóvel, bem quieta, em qualquer lugar, só, sem vozes, sem
nada para ler, sem ruídos, sem música - imagino uma casa
vazia com um imenso quarto vazio com uma cama no meio, esperei alguém
lá uma vez, mas nunca marquei esse encontro porque eu sei que o
quarto das cortinas brancas ao vento existe nas minhas memórias
do que nunca existiu somente para que eu fique sozinha, no meio da cama
larga, encolhida e quieta -, quem sabe assim eu enfim ouça os meus
próprios pensamentos, que nem sei quais são. Há muito
tempo não penso pensamentos que sejam meus. Há muito tempo
não tenho recordações de algo que tenha acontecido.
Às vezes, os meninos brincam
comigo, dizendo que somos o Quarteto Fantástico dos desenhos animados,
e que eu sou a Mulher Invisível. Eles brincam com as minhas ausências,
com a solidão a que me entrego às vezes no meio de uma festa,
mas eu sei que sou invisível para mim, porque esse não-ser
é a única coisa não virtual que sei de mim.
Eu não vivo num "mundo
interior" cheio de profundas reflexões, como eles pensam, vivo no
meio do quarto vazio com a cama no meio que há em mim, decorado
por recordações que não tenho da infância, descrenças,
amores perdidos, sofrimentos que não vivi, palavras não escritas,
frases que fui incapaz de dizer, gestos de carinho que não fiz,
uma arquitetura de interiores displicentemente construída de coisa
nenhuma, onde vagam pessoas que se foram, outras que nunca existiram, um
filho que não tive e meus gatos mortos.
[mesmo assim, há em mim
um sorriso tímido e secreto quando ouço histórias
de amores que se realizam. Um sorriso de satisfação de quem
sabe que é possível, ainda que não o seja comigo,
e assim junto mais peças à minha coleção: as
esperanças alheias]
Para mim, virtual era a vida muito
tempo antes das salas que só existem na tela. Eu sempre soube.
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