Josemar está amando

Josemar abre o chuveiro e deixa que a água escorra um pouco até aquecer. No espelho, arranca um fio da sobrancelha que teima em desalinhar. Entra no boxe cantando: ele está na minha vida porque quer, eu estou pro que der e vier. Cala-se. A letra da música, cujo sentido subitamente compreende, faz passar uma breve sombra de tristeza por seus olhos. Recupera-se logo, ânsia de cada noite de domingo. Logo virá Waldomiro. Waldomiro, sua barba por fazer, seu hálito de cerveja, suas mãos rudes de operário. Josemar acaricia o próprio corpo, devagar, mas cadê a aspereza dos calos, a quase brutalidade do toque?

Enxuga-se, passa um desodorante roll-on sem cheiro, nem Josemar nem Waldomiro gostam de perfume, excitante é o cheiro dos corpos. A toalha é suficiente para secar os cabelos bem curtinhos. Mete-se num roupão bem a tempo de atender à porta, leve, gostosa taquicardia.

Waldomiro chega como sempre chega, há quase um ano: oblíquo, envergonhado, evitando os olhos de Josemar. Vem como quem não quer vir, vem como quem faz favor, entra calado, senta-se longe, no sofá, olho na televisão. Como sempre, é preciso que Josemar vá até ele, lhe sorria com os olhos e com todos os dentes, beije a bochecha de pedra-pomes, passe os dedos em seu cabelo. Quer comer, amor? Tem frango. Quer uma cerveja?

Olho na TV, mesmerizado, Waldomiro segue mudo quando Josemar se aninha junto a ele e deita a cabeça no seu colo. Para Waldomiro, o gesto se dá em outro tempo, em outro universo, a mão esquerda segurando o copo, a direita sobre o encosto do sofá. Josemar não se importa. Josemar nada pede, Josemar nada cobra. Apenas passa docemente os dedos sobre a coxa de seu homem, gesto longo e contínuo, e encosta o rosto no pênis escondido sob o jeans ordinário. Sem pressa, sem ansiedade, Josemar faz brotar excitação em Waldomiro. Levanta a camiseta dele, pousa a boca sobre a barriga peluda e dura, toca-a com a ponta da língua.

Quando se beijam, é Josemar quem beija. Waldomiro acede. Waldomiro consente. São as mãos de Josemar que procuram infrenes o corpo musculoso debaixo das roupas, e o agarram com força, para machucar. Waldomiro está vencido.

Madrugada alta, na luz indecisa que vem pela janela, Josemar vigia o sono rude de Waldomiro, seu ressonar pausado, boca entreaberta. Os olhos de Josemar se molham enquanto a mão medrosamente toca seu cabelo. Como ama esse cara!

Levanta, veste-se em silêncio, vai à padaria que acabou de abrir, compra pão, leite, queijo, presunto, um sonho com creme. Faz café, arruma a mesa ouvindo Waldomiro no banheiro. Waldomiro senta, come com apetite, toma café com leite sem pronunciar palavra, sem olhar para Josemar. Sete horas. Waldomiro pega às oito, precisa ir. Josemar o leva até a porta, Waldomiro sai com um tchau, sem um beijo, sem um toque.

Josemar arruma tudo, põe as sobras na geladeira. Uma ducha rápida, vestir-se, sair quase correndo, a viagem no metrô lotado, durante a qual só pensa em como é feliz de ter Waldomiro, ainda que só nas noites de domingo, e em como isso podia durar para sempre, para sempre.

Não lhe importa a ameaça humilhante de toda semana:

— Seu Josemar, toda segunda-feira o senhor chega atrasado! O senhor dê jeito na vida, ou acaba indo para o olho da rua!

 

 

Sergio de Castro Neves
 é funcionário público. 
Nasceu no Rio de Janeiro
 e ainda não escolheu onde vai morrer. 

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