LIVROS
 

o sangue das frutas
a hora cinza
poemas de uma prisão
manhã do século
sangue na aurora


 
  O Valter me acompanhava em todas as dores noturnas. Se alegrava comigo nos risos diurnos. Me empurrou quando hesitei na beira da corda bamba. Me amparou quando quase despenquei em muitos abismos. 

  A gente trocava nossas histórias mais íntimas, nossas cores, e muitos, muitos sonhos. Eu me lembro dele dormindo num cantinho da minha sala, enrodilhado na Magda, quando os dois nem tinham onde viver a paixão alucinante que os consumia. Eu me lembro dele numa madrugada no Bixiga dizendo que ia chorar comigo meu último amor fracassado.

  A gente planejava envelhecer juntos.

  A gente planejava ser eternos juntos.

  Não deu. O Valter precisou ir mais cedo. Não tinha nem 40 anos quando seu coração do tamanho do mundo achou que era hora de parar.

  Ele deixou comigo seu último livro.

  Eu fiquei tão puta de ter sido abandonada aqui sozinha que enfiei as páginas datilografadas num baú qualquer, tranquei e joguei a chave fora.

  Fiquei mais de dez anos sem me lembrar desse livro.

  Mas o Valter veio uma noite dessas sentar-se comigo à beira da vida. Ele continua com aquelas penas de pavão que tanto amava abrir e exibir. Seu riso ainda é doce como o quintal do avô das infâncias presas pra sempre nos mais lindos de seus poemas. Ele ainda chora quando se lembra do sangue na aurora.

Com amor

Liz
                  que como você suspeitava
                  tinha uma gata vermelha escondida na alma.
 

Sampa de red outubro/1997/2000