| O
SANGUE DAS FRUTAS
1975 - 1978
pela morte
das aves fáceis
por saber
que a manhã
não é mais
o libertar
da noite
para Magda
o resgate
das plantas
verdadeiramente
carnívoras
os personagens
deste livro
como todos
os expulsos da República
não
estão fora dela
quanto mais
expulsos
mais lhe pertencem
pois esta
é a natureza da República
e a contaminam
para Lizete
anjo clandestino
o dilúvio
de Rimbaud
e a maldição
que veio depois
pra desorganizar
o espírito
o poema de
amor traz manchas de óleo
Baudelaire
ainda pode ser visto
no final das
tardes
passeando
em alguns bairros periféricos
desta capital
o poema é
a destruição da vigência
CAMINHO SOB
LUZES AMARELADAS PELO TEMPO
À BUSCA
DA ESCURIDÃO MATERNA E PATERNA
ONDE SE ESCONDE
O MEU PRONOME PESSOAL
ONDE ESQUECI
MEU PRIMEIRO MOVIMENTO MANUAL
ANTES DA SEPARAÇÃO
ENTRE PRONOME E VERBO
com uma aranha
negra refazendo teias antigas
uma serpente
cerebral que iludiu a criação
perseguido
pelos cães do sonho e da realidade que devoram
os anseios
e carnes humanas antes que se encarnem em ave noturna
brotando pra
funcionar sua serpente negra que se casou
com uma aranha
abandonada no interior dos anos
estrangulador
de aves-relógio pra roubar alguns gerúndios a mais
renascendo
do óleo dos rios a mulher das águas irmã das serpentes
reatando o
feijão à flor na escuridão proibida
na praça
abandonada
no pequeno
quarto do hotel do exílio
com meu veneno
para sempre
feito um rio
sem entardecer de brilhos
entre suas
selvas
no ato pétreo
de caminhar
feito rio
refazendo-se em rio sempre
mão
lavando coisa alguma
de rio negando
o mar
de rio por
sua esperança de rio
A AUGUSTO DOS
ANJOS
as paredes
do estômago espremem a cabeça de uma criança morta
cujo corpo
ainda pensa entre as grades do crânio
que no intestino
nascerá uma flor
PRA SER O CORPO
a modinha dá
início ao final do século
o punhal da
tarde
coagulado
na memória
que bebi no
chapéu de meu avô
*******
as palavras
afiam a alma
para ser
um punhal
cravado no corpo
pra ser o corpo
que é
o ser do punhal
*******
a magia das
palavras sem mágicas
faz a faca
dos teus olhos
corta a veia
dos teus seios
brota um sol
entre tuas tetas
recolho a terra
em teu útero
durmo em teu
estômago
ANTONIO BITUCA
uma criança
vermelha como nuvem
se precipita
uma criança
feito planta
incêndio
raízes
um braço
feito lança
uma criança
pontiaguda como ave
te espeta
à beira
de um abismo
e voa
FRUTO
abiu
fruto do abieiro
fruto do dicionário
da infância
árvore
sapotácea da América Equatorial
além
do dicionário
branco temperado
por dentro
equatorial
quanto o quintal
de meu avô
branco guardando
a infância negra
amarelo liso
externo chamando
ESTAVA SENTADA
NA PEDRA DA BARRIGA MATERNA
CHEIRAVA A
MARESIAS NOTURNAS
CORTAVA A
NOITE COM SEU GRITO NAVALHA EXÍLIO DE ESCARPAS
TRAZIA APENAS
ESTA PEDRA DO MUNDO DO FUNDO DO ENIGMA
NASCIMENTO
Mariana amanhecendo
pelo mar
pela mão
do poeta Joaquim Cardoso
Mariana escondendo
seus primeiros ovos de tartaruga
enterrando
os primeiros segredos de seu mar
Mariana maré
Mariana vela
branca anunciando pazes e peixes
emergindo
dos livros subterrâneos
Mariana folha
branca
onde termina
a luta entre deus e o diabo
Mariana a distribuir
novos mistérios
mulher dos
dilúvios e das escarpas
Mariana amante
dos bagres e dos peixes miúdos
Mariana nascendo
dos homens condenados à morte
Mariana tateando
as paredes deste mundo
ROCK NA VITROLA
não
voltarei a me sentar nos quintais antigos
nem chupar
docemente a carambola amarga do galinheiro do meu avô
o abiu me
foi uma tarde branca transitória
estou quase
nu
com o chegar
das novas gerações
OLHANDO AGORA
A TUA FOTOGRAFIA
Quando olhávamos
o vento nas cortinas
e a oscilação
da linha do horizonte
quando nesta
parte do século
as casas térreas
intercalavam-se
com os terrenos
baldios formando a rua
quando tua
mãe visitava a benzedeira
e às
sextas-feiras escrevíamos mais uma página
do nosso romance
precocemente sombrio
cujos frutos
ficaram para sempre
sobre a grama
morna
dos nossos
desejos submersos
FECHADO PELA
POLÍCIA
o corpo forte
branco
de minha tia
sob o chuveiro
das minhas férias
as coxas lisas
de minhas
primas
sob a caramboleira
o primeiro
gozo
com medo de
minha avó
que vinha
dar comida aos pássaros
pela boca
de Zé Lumumba
que mais tarde
foi morto pela polícia
e tinha ódio
de minha tia
de chuveiros
de coxas lisas de carambolas
finalmente
o meu corpo nu
comprimido
na fechadura de um templo antigo
que há
muito não se abre mais
ILHA PORCHAT
pra onde fugíamos
em nossas
bicicletas voadoras
& os primeiros
amantes
que desciam
escarpas íngremes
pra se dilacerarem
sob as grandes
rochas
que sustentavam
algumas mansões
sombrias
criminosas
ESCOLA
Maria Batalhão
que exigia
fila ordeira
no matinho
que dava pro Orfanato
ensinou-nos
que o mundo
gira
& o mijo
amargo
das noites
altas
CONQUISTAS
Ana Maria era
o menino
mais forte
da minha rua
quando atacávamos
uma rua adversária
ela sempre
trazia duas escravas
penduradas
no rabo
levava-as
pra cabaninha
em cima da
cajamangueira
depois as
devolvia já magras sem luz
pros guerreiros
famintos que as esperavam
em volta da
fogueira
nos ensinava
alguns truques
segredos que
guardamos até hoje
no fundo do
nosso carcomido
agradecido
coração
WEEK-END
primas no quintal
maracujás
carambolas abius
tias na varanda
PRAIA DO BOQUEIRÃO
& o português
de bigodes fortes
e corpo esguio
levantou-se
perante o nosso cerco
de defensores
do coração de jesus
que mamãe
guardava na sala
mostrando
as pernas de sua amante
e o seu grande
coração peludo
era bem maior
que o mundo
& nos
disse que a sua amante
era Messalina
nossa mãe
ou o esperado
menino de olhos azuis
que geralmente
pinta no final dos tempos
& a delícia
áspera dos corpos
rolando na
areia morna
de um final
de tarde
feliz
MOMENTO DE
PENUMBRA
& me prendeu
os braços
contra as
grades que davam pro terraço
na pequena
sala
onde seu pai
conversava sexta-feira
com os espíritos
JUNINHO
o pai vendo-o
fraco e delicado
com aqueles
olhos femininos
resolveu mandá-lo
pr’um curso de ginástica
que acabou
sendo o seu primeiro amor de menino
amante dos
grandes músculos
das noites
quentes
onde as pernas
morenas despertavam pela luz
suas bundas
aquáticas
o pai vendo-o
forte e feminino
arrancou-lhe
aqueles olhos
do menino
que nunca
mais eu vi
O RETORNO DAS
SOMBRAS
Juninho voltou
um dia vestido de filha
de santos
dinâmicos
pra nos dizer
que só
as sombras retornam
depois tomou
um bonde antigo
que se perdeu
odalisticamente
pelo mundo
LEMBRANÇA
Vilma era forte
& lutava
jiujitz
TRADUZINDO
EM MIÚDOS
Dna. Elvira
nas tardes
de catecismo
& das
antigas balas de mel
quando Deus
escondia
a sua face
clara de sol
no outro lado
do mundo
nos dizia
que a punheta
era pecado
mas havia Vilma
com suas pernas
lisas morenas
seu andar
de nadadora
sua arrogância
de lutadora de jiujitz
& Juninho
com a sua mão forte delicada
que amava
todos os meninos
& os compreendia
quando eles
ainda eram nuvens
veio a noite
vieram as
árvores & as folhagens
& Dna.
Elvira foi pro inferno
O FIM DA PRIMAVERA
as mães
gritavam das janelas
os pais haviam
chegado pro jantar
os filhos
retornavam
docemente
sangrando pelas pernas
com os aromas
das folhagens
qie cercavam
a última praça
da nossa infância
os filhos
retornavam das folhagens
& as mães
gritavam das janelas
& os filhos
retornavam das folhagens
& as mães
gritavam das janelas
pra aquela
praça vazia escura
onde o vento
fazia as últimas flores
da primavera
se balançar
CABARÉS
os cabarés
da rua General Câmara
com suas damas
volumosas
acetinadas
vermelhas
coxudas
que se casaram
com um motorneiro
de bonde
que havia
sido trombonista de vara
são
verdadeiros
mas já
anunciaram o fim do mundo
& hoje
moram na cachola
desmemoriada
dos deuses
que se evaporaram
nas nuvens
da minha adolescência
DAMA DAS ESSÊNCIAS
(com lembrança
de Murilo Mendes)
a última
face da cauda da serpente
a vibrar maracas
num cabaret
de nuvens
o último
corpo úmido incandescente
que me espera
há séculos
num lençol
de linho
o último
corpo nu
& os primeiros
leites venenosos
no grande
berço da vitória
o último
leite vivo
com as cobras
que o dilúvio revelou
A ÚLTIMA
NOITE
na última
noite
as irmãs
se deitaram
& se rasgaram
dos seus ventres
saíram
barcos úmidos
montanhas
submersas
com suas lamas
serpentes
a patinar
sob luzes
fosforescentes
escorregadias
pela manhã
as irmãs
expeliram
o mar
que lhes restava
foram encontradas
risonhamente
magras
mortas
em seus corações
a relva brotava
dos seus lábios
as trepadeiras
decorriam
vaginais
viçosas
tudo inexplicavelmente
úmido
limos nas
paredes
bolor nos
quadros
das últimas
revoluções
a última
noite
unilateralmente
eterna
INCURSÃO
MARÍTIMA
quando o teu
corpo nu
se esconder
nas trevas
já
sabes
ele surgirá
do lado oposto
do universo
& de teus
neurônios
brilharão
os novos raios
de sol
quando um grito
grego africano
se ouvir na
praia
já
sabes
REMELEXO CAVALGADA
te remexes
dentro de mim
mais do que
aquele dia
em que ligaste
as bocas do fogão
& te consumiste
por inteira
teu corpo
grande caboclo
tuas pernas
ainda reluzentes sob a luz
cresce cresce
mais que sombra dentro de mim
& mal
cabe
assim te agarras
em minhas células
& reinventas
o maxixe terrível noturno
em que uivo
& me acordo
cercado de anjos clínicos
que te puxam
como um câncer
& nada
podem contra ti
viúva
de São Jorge que me cavalga
como a um
cavalo roubado
tu que perdes
a máscara de família
quando me
arranhas
com tuas unhas
de esmalte vermelho
que nunca
se acaba
iemanjá
da volúpia da minha infância
da minha adolescência
da minha eternidade
que remexes
dentro de mim
todas estas
vozes
que fazem
parte de tua infinitude
eu que mal
lembro o teu rosto
O ÚLTIMO
POEMA
sabor de lua
morna a te crescer no ventre
a te fazer
crescente sol de moreno íntimo
produto de
percurso líquido
poder explosivo
de serpente do último bote
onde as metáforas
se diluem
os campos
se esgotam os mares se esvaziam
os músculos
são brancos
& se dirigem
para o incolor pro infinito
onde nada
é literário & o tempo não respira
& o literário
é isto re-posição do bote
para o nada
para o íntimo
pra ser literário
de novo & para o nada para o íntimo
circularidade
obliquidade espiralidade asas
para a morte
onde danças
o despertar
do primeiro & último
mágico
num balancê de nuvens
que se esvaem
como a minha literatura
que nada vale
comparada ao teu suor
tu pavão
dourado a balançar ostensivamente o rabo
na manhã
da minha morte
tu a espera
da explosão dos meus micróbios
onde finalmente
as imagens se dissolvem
porque te
fizeste absoluto em meu caminho
& o vento
já invade o buraco fundo dos meus olhos
tu
já
que não és
nada
SHINING ALONE
lembro-me de
tua lua branca
sentada sobre
o muro
anunciando
os primeiros
pêlos da noite
o sol já
se tornava escandinavo
por detrás
do mamoeiro
metáforas
fechavam os seus ovários
o último
fio de sangue
escuro escorria
pelo céu
os frutos escorriam
com a noite
SHINING ALONE
II
tias e primas
morenas ocupavam
todos os espaços
do meu sonho
até
que rompeste num ato acrobático
de leoa de
circo varando
o círculo
de fogo
e depois o
círculo de pano
onde brilhava
escrito o teu nome
rasgando-me
a lembrança e a tua imagem
tomou a forma
diluída de um pássaro
que nunca
mais foi visto
OLHANDO A TUA
FOTOGRAFIA NOVAMENTE
teu olhar tua
lua teu conhaque
cada trago
que bebo de teu gesto
me faz lembrar
um pequeno
poema
que li numa
cidade antiga
onde nasci
onde nossas
pernas eram cobertas
pelas ondas
do entardecer
marítimo
de espumas
cintilantes
e as palavras
se quebravam
sobre as ondas
nascendo pedras
no caminho
onde havia
um apelo
indecifrável
tua
lua
teu conhaque
O BEIJO ÚLTIMO
o primeiro
beijo foi
que nem areia
movediça
afogamento
inevitável
o primeiro
beijo
foi da boca
incompleta
de Dalva
que tinha
a saliva grossa
digestão
química da noite
o primeiro
beijo
teve suas
dores de peito
a de Dalva
com seu desafinado
de flautas
e a minha
que guardo
no peito eternamente
o primeiro
beijo
teve efeitos
catastróficos
Dalva morreu
logo depois
e eu continuo
vivo até hoje
VIAGEM AO SEIO
DE MACHADO
a Aníbal
Machado
Duília
morta a séculos sob o martelo das muralhas
no martelo
dos minutos da adolescência
Duília
pétrea estrela presa
na presa dos
meus olhos pedregulhos
no trem dos
perdidos anos que nos separam
os seios gritam
descobrimos
Duília pelas suas pontas de Maria
rompendo as
grades de pedra
fuga de pássaro
rastro e sangue
trilhando
sonhos luzes
dor de bicho
interno percorrendo o íntimo
quando cheguei
à praia
o mar ardia
as feridas do pensamento
era necessário
conquistar a física das infâncias
os seios de
Duília marejando os primeiros leites
(Duília
passageira destes anos mortos)
espumando
o primeiro beijo
que um trem
em sua presa de trilhos para sempre
cortou ao
meio
Duília
cidade antiga e inacessível
é necessário
conquistar todas as cidades
remover todas
as muralhas
encontrar
Duília nos braços do amante milenar perdido
entrelaçados
entre o amor e o medo
quando da
chegada dos primeiros destacamentos de homens armados
BANHO DE LUA
noite alta
céu risonho
um beijo amargo
& um besta
a mais na vida
VERÃO
77
teu corpo foi
soterrado
os homens
que amaste estão soterrados
nossas vidas
estão soterradas
naquela praça
onde não
há mais espaço
pra tanta
gente
a vida é
dura meu amor
a vida é
dura
as palavras
não têm mais espelhos
não
renascem mais
os mistérios
das fontes límpidas
adeus sonetos
de reconciliação
adeus pequenos
poemas bucólicos
adeus palavras
deslizando na nudez
aqui termina
o poema
aqui termina
o conhaque
mas a vida
a malograda
vida
continua
PAUPÉRIA
a Torquato
Neto
talvez te transportem
na noite
alguns jovens
de fogo
de cabelos
de chamas apagadas
talvez te lêem
mãos
pelos sovacos
pois as portas
do engenho
de dentro permanecem
fechadas
não
descobrem o dia
e toquem um
baião na Nicarágua
talvez a vida
continue
e brilhe
a mesma estrela
de ontem
que se apaga
com a luz
do banheiro
enforcada
no cano
talvez o provérbio
vença
& não
seremos mais nada
DESPEDIDA
homenagem
à Praça da Luz
as luzes de
mercúrio
envenenam
os nossos últimos morcegos
a lua é
de mercúrio
e a vida
não
é mais o termômetro
de nossa febre
adeus morena
adeus minha
ave rara
que aqui faz
esta imensa
falta de música
no dia em que
você se lembrar de mim
procure-me
ao pé
das árvores
estupidamente
floridas
pra desenterrarmos
o nosso piano
sinistro
adeus morena
e não
se esqueça
de apagar
a luz.
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