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SANGUE
NA AURORA
"Cómo
vai a olvidar
los
que las nubes aún pueden recordar?"
Nicolás
Guillén
"A
vida muda
a
vida muda o morto em multidão"
Ferreira
Gullar
a aurora
estava sobre a mesa
se trazia
a linha certa do horizonte
não
importa agora
a aurora
estava sobre a mesa
ferida
de anos de luta
este grande
navio sem nome
que já
havia percorrido selvas inteiras
a aurora
estava sobre a mesa
prometendo
formas de luta
e novos
raios de sol sobre as casas
a aurora
se comprimia na noite imensa
no Alto
da Lapa
no mês
de dezembro do ano de 1976
pouco se
sabe sobre esta aurora
fechada
nas sombras das bocas
sabe-se
que é clara
e só
pode ser executada
por aqueles
que sangram
nos dias
terríveis de fábrica
nos latifúndios
dos séculos
pelo cadáver
da posse da terra
e até
na minha pequena solidão urbana
sabe-se
que esta aurora
estava
de pé
na cabeça
daqueles que se sentavam
na mesa
imensa
no Alto
da Lapa
no mês
de dezembro de 1976
e mal se
sabe como
o relâmpago
do cerco se instalou
a surpresa
do ódio se instalou
as bombas
os tiros
o peso
das máquinas
as feridas
de casca
extraídas
do dia de trabalho
dos homens
que dormem
e os mortos
no chão
o sangue
no chão
o chute
no morto no chão
a gosma
do ódio
o mau hálito
da velha crueldade
reproduzida
em escala ampliada
no Alto
da Lapa
no mês
de dezembro de 1976
e o morto
proibido porque vivia
não
noticiado porque vive
na sua
aurora de sonhos
sangue
que não conseguem apagar
porque
supera os homens
e os põe
vivos
sangue
que se encarna
nos esgotos
da noite
e nos calos
das mãos
sangue
simples dos subúrbios
reproduzido
em escala mais ampliada ainda
sangue
na mata sangue no mar
sangue
no rio Araguaia
sangue
do grito horrendo
que ocupa
toda a página
com o sangue
do Alto da Lapa
do mês
de dezembro de 1976
sangue
de todas
as Lapas possíveis e imaginárias
sangue
das periferias mais inacessíveis
sangue
do cinza dos dias
sangue
feito da pasta sanguínea
dos que
sangram
pensemos
sobre eles
este
poema é uma grande mancha vermelha
de
onde os tiranos não podem retirar amostras
foi
feito em homenagem aos que tombaram
no
Alto da Lapa
no
dia de dezembro de 1976
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