Seu Cirineu

 

Sentado no banco da praça,
Ele é presença notória e sabe de tudo,
Da última morte ocorrida,
Da mulher que trai,
Do sujeito que é “perdido” no jogo,
Daquele que está prestes a quebrar
E braceja nas garras do agiota.

Sabe sempre quem acabou de passar por ali
E também de quem está por chegar,
Tem a língua perigosa, agencia brigas e até mortes,
Corta e recorta a vida dos outros.

Porém, chega um dia, a praça não parece a mesma;
Sobreveio-lhe o aviso que ele não pôde dar aos outros: 
Morreu!

Gente aliviada,
(as mulheres odeiam os homens linguarudos das praças!),
Gente saudosa (o barbeiro perdeu sua fonte de fuxicos),
Gente indiferente: já vai tarde...
Mas, no banco da praça, 
Seu Cirineu já tem substituto, deixou herdeiros de prosa,
Afinal, onde já se viu, uma praça assim,
Sem as rodas de Cirineus?! 
Praça mais sem graça... mais sem alma!

 

 


Do livro Arribadas (O Passo da Volta)
de Carlos Rodolfo Stopa, ilustrado por Paula Baggio

e-mail: stopa@uol.com.br


 

 

"A Pintora e o Poeta"


A pintora Paula Baggio e o poeta Carlos Rodolfo Stopa falam destes nossos interiores: destas nossas praças quase desertas, do velho ponto de táxi, das rodas de conversas e dos seus tipos humanos. Que ninguém se iluda: cada um de nós tem a "sua" praça, a sua roda, e angustia-se na espera do aviso final. E, com mais freqüência do que gostaríamos, nos acossa a vaga sensação de um tédio que não se expressa em palavras.