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Tem um dito popular que afirma "a primeira vez a gente nunca esquece". Ele foi o mote para um dos melhores comerciais que nossa televisão já veiculou, aquele do sutiã Du Loren, que revelou para o público brasileiro a graça e a beleza da Patrícia Luchesi. Esse ditado tem validade praticamente universal e generalizada. É de conhecimento de todos que a primeira apresentação de uma obra teatral é a que mais gera adrenalina nos atores. Vale para o consagrado Paulo Autran, como vale para um aluno do "Tablado" na apresentação de sua primeira peça. Vale para aquele primeiro encontro afetivo onde os parceiros vão se descobrir sexualmente a sós num quarto, numa cama, à meia-luz, como vale para aquela primeira intervenção em público, auditório lotado, microfones, luzes, câmara, ação. A adrenalina e o nervosismo da primeira vez são simultaneamente fontes de prazer e dor. Não a dor física, mas aquela causada pelo temor de as coisas não darem certo, uma dor interior, dor d’alma, como diria o poeta. Fonte de prazer, não o mundano ou também ele, mas principalmente o dos sentimentos, o do reconhecimento, o de saber ter vencido uma etapa. É nesse contexto que se insere a primeira aula dada por um professor. Ela vem precedida de um sem-número de estudos pedagógicos, psicológicos, do treinamento feito nas classes com os colegas, de uma simulação em casa com o pais, com irmãos, ou até com amigos e amigas. Mas o momento do enfrentamento primeiro, diante de uma classe, diante de um grupo de alunos, o entrevero com esse público privilegiado de interlocutores é inusitado e distinto de qualquer encenação. A simulação prepara, dá força, mas é qualitativamente diferente por não envolver o imponderado, por não envolver o desconhecido, enfim por não ser "o real". A Zazá foi chamada para dar aulas num curso supletivo. Ela ia substituir o Zé Roberto, colega de faculdade que acabara de ser aceito no mestrado da Unicamp. Iria começar em uma turma de primeiro colegial; a matéria, geografia física da América; e um aviso do coordenador do curso: "No fundo da sala do lado direito senta o Tadeu; ele é bem informado, matreiro e gosta de colocar em cheque o conhecimento do professor". A primeira aula, como já dissemos, é exaustivamente preparada pelo professor. E foi o que fez a Zazá. Ela dominava o conteúdo; mais que isso ela brincava, flutuava, bailava, fantasiava, coloria, viajava com os rios, com as estepes e pradarias, com as monções e os mares de algas, os picos nevados, a caatinga e o serrado, os golfos, as penínsulas, o Canadá e a Terra do Fogo. Mas primeira aula é primeira aula e ela não ia entrar desprevenida. Foi tanta preparação que ela até tinha decorado as palavras, decorado cada palavra e cada possível pergunta e respectiva resposta. Ela entrou suando na classe, se apresentou, elogiou o amigo que ia substituir, falou sobre o conteúdo que ia desenvolver, como era seu método de trabalho, falou das provas e pediu a colaboração dos alunos. O nervosismo era patente. O giz não parava em sua mão e ela não via a cara dos alunos. Aquele esboço que fez milhares de vezes do mapa das Américas saiu todo torto e tremido na lousa. Boca seca; as palavras saindo com imensa dificuldade. Em flashes de pensamento ela se agradecia por ter praticamente decorado a aula. Que ninguém me faça uma pergunta, era seu desejo. Ela nem olhava para o lado onde estava sentado o anunciado Tadeu. Tudo ia bem até que o "aborrecente" levantou a mão. É agora, pensou a Zazá, por que fui escolher esta profissão se não dou pra esse negócio. Maldita hora em que o Zé me chamou pra estas aulas. - Diga lá jovem, alguma dúvida? - Não é dúvida. Gostaria que a senhora me fizesse uma descrição do clima e da paisagem da Groenlândia. Era o que faltava. O nervosismo era tal que a Zazá não conseguia mais lembrar onde era essa tal de Groenlândia. Não havia tempo pra pensar, pois um dos conselhos que mais ouvira foi o de que não podia se mostrar insegura para os alunos. Responda errado com convicção, mas responda. Se for o caso na aula seguinte faça a correção, nada de mostrar desconhecimento, o professor diante de seus alunos é onipotente. Ela procurou na sua memória a tal Groenlândia mas não teve jeito. Respondeu com firmeza e seriedade para o Tadeu: - Ora meu jovem, o clima e a paisagem da Groenlândia são similares ao do nordeste brasileiro, mas isso nós vamos ver com detalhes na próxima aula. Tadeu, com um sorrizinho contido, sarcástico e matreiro, ajudou a Zazá. - Acho que é isso mesmo, "fessora", ouvi dizer que lá faz um calorão e que nas praias há muitas palmeiras e coqueiros; na próxima aula vê se arranja uma foto de lá, assim a gente fica com uma idéia melhor. William Martani |
| Paulistano, 52 anos, matemático, joga e brinca irresponsavelmente com
cores,
joga e brinca afetivamente com palavras (pretexto: articular, no som e na disposição estética, texto e contexto), conta causos, ouve
impropérios e não é causídico, inimigo marcado do mercado e seu main stream, viveu em Cuba de 73 a 79, insiste em acreditar nas
utopias, não dispensa Minister e bourbon. E-mail: wmartani@bol.com.br |
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