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O Lidião tinha uma filha, a Valquíria, muito bonita e educada, que estudou num colégio de freiras. Naquela época as escolas religiosas não permitiam meninos e meninas estudando juntos. Tal contato era proibido pelos "perigos" embutidos nessa aproximação. Para os meninos havia o Liceu Sagrado Coração de Jesus, ali nos Campos Elísios, que além de ser uma ótima escola tinha uma igreja que durante muitos anos foi a preferida para os casamentos da "alta sociedade" paulista. Diria o Athaíde Patrese que era um "luxo" casar na Igreja do Liceu. Para as meninas, o Colégio Santa Inês, na Rua Três Rios, no coração do Bom Retiro. Prédio imponente, dependências bem-cuidadas, orgulho do bairro, formou durante décadas as meninas de classe média das redondezas. O nome dela era uma homenagem do Lidião a Wagner o grande compositor que imortalizou em sua obra A cavalgada das valquírias, a saga de Votan (Odin) o grande Deus da mitologia escandinava, que desde o Valhala vigiava e protegia os povos da Escandinávia. Diz a lenda que as valquírias, virgens guerreiras, recolhiam os mortos em combate e os levava para o Valhala, lhes dava de beber o hidromel (bebida que lhes restaurava a energia) para se constituirem na Guarda de Honra de Votan. Valquíria acabou por se tornar esforçada e dedicada professora de biologia, e pelas recorrências do destino, alguns anos mais tarde, viria a lecionar no curso supletivo de 1ª grau que funcionava à noite no Colégio, este agora já permitindo o convívio dos sexos em suas dependências. Quando ela chegou para iniciar seu trabalho foi advertida pelo padre Roberto, coordenador dos cursos, de que na 2ª série B havia um aluno, o Marquinhos, que era terrível. Useiro e vezeiro em desacatar e enfrentar os professores, teria que receber uma atenção diferenciada. Valquíria disse ao padre que não se preocupasse, que já tinha tido muitas experiências com garotos "levados" e que não seria o tal do Marquinhos quem a iria tirar do sério. Em seu primeiro dia de aula na "2ª-B", Valquíria, depois de se apresentar, informou aos alunos que sua metodologia de trabalho priorizava a participação dos alunos na construção dos conhecimentos e até mesmo na própria organização da aula. Disse-lhes: - Pessoal, a própria "chamada" diária para confirmar a presença dos alunos será feita por um de vocês. Deixe-me ver. Rapaz simpático e com cara de ser muito responsável aí do fundo, qual seu nome? Inconteste respondeu o jovem rebelde: - Sou o Marcos, fessora, mas pode me chamar de Marquinhos, algum "pobrema"? - Não - respondeu Valquíria. - Só gostaria que você me ajudasse na manutenção da disciplina aqui na classe e ficasse encarregado de me fazer a chamada todos os dias. Se você quiser, pode inclusive ficar aqui ao meu lado. Veja, a lista de presença ficará em suas mãos e sob sua responsabilidade, tudo bem? Com ar de superioridade o garoto se levantou e iniciou um pequeno discurso. - Bem, macacada, a fessora já viu que quem tem "responsa" e dá as cartas aqui na classe sou eu. Já vou dizendo, num quero bagunça e quem "zuá" com a fessora vai se vê comigo. Valquíria tinha seguido um princípio da pedagogia e de vida que é o de atribuir responsabilidade para comprometer as pessoas a um determinado trabalho. De fato o princípio pedagógico havia funcionado e Marquinhos havia se tornado seu fiel escudeiro. Valquíria sentiu-se dominadora da situação. Havia domesticado o jovem rebelde. Só que a surpresa viria após dois meses da feliz união. Terminada uma aula, Marquinhos revelou à professora sua visão dos acontecimentos. - Olha, fessora, gostei mesmo desse seu "méto" de trabalho. Valquíria, com surpresa, pensando no princípio pedagógico e de vida, perguntou ao Marquinhos: - De que método você está falando? O garoto lhe respondeu: - Esse negócio, fessora, gostei mesmo. É isso aí, bicho, quando a gente não pode derrotar um inimigo a gente se alia a ele. William Martani |
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