— Olhe as duas! — e Andrade cutucou com o cotovelo, quase me fazendo deixar cair o copo de aperitivo. 
 

Busquei por entre as pessoas que lotavam o salão do Museu da Imagem e do Som, perdido por entre as telas. Tentara, com a maior boa vontade, na última hora, compreender o que diziam aqueles borra-tintas: Vasiliev, Wharol, Wesselmann. Pareciam um bando de crianças mal-educadas em sua produção de cores berrantes, trabalho casual, evidentemente pré-escolar! Sacudi a cabeça, sem identificar ninguém conhecido.
 

— As duas irmãs!
 

E só então percebi os rostos morenos, de olhos negros e de recorte amendoado, as bocas polpudas, o porte elegante, que tanto nos excitaram — a Andrade e eu — no clube da Universidade, meses atrás.
 

— Vamos, Walter! Hoje parece que estão sozinhas!
 

Coloquei o copo já vazio em cima do móvel mais próximo e me adiantei a ele. Embora o Andrade fosse muito mais atirado que eu, o fato é que naquela outra noite as duas haviam me disparado a imaginação, a sensualidade, e me atrevera a intervir na mesa de um companheiro de Unidade, deixando escrito o número de meu telefone num pedaço de guardanapo. Mas nenhuma das duas respondera ao meu pedido de socorro. E hoje o Destino nos colocava, de novo, frente a frente. Eu não perderia a oportunidade:
 

— Boa noite, como vão vocês?
 

As duas me examinaram por segundos, sem abandonarem o sorriso tão semelhante, e consultaram-se mudamente com os olhos, tal como eu percebera naquela outra ocasião. Por fim, uma delas respondeu, desviando o olhar para o Andrade, que acabara de me alcançar:
 

— Nós conhecemos vocês de algum lugar?
 

— Não se lembra? — me apressei, não permitiria que o Andrade, com seu jeito de conquistador de telenovela mexicana, pusesse tudo a perder: — Nós nos vimos há meses, no clube da Universidade; vocês estavam com o Otávio.
 

As duas voltaram a se olhar e uma delas rebentou em riso:
 

— Ahn! Aquele do Volkswagen?
 

A irm㠗 parecia até irmã gêmea! — acompanhou-a no riso:
 

— Claro que sim! Você me entregou um guardanapo... coisa mais esquisita! 
 

Um garçom se aproximou e voltou a oferecer o aperitivo, alguma mistura doce e aborrecida que tomávamos à falta do que fazer com as mãos.
 

— Bem... — e tornei a cortar Andrade que se preparava para interferir: — Eu escrevi o número de meu telefone...
 

Uma delas sacudiu a cabeça:
 

— Que pena. Joguei fora... Por que não me deu um cartão de visitas?
 

Enrubesci e, desta feita, meu colega se adiantou:
 

— Professor universitário não tem cartão, só por isso. E vocês... como se chamam?
 

Uma delas, a que mantivera a conversação, apresentou a irmã:
 

— Ela é Norair. Meu nome é Norailde. E o de vocês?
 

— Sou Rivera Andrade e esse... — não gostei do gesto de desdém com que ele me apontou: — é o Walter Scipione. Trabalhamos com Estatística na Universidade.
 

— Estão gostando da exposição? — e meneei a cabeça como a abarcar as telas em torno.
 

— Mais ou menos... — comentou Norair. Percebi que um dos encantos que nos maravilhavam era a tonalidade morena de suas peles. Não o moreno banal, ou de mulata cabocla. Mas um moreno com subtonalidades de bronze, de uma perfeição que fazia a gente querer tocα-la, acariciα-la. Os olhos, absolutamente negros, como se fossem pedras de hematita, talvez mais ainda, τnix perfeitas, sem jaça ou mancha! Os cílios, longos e também negros, lembravam os engastes para as gemas. E o brilho úmido, realçado com o pestanejar, fazia prever um choro iminente, lágrimas contidas — porém lágrimas de riso, de alegria transmitida pelo sorriso amplo, lábios carnudos estimulando o desejo de beijos, emoldurando dentes muito brancos e regulares.
 

Descrever Norair seria o mesmo que traçar o perfil de Norailde. E ambas mantinham uma contenção de gestos, espécie de pergunta-resposta silenciosa numa dança previamente ensaiada. Perfaziam um bale harmonioso, e até mesmo as dobras de suas roupas discretas, de um branco elegante, acompanhavam os movimentos delicados.
 

— Que tal sairmos para um barzinho... bebermos algo palatável? — propôs Andrade e me espantei com o palatável. O homem parecia inclinado a exaurir seu resumido vocabulário poético, personalidade direta e ríspida que se fazia notada até mesmo pelos alunos, em classe.
 

Elas voltaram à sua muda consulta que se expressou, no momento seguinte, por ambas se dirigirem à saída, sem palavra pronunciada ou gesto perceptível.
 

Acompanhamo-las, atabalhoadamente, para encontrα-las na calçada, a nos esperar.
 

— Aonde vamos? — indagou Norair (ou seria Norailde?).
 

Andrade me olhou por instantes mas nossa comunicação não-verbal nada tinha da eficiência daquela das duas irmãs.
 

— Que tal o Vou Vivendo? — propôs ele.
 

— Muito barulhento... — discordei. — Talvez o Jacaré, em Vila Madalena?
 

— Muita criançada! — contraveio Andrade.
 

As irmãs pareceram se impacientar:
 

— Proponho o Boa Idéia, da Oscar Freire. Lugarzinho gostoso e de preços razoáveis — disse Norair.
 

Ficou sendo.
 

 * * *
 

Meu colega de Departamento, quando dirige, parece ter vocação para formiga; o caminho mais curto entre dois pontos está longe de ser uma reta. Ele vira à direita (sem necessidade), quebra à esquerda na próxima rua, cruza por onde já deveria ter passado e, assim, ao chegarmos ao barzinho as duas já estavam sentadas a um canto, Norair com um chope meio consumido e Norailde bebericando um Campari. 

 

Nós pedimos uísque, batatas fritas e amendoim salgado; as moças sugeriram pistache para elas mesmas. Enquanto o garçom providenciava a encomenda, a conversa parecia ter morrido no nascedouro. De súbito, eu sentia toda minha timidez vir à tona e limitava-me, com certo despudor, a examinar os rostos de ambas. Sob esse exame atento consegui perceber, pela primeira vez, que Norailde tinha lábios mais polpudos, embora os de Norair por certo devessem ser muito macios. Os olhos eram idênticos e os trejeitos, ao falar, iguais. A voz possuía o mesmo timbre, embora Norailde falasse em tom um tantinho mais grave. E detectei duas minúsculas pintas no pescoço de Norair, que faltavam à outra. Aproveitei a identificação e, apontando uma delas, arrisquei:
 

— Você é Norair... ?
 

Elas se riram:
 

— Ela é Norailde; eu é quem sou Norair — disse a que não tinha pintinhas no pescoço.
 

— Puxa, mas como vocês são parecidas! — exclamou Andrade, de súbito, estendendo a mão e apanhando o uísque que acabara de chegar. Bebeu-o num longo gole que me preocupou: detesto bêbados na direção. Teria de levα-lo em casa e pegar um táxi de volta à minha!
 

Elas sorriram e Norair baixou a cabeça, dizendo, quase num fio de voz:
 

— Pois é... Somos praticamente idênticas. E esse é o drama de nossa história.
 

Olhei-as, curioso, mal suspeitando o que viria a seguir.
 

— E como é essa história? — arrisquei.
 

Norailde sacudiu a cabeça:
 

— Melhor nem contar. É terrível!
 

— Bem... se é doloroso assim... — e Andrade deixou o copo, depois de sorver a dose quase ao fim. Jogou um punhado de amendoins na boca e, ainda mastigando, continuou: — Afinal saímos para nos divertir. Não queremos incomodá-las!
 

— A nós, não incomoda — contraveio Norair. — Vocês é que poderiam ficar chocados.
 

A essa altura confesso que minha curiosidade estava espicaçada:
 

— Acho difícil chocar-nos... — sorri, sobranceiro.
 

— Mesmo com violências sexuais?
 

Andrade de imediato colocou-se a postos. Passou a mão no copo que o garçom voltara a encher e, entre um gole e outro, certificou-se:
 

— Você disse... sexuais?
 

Perdi-me, por alguns instantes, a examinar-lhe a face. Certamente identificava uma curiosidade mórbida, algo além da sexualidade normal. Por vezes ele me espantara com algum comentário escabroso sobre uma relação sua com alguma mulher; me escandalizara, outras ocasiões, com as estranhas companheiras que andavam com ele na noite paulistana. E agora conseguia perceber que sua atenção se polarizara através o duplo filtro, a combinação contrastante: sexo e violência!
 

As duas moças bebericavam com discrição, mas Norair já passara para o segundo chope:
 

— Querem, mesmo, saber?
 

Aquiesci mudamente, o pressentimento que antecede o rugir do trovão, o desencadeamento da tempestade, me afligindo o peito de maneira aflitiva.
 

— Sim, por certo, contem, contem! — apressou-se ele, e o segundo uísque chegava ao fim. Nervosamente se colocava na ponta da cadeira, o corpo inclinado por sobre a mesa, a cabeça em posição atenta como a não perder sequer um suspiro do raconto.
 

Norailde acenou para o garçom, indicando o Campari consumido e, olhando-nos alternadamente nos olhos, começou:
 

— Nossa mãe é indiana, de Baishangdar; papai era irlandês, formado em direito por Oxford. Encontraram-se quando mamãe ocupava a cátedra de Estudos de Hinduísmo, na Universidade de Londres. Por essa época ele já se ligara ao braço oriental do British Intelligence Service, pois o crescimento do nazismo, na Alemanha, prenunciava a eclosão de uma guerra de proporções mundiais.
 

Andrade a olhava algo espantado pelo inesperado que tomara a narrativa, mastigando nervosamente amendoins intercalados por batatas fritas. Eu mesmo estava pasmo, pois esperara algo de cunho totalmente diverso.
 

— As hostilidades haviam sido disparadas — continuou Norair, tomando a palavra — e papai foi enviado para a Índia. É claro que mamãe fez questão de acompanhα-lo pois poderia, antes de mais nada, ser-lhe de grande valia com as autoridades locais. Mas o Japão invadiu a China... mais uma, dentre tantas vezes, na História... e a situação se deteriorou. Os Aliados precisavam saber, ao certo, e não através da opinião parcial de Chiang Kai Chek, as reais proporções da ação nipônica. E a única maneira foi nossos pais se deslocarem para o sul da China, até Fuchow, uma cidade de população pequena (em termos chineses). Mal sabiam que os japoneses já haviam dominado Nanquim e Xangai, mais ao norte, e se deslocavam com presteza para o sul.
 

A esta altura eu me encontrava preso pelas palavras, pela cálida voz da moça, pelo movimento delicado de seus lábios umidecidos, volta e meia, pela ponta de uma gentil e rósea língua.
 

Um idoso garçom de cabelos completamente brancos, a pele lembrando uva passa, se postara próximo e, aos poucos, passara a prestar atenção à narrativa das moças. Agora, semi-inclinado, semelhava um hipnotizado de palco. Norair, como a permitir que a irmã descansasse, continuou:
 

— Papai operava um pequeno rádio transmissor, em telegrafia, todas as noites. Era apreciado pela sua inventividade: com um simples fio de varal improvisava uma antena. Uma bateria de carro resolvia a eventual falta de energia elétrica das instalações. E buscava sempre os melhores horários para transmitir, cifradamente, suas mensagens, o que garantia a recepção nos quartéis de Hong Kong ou, mesmo, na base em Londres. Até que, uma noite...

 

segue
 

ilustraηγo - agni guran