Lá vem
a Ondina maluca dizia o Dourado às comadres.
Imagine! Mora
naquela caverna escura e junta lixo! Que horror! cochichou a sardinha.
Não vejo utilidade nenhuma em juntar lixo.
Vira-e-mexe
está viajando. Dizem que ela vai pescar lixo nas latas do cais.
É maluca
mesmo. Por isso está sempre sozinha. Vive no mundo da lua. Ela e
aquele monte de lixo.
E a fofoca ia
longe... Ondina passava, cumprimentava a turminha timidamente, e seguia
em frente.
Mas quando chegava
à sua caverninha, bem no fundo do mar, ela chorava sozinha. Morava
na caverna porque ali podia chorar escondida. Era muito triste não
ser compreendida. Sabia que todos pensavam que fosse maluca.
Depois enxugava
as lágrimas e se preparava para a próxima viagem.
A bagagem era
simples: uma vara de pescar, linha, anzol, e uma redinha feita de algas
marinhas.
E lá ia
ela, sempre sozinha, aquele olhar triste estampado no rosto.
Escolhia o melhor
lugar e... zziiimmm... lançava o anzol, bem dentro do latão.
Depois puxava a linha:
Uuiii! Este
é pesado!
Lançava
o anzol novamente e...
Ah, que belezinha...
Outra vez e...
Oh! coitadinho!
Depois colocava
tudo na redinha, e tomava o caminho de volta para a caverna.
A caverna de Ondina
era cheia de bugigangas, espalhadas por todos os lados. Mas ela nem notava
a bagunça. O importante ali eram seus novos amigos: um rolo de barbante,
um leque quebrado, uma garrafa da pinga vazia, um garfo de madeira desdentado.
Ela reuniu o pessoal e começou a falar:
Eu me chamo
Ondina, e moro aqui, nesta caverninha. Sejam bem-vindos.
Bem disse
o barbante. Minha história é muito comum. Fui jogado no
lixo porque sou muito comum. Tem muitos barbantes espalhados por aí.
Ninguém precisa de mim, ninguém nota a minha presença
porque não sou um barbante enfeitado.
O leque se aproximou
e disse:
Todos me acham
feio, porque as minhas cores não combinam com nada. Quem me fabricou
me deu de presente a uma mulher que me achou horrível. Fui guardado
por muito tempo no fundo de uma gaveta. Depois fui dado a outra pessoa.
Esta me deu a outra. Ninguém me quis, e enquanto eu passava de mão
em mão, envelheci. Fiquei mais feio ainda. As pessoas, sem querer,
me tiravam pedaços... até que fui para o lixo.
Depois foi a vez
da garrafa:
Sinto um vazio
muito grande no estômago... parece que falta alguma coisa dentro
de mim, desde o dia em que alguém me comprou num bar e depois foi
dormir na praia. Fiquei de cabeça para baixo, e tudo o que tinha
dentro de mim derramou na areia. Agora sinto esse vazio...
Foi interrompida
pelo garfo:
Sou muito moderno.
Tudo o que é moderno é descartável. Usam, e depois
jogam fora. Fui fabricado há bem pouco tempo, fui usado uma vez
só, e depois fui para o lixo. Não sirvo para nada.
Ondina ouvia as
histórias e conversava com seus amiguinhos, sem perceber que alguém
a espionava.
**
Na reunião
da turminha:
Ela fala sozinha?
Sim disse
a truta espiã. Conversa com barbantes, garrafas, sapatos, latas
vazias, como se estivesse ouvindo suas queixas.
O peixe-chefe
resolveu dar sua opinião:
Estamos todos
intrigados com a vida da Ondina-maluca-que-pesca-lixo-e-fala-sozinha. Ela
nos deixa irritados porque não vemos utilidade nenhuma em alguém
ir buscar o que ninguém mais quer. Só há um jeito
de saber por que ela faz isso. Vamos até a caverna fazer uma visita
para Ondina.
Os peixinhos,
contrariados, acabaram aceitando a sugestão do chefe. E lá
foram eles, mortos de medo da Ondina-maluca.
**
Ondina recebeu
os visitantes com grande alegria. Ajeitou um cantinho no meio das suas
bugigangas para acomodar a turminha, e perguntou qual o motivo da visita,
pois estava realmente surpresa.
Dona Ondina
começou o peixe-chefe, com o peito estufado, para mostrar autoridade.
Dizem por aí que a senhora costuma viajar até a tona, para
pescar lixo das latas do cais.
Sim, é
verdade respondeu Ondina.
A senhora sabe
que quem pesca é considerado nosso inimigo continuou o peixe-chefe.
Muitos de nossos parentes morreram no anzol.
Mas a minha
pesca é inofensiva disse Ondina, muito desapontada. Minha intenção
é trazer para a minha caverna aquilo que ninguém mais quer.
Apontou para os
novos amiguinhos recém-pescados, que já estavam consertados
e limpos, e continuou:
Esses coitadinhos
estavam jogados numa lata de lixo, sentiam-se inúteis e desamparados,
e eu fui salvá-los. Como o senhor pode ver, alguns pescam para matar,
outros pescam para salvar.
E por que a
senhora quer salvar esse lixo?
Ondina sorriu,
o olhar triste perdido em algum lugar muito longe. Então falou:
Para realizar
sonhos, os meus sonhos e os sonhos de todo mundo, senhor chefe.
Os peixinhos ficaram
se olhando uns aos outros, sem entender nada. Então a carpa se aproximou
de Ondina e falou:
Como é
que a senhora pretende realizar sonhos? Só Netuno tem esse poder!
Há muito tempo eu sonho um sonho impossível. Perdi uma barbatana
durante uma escapada da perseguição de um tubarão.
Nunca mais pude nadar rapidamente, e fico sempre para trás. Mas
é impossível recuperar minha barbatana!
Oh! exclamou
Ondina, toda feliz. Acho que posso dar um jeito nisso.
Chamou seu amigo
leque, grudou-o no toquinho da barbatana da carpa e depois amarrou-o com
o seu amigo barbante. A carpa saiu nadando numa velocidade incrível.
A turminha levou
um susto. Ficaram todos espantados com o milagre. O leque estava feliz
da vida por estar novamente abanando. O barbante achou fantástica
a utilidade que lhe deram: era mesmo diferente dos outros, e não
sabia que isso fosse possível.
A turminha bateu
palmas. Estavam todos encantados.
Então o
salmão também se animou:
Dona Ondina,
meu sonho sempre foi ser músico, mas eu não tenho nenhum
instrumento.
Ora disse
Ondina. Esse sonho é muito fácil.
Entregou ao salmão
a garrafa e o garfo.
Bata com o garfo
na garrafa, "seu" salmão.
O peixe obedeceu.
Saiu um som horrível. Então Ondina teve a idéia de
colocar um pouquinho de areia dentro da garrafa, até conseguir um
som agradável.
Então o
salmão pegou o garfo e começou a batucar um sambinha na garrafa.
Foi uma festa, e todos começaram a dançar. E quanto mais
dançavam, mais o mar se revolvia, e assim o plâncton iluminou
toda a caverna. Estavam todos felizes da vida.
Então o
peixe-chefe aproximou-se de Ondina, e disse:
É verdade,
dona Ondina. Uns pescam para matar, outros pescam para salvar.
Sim, senhor
chefe. O bem e o mal andam sempre juntos. A escolha é de cada um
de nós.
E o olhar triste
desapareceu do rosto de Ondina, que resolveu ir dançar com o peixe-chefe.
Todos concluíram,
afinal, que Ondina era na verdade uma artista. Ela executava a arte da
vida. Só precisava ser compreendida.
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