La vraie vie, la vie enfin découverte et éclaircie
la seule vie par conséquent réellement vécue
c’est la littérature1.
                                                                      Proust

O amor das palavras

Não se ensina literatura, ensina-se a ler. E esse percurso para a leitura se faz passo a passo, desde que aprendemos as primeiras letras, guiados pela mão amiga de um professor, sem que disso talvez tenhamos consciência, na direção da mais mágica das viagens, para a posse da chave encantada de todos os mundos, para a possibilidade de incontáveis companhias, mesmo que nossa vida esteja traçada para a solidão. O seguir com os olhos caracteres e escritas é o nosso primeiro encontro de amor com as palavras.

Ensinar alguém a ser leitor é uma doce tarefa, mostrar como reconhecer as palavras e sorrir para elas, mentalmente, fazer ver em suas alianças o início do desejo, a sedução da frase, o apelo dos inúmeros sentidos entrelaçados pelo passar dos séculos, sua força, a promessa e a expectativa do prazer.

Ler um texto é compreender o que está escondido nos traços visíveis, interpretar esses sinais pelo exercício da imaginação, completar o que está escrito com a nossa experiência, desvendar a experiência de outrem. A literatura deve ser entendida como revelação e visão. Ler é ver. Deve-se, portanto, ensinar a ver. As imagens multiplicam-se nos textos literários: pode-se ler o futuro nas linhas das mãos, ou um sentimento sobre um rosto, nos olhos — ver através da máscara da face2 — e, até mesmo, descobrir o íntimo de alguém — se tu pudesses ler no meu coração, verias o lugar que eu te dei!3 E se não conseguimos é porque nossa alma, ai! não é bastante ousada4. Sem sentir, seguimos lendo textos diversos pela vida afora. Do domínio lingüístico, a leitura estende-se à nossa vida e ao mundo: interpretamos sinais da natureza, lemos o céu de chuva, deciframos nuvens, como os xamãs de outras crenças.

É tudo uma questão de querer. Segundo Ezra Pound5,

a ambição do leitor pode ser medíocre e a ambição de dois leitores não há de ser idêntica. O professor só pode ministrar os seus ensinamentos àqueles que mais "querem" aprender, mas ele pode sempre despertar os seus alunos com "aperitivo", ele pode, ao menos, fornecer-lhes uma lista das coisas que vale a pena aprender em literatura ou num determinado capítulo dela.

Esse "despertar" do leitor equivale ao que Barthes chama de a sedução do texto. O leitor precisa ser atraído, seduzido pelo autor, que, com seu texto, instaura uma dialética do desejo: esse leitor, é preciso que eu o procure (que eu o "paquere"), sem saber onde ele está6. Cria-se, na leitura, um espaço de prazer, que pode culminar com o apelo à identidade total entre escritor e leitor: Hypocrite lecteur, mon semblable, mon frère!7, exclamava Baudelaire, invocando o leitor de Fleurs du Mal, eco, talvez, do grito de Victor Hugo, no prefácio de Contemplations, Ah! insensé qui crois que je ne suis pas toi!8.

Pela arte podemos sair de nós e multiplicar o universo ao infinito, penetrar nos universos imensuráveis dos artistas e neles encontrar o nosso próprio. É essa a teoria de Proust: compreender o Livro como um mundo e o mundo como um Livro. O livro é a lente de aumento através da qual o escritor fornece aos leitores o meio de lerem em si mesmos. Proust diz no final da Recherche:

e voltando a mim, eu pensava mais modestamente em meu livro, e seria mesmo inexato dizer que pensava naqueles que o leriam, em meus leitores. Pois eles não seriam, na minha opinião, meus leitores, mas os próprios leitores de si mesmos.9

Que cada um de nós possa ser um leitor disponível, pronto a deixar-se impregnar pelo conjunto dos mundos, pois ler no visível o que nele se esconde é participar de um ato de magia. É mago aquele por quem passa a força sideral e recebe a visita dos astros. O professor apenas inicia os seus alunos nesse ato mágico de percepção do que estava oculto ou secreto. Experimenta com eles as etapas tradicionais da iniciação: o desejo, o desalento, a revelação, exatamente como no próprio aprendizado de viver. A ilusão, a decepção – a verdade – a escritura. A vida não passa de um sonho, a vida e a palavra poética. Conhecer, para o mago, é sinônimo de revelação10. É preciso desejar esta incursão, fazê-la possível, provocá-la, manter-se aberto ao apelo das palavras e, a partir de então, nada mais será impossível. A surpresa da intimidade natural é um ato de magia. Ser um visionário: tornar-se a própria estrela, transformar-se em texto, em palavra, tornar-se escritura.

Fazer da leitura uma escritura é tornar o leitor não mais somente um receptor, mas um produtor de texto, capaz de uma leitura ativa, no sentido de re-escrever o texto. O texto traz em si, subjacente, a "volúpia" da descoberta. A escritura é isto: a ciência dos prazeres da linguagem, seu kamasutra11, e o leitor torna-se o parceiro nessa arte de amar. Cria-se um amor total entre o leitor e o texto e, através desse, entre o leitor e o autor. Assim, chegamos ao momento em que está definido o trinômio autor-texto-leitor, na metamorfose da palavra (é hora do professor eclipsar-se).

A literatura é uma prova do amor da coisa mais comum: o amor da palavra. A palavra poética não é necessariamente uma bela palavra — nem essência, nem idéia —, é uma palavra como qualquer outra, ligada por uma cadeia horizontal ao contexto próximo e por uma cadeia vertical aos longínquos — sua memória. Ela toma o seu sentido ali: em um determinado escritor, em uma determinada obra. É através dela que a obra e o escritor se definem.

As palavras estão em nosso sangue, na ponta dos dedos, escorrem pelos nossos lábios, deixam o cérebro pensar que é coração. Eis o segredo: surpreender-se, sempre. Percorrer os caminhos do autor, olhar o texto e, através dele, ver o mundo como o escritor o vê e encontrar nele a nossa própria cosmovisão. Visão, revelação, iluminação. Mas uma iluminação que faz parte de nós, que vem de nós, sem que queiramos, sem que precisemos intervir. Como Orfeu, que desceu aos Infernos. Mas foi preciso ir lá embaixo, procurar Eurídice, encantar os deuses, fazer as pedras chorarem. É preciso que nos entreguemos, completamente. É o momento em que saímos do Hades.

Costumo dizer aos meus alunos que tudo o que eles podem querer saber de um texto as palavras o dizem, basta que eles saibam ver. Está tudo lá, nas palavras... Não no que o autor "quis" dizer, mas no que efetivamente as palavras dizem. Elas trazem para a literatura todas as artes reunidas, pois, se a pintura é a arte da cor; a música, a dos sons; a dança, a do movimento e a escultura, a das formas e volumes, a literatura, como arte das palavras, tem todas as artes em si, contidas no mistério de sua própria matéria: a palavra.

Quando eu digo: A árvore azul de meu pensamento grita o lamento de minha alma, tenho uma paisagem do mundo, tenho a cor, o movimento, a textura, o volume, o som, o sentimento, o desespero, a alma, tenho a mim mesma; eu vejo, ouço, toco, sinto, aspiro, tenho todos os sentidos em uníssono, apenas pelo que as palavras me sugerem... e elas sugerem... Ah! e como sugerem!

Isso faz os olhos dos meus alunos brilharem, brilharem...

Mas acho que refletem os meus.

Lilia Silvestre Chaves

Notas

1 A verdadeira vida, a vida enfim descoberta e iluminada, a única vida, portanto, realmente vivida é a literatura. As traduções são de responsabilidade da autora deste texto.

2 Raimundo Correia.

3 No original: Si tu pouvais lire dans mon coeur, tu verrais la place où je t’ai mise!, Gustave Flaubert.

4 No original: C’est que notre âme, hélas! n’est pas assez hardie, Charles Baudelaire.

5 POUND, E. O ABC da literatura. São Paulo, Cultrix: s/d. p. 38-39.

6 No original: Ce lecteur, il faut que je le cherche, (que je le "drague"), sans savoir où il est. BARTHES, R. Le plaisir du texte. Paris, Editions du Seuil: 1973, p. 11.

7 Leitor hipócrita, – meu semelhante, – meu irmão!

8 Ah! insensato que pensas que eu não sou tu!

9 No original: Mais pour en revenir à moi-même, je pensais plus modestement à mon livre, et ce serait même inexact que dire en pensant à ceux qui le liraient, à mes lecteurs. Car il ne seraient pas, selon moi, mes lecteurs, mais les propres lecteurs d’eux-mêmes. PROUST. Le temps retrouvé. Paris, Gallimard: 1954, p. 424.

10 No original: Connaître est synonyme, chez le mage, de révélation. PARACELSE, De la magie. Strasbourg, Presses Universitaires de Strasbourg: 1998, p. 26.

11 No original: L’écriture est ceci: la science des jouissances du langage, son kamasutra. BARTHES, R. op. cit., p. 14.

  Poeta, professora de Literatura Francesa,
autora de ensaios sobre teoria literária,
contadora de nuvens e ariana típica.

E-mail:
lmartin@nautilus.com.br